Celebração com cidadania
Quarto eixo do projeto que celebra 40 anos da Revide aprofunda a necessidade de revitalização e requalificação do Centro, berço e coração históricos de Ribeirão Preto
Chegamos ao quarto e último eixo do projeto editorial “Revide 40 Anos”: o Centro de Ribeirão Preto, berço e coração histórico de nossa metrópole interiorana. A região passou as últimas décadas negligenciada por administrações públicas e apartada do processo de desenvolvimento e valorização urbanos do município.
Levantamento de 2024 contratado pela Acirp (Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto) ao IPCIC (Instituto Paulista de Cidades e Identidades Culturais) dá pistas de um processo de esvaziamento e perda de vitalidade econômica em seu quadrilátero central (formado por 177 quadras delimitadas pelas avenidas Francisco Junqueira, Independência, Nove de Julho e Jerônimo Gonçalves) que sucessivas administrações municipais não deram conta de reverter de forma estrutural. Pouco mais de 19,2% de seus 3.466 lotes seguem fechados, sem uso, para aluguel ou à venda. Espalhados pelos 80,8% ativos vivem, atualmente, 23 mil habitantes.
Dados de CNAEs (Classificação Nacional de Atividades Econômicas) de 2026, compilados pelo Instituto de Economia Maurílio Biagi, da Acirp, indicam uma economia dominada por serviços em 66% das empresas, seguidos por comércio (25%), indústria (6%) e construção civil (3%). Predominam os pequenos negócios: 75% dos entrevistados para o levantamento têm até dez funcionários, enquanto 3,9% empregam 50 pessoas ou mais.
Os estabelecimentos que atuam em comércio e/ou serviços dividem espaço com patrimônio histórico e equipamentos públicos, e convivem com imóveis ociosos, calçadas inadequadas, pouca arborização, iluminação deficiente e uma consequente sensação de insegurança. Por isso, revitalizar a região é uma questão de urgência, concordam empresários, gestores e representantes da sociedade civil ouvidos nesta reportagem. Para eles, não basta apenas recuperar fachadas ou praças. É preciso devolver à cidade o espaço valioso de convivência, moradia, cultura e oportunidades que a região central já foi e merece voltar a ser.
DIAGNÓSTICO PARA UMA VIRADA
A requalificação do Centro foi uma das bandeiras da chapa “Acirp para Todos” desde o primeiro mandato da atual presidente da entidade, Sandra Brandani Picinato. “Também por ser empresária dessa região, eu conhecia os desafios da área central. Além disso, o Centro é o marco zero da cidade. Todas as demais regiões têm ali um ponto de convergência e de referência, seja histórica, afetiva ou prática mesmo. A partir disso, nós queríamos mudar essa realidade de esvaziamento”, comenta a empresária.
Para conhecer o cenário antes de decidir qualquer ação, a Acirp encomendou ao IPCIC um mapeamento econômico, urbanístico e social do Centro. Entre maio e junho de 2024, o instituto ouviu empresários, trabalhadores, moradores, frequentadores e proprietários. O diagnóstico, intitulado Requalifica Ribeirão, aponta o que os usuários desejam para o quadrilátero, segundo Adriana Silva, coordenadora de projetos do IPCIC.
Nas respostas múltiplas sobre insatisfações, 82,4% apontaram banheiros públicos insuficientes; 67,8%, calçamento inadequado; e 64,4%, falta de segurança. Também foram citadas fiação aparente, acessibilidade, arborização, sujeira e iluminação. O projeto propôs 50 ações exequíveis no curto e no médio prazo, envolvendo poder público, iniciativa privada e sociedade civil, organizadas sob quatro eixos, segundo Adriana.
O primeiro eixo de propostas, Inteligência, prevê coleta e análise contínua de informações, como mapeamento de fachadas, imóveis, arborização e fluxos. O segundo, Patrimônio Histórico, busca preservar e promover a herança arquitetônica, estimular proprietários a conservar seus imóveis e criar condições para a recuperação de edifícios antigos. O terceiro, Urbanismo e Verdejamento, reúne intervenções em infraestrutura, acessibilidade, calçadas, circulação, sombreamento e arborização. O quarto, Cultura e Lazer, propõe ampliar eventos e usos capazes de tornar o Centro um destino, e não apenas um lugar de passagem.
As propostas vão da melhoria das fachadas a uma legislação para aplicação do retrofit, processo de modernização de edifícios antigos que preserva sua estrutura e valor histórico. “Foi um cuidado da equipe do IPCIC propor ações em diferentes níveis de complexidade”, explica Adriana.
O levantamento também revelou a expectativa dos usuários do Centro. “Dos entrevistados, 92,3% demonstraram confiança de que, de fato, mudanças aconteceriam e, infelizmente, não houve continuidade”, comenta Adriana.
HÁ APOIOS, MAS NÃO ENGRENAGEM PERMANENTE
O mapeamento da Acirp/IPCIC foi concluído em ano eleitoral, por isso se fez necessário aguardar a nova gestão tomar posse para apresentar suas conclusões. Segundo Adriana, ocorreu uma reunião para apresentação do projeto ao prefeito em 2025. “Depois disso não fomos acionados para participar de nenhum outro movimento. Da parte do IPCIC, que não tem autonomia na governança do Centro, resolvemos seguir atuando no eixo Patrimônio Histórico e estamos trabalhando em alguns projetos de restauração”, informa Adriana. Ela pontua que o projeto de requalificação do Centro não pode ser realizado por uma única instituição. “O sucesso da proposta está na criação de uma rede de cooperação. Trata-se de uma iniciativa de alta complexidade quanto à sua abrangência e só dará resultado se todos os envolvidos se entenderem partícipes. Esse é o desafio”, acrescenta.
A Prefeitura de Ribeirão Preto informa ter recebido o estudo do IPCIC encaminhado via Casa Civil – chefiada pelo vice-prefeito, Alessandro Maraca – e que parte das contribuições propostas nele embasa um projeto municipal mais amplo. Segundo o prefeito, Ricardo Silva, uma comissão será instituída para integrar as áreas envolvidas. A proposta em elaboração incluiria recuperação de espaços públicos, melhorias em vias e iluminação, incentivos à moradia, ocupação noturna, retrofit e novos benefícios fiscais.
“Os investimentos do novo projeto serão realizados por etapas ao longo do mandato. À medida que os projetos forem consolidados, serão definidas as prioridades, os valores, as fontes de recursos e os cronogramas de execução, compatibilizados com o planejamento orçamentário do município”, informa o prefeito, por meio de sua Secretaria de Comunicação.
Já a Acirp concentra esforços em ações que independem de uma grande obra pública, segundo sua presidente. A entidade atuou para manter a Prefeitura no Centro, diante de um projeto anterior de mudança para o Jardim Independência, e o Escritório Regional da Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo), transferido em dezembro para a sede da Acirp. Também centralizou suas distritais na região.
Sandra cita ainda o apoio ao Inova 2026 e o lançamento, em 2025, do ACI Requalifica. Inspirado no estudo do IPCIC, o programa gratuito orienta associados sobre melhorias nas fachadas. Sob responsabilidade da arquiteta e urbanista Nathália Balzuweit, a iniciativa foi ampliada às demais distritais. Em janeiro, sugeriu ao município melhorias nas áreas verdes, circulação e sombreamento do Calçadão da General Osório. “Foram todas prontamente atendidas”, comemora Sandra.
PLANEJAMENTO E PARTICIPAÇÃO POPULAR
O Centro de Ribeirão Preto precisa voltar a receber investimentos públicos e privados planejados, articulados e construídos com participação social. A avaliação é da arquiteta e urbanista Ana Luisa Miranda, mestre em Geografia, professora universitária, sócia-fundadora e atual presidente do Instituto Território em Rede. Segundo ela, a saída da elite ribeirão-pretana do Centro foi seguida por um processo gradual de degradação física, desvalorização imobiliária e redução da capacidade de reivindicação política por melhorias.
Ela destaca que o Plano Diretor prevê a elaboração de Planos de Ação Regional para áreas com dinâmicas socioespaciais específicas, mas observa que nenhum instrumento desse tipo foi produzido, apesar da proximidade de uma nova revisão do Plano Diretor.
Ana Luisa aponta a ocupação do antigo edifício da Sociedade Recreativa e de Esportes pelo Sesc como exemplo de intervenção com capacidade de irradiar desenvolvimento no entorno sem promover exclusão. “O reuso também é decisivo para conservar o patrimônio histórico. Em imóveis ecléticos, porém, a adequação às normas de acessibilidade impõe desafios como soleiras elevadas, escadas monumentais, circulação vertical e adaptação de banheiros”, analisa.
De acordo com a profissional, a deterioração das praças do Centro produz um impacto que vai além da desvalorização dos imóveis vizinhos, porque enfraquece a vida pública. “São espaços que promovem a sociabilidade, as trocas e, especialmente, a convivência com a diferença, fundamentais para a vitalidade urbana, em tempos de fechamento da sociedade em espaços privados”, diz. E, numa Ribeirão Preto de temperaturas elevadas durante grande parte do ano, ela defende que uma padronização acessível das calçadas seja acompanhada por sombra, bancos e bebedouros, tornando os deslocamentos mais confortáveis.
A empresária Sofia Abrão Angerami está entre os proprietários de negócios no Centro cheios de expectativa sobre a revitalização. Dona da marca de doces artesanais Le Sofiah, inaugurou em dezembro do ano passado o Le Sofiah Café, em frente à Praça XV de Novembro. “O Centro faz parte da memória de Ribeirão Preto e tem uma localização privilegiada. Ao mesmo tempo existem os desafios. Questões como conservação dos espaços públicos, mobilidade e necessidade de atrair novamente diferentes públicos para a região acabam impactando diretamente quem empreende ali, mas prefiro olhar isso como oportunidade”, afirma.
Sofia espera que a revitalização devolva às pessoas a vontade de estar no Centro. “Isso passa por segurança, calçadas bem cuidadas, mobilidade e ocupação dos espaços públicos, mas também por cultura, gastronomia, comércio e entretenimento”, analisa.
VITALIDADE URBANA
Para a arquiteta Ana Luisa, o Centro ainda configura um espaço com vitalidade urbana, ao receber um número significativo de pessoas diariamente. É exatamente por isso que apresenta também um número expressivo de ocorrências de segurança pública. “Mais gente circulando implica mais registros, sem que isso signifique necessariamente maior risco”, diz. O principal problema, acredita ela, aparece à noite, quando o comércio fecha e as ruas se esvaziam. Para ampliar a presença de pessoas no período, ela propõe três frentes: reuso habitacional dos edifícios vazios, qualificação do espaço público — especialmente da iluminação — e incentivo a atividades comerciais, de serviços e culturais à noite.
No quesito segurança, a Prefeitura informa ter reorganizado, na região central, a coleta de resíduos, reforçado limpeza e manutenção, incorporado 64 agentes à Guarda Civil Metropolitana, preparado um sistema de videomonitoramento inteligente e assumido a ampliação da iluminação natalina nas ruas. Também colocou em andamento a Atividade Delegada, que permite reforçar a presença da Polícia Militar em locais e horários definidos como prioritários.
O apelo histórico do Centro segue potente para atrair investimentos, inclusive em bares abertos por empresários com a intenção de contribuir para sua revitalização, como a Revide mostrou na edição 1.293, de dezembro de 2025.
Fabiano Cesar Arantes integra a segunda geração do Grupo Arantes, empresa familiar de Franca (SP) com mais de 54 anos. A marca Chokdoce escolheu o Centro para sua primeira loja fora de Franca, que acaba de completar um ano de operação.
“Escolher o Centro de Ribeirão Preto para instalar a Chokdoce foi uma decisão estratégica. Acreditamos muito no potencial da região, que reúne características importantes para o varejo: história, identidade, tradição comercial, localização, fluxo de pessoas e diversidade de público”, explana Fabiano.
O padre Francisco Jaber Zanardo Moussa – o padre Chico –, da Catedral Metropolitana de Ribeirão Preto, resume a urgência de se revitalizar a região central ao observar que ela mantém fluxo de pessoas, porém está “bastante abandonada” estruturalmente. Considera prioritário um investimento no corredor que vai da rodoviária e do Mercadão Municipal ao Calçadão, à Praça XV e à Catedral.
Para o padre, pequenas ações de limpeza e conservação já atraem pessoas. “O simples fato de mantê-la limpa, bem arborizada, com um belo jardim e os passeios ao redor higienizados tem atraído muitas pessoas”, diz sobre a praça da Catedral. “Se ampliarmos esse cuidado para todo o Centro, certamente atrairemos o público”, aposta.
O padre também vê na gastronomia um atrativo para a região. “Quando realizamos eventos e quermesses na igreja ou no comércio, a gastronomia atrai bastante público. Ao visitar a Europa, percebi o quanto a gastronomia é um forte atrativo em locais históricos”, comenta.