ESG: estratégia ou vitrine?

ESG: estratégia ou vitrine?

Da agenda global ao chão das empresas do interior, o que separa o compromisso real do greenwashing e por que essa sigla já não é mais opcional, mas obrigatória

Tudo começou com uma provocação. Em 2004, o então Secretário-Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Kofi Annan, reuniu 50 CEOs das maiores instituições financeiras do mundo para fazer uma pergunta incômoda: “como o mercado de capitais poderia incorporar, de verdade, critérios ambientais, sociais e de governança nas suas decisões de investimento?”

 

Nasceu assim o termo ESG (Environmental, Social and Governance) — no Brasil, ASG (Ambiental, Social e Governança) —, utilizado no relatório "Who Cares Win" (Quem se Importa, Ganha), uma iniciativa do Secretário-Geral da ONU e do Pacto Global da ONU, endossada por 23 grandes instituições financeiras, recomendando considerar não só a análise financeira tradicional nas decisões de investimentos, mas também os aspectos ESG, principalmente devido ao risco de impactos decorrentes das mudanças climáticas sobre o capital financeiro. A partir daí foram sendo criadas várias diretrizes para ações e divulgação de informações econômicas, financeiras, ambientais e sociais das empresas.

 

Acopladas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que formam a Agenda 2030 (plano de ação global da ONU adotado por 193 países, que englobam 17 metas interconectadas para erradicar a pobreza, proteger o planeta e garantir prosperidade para todos), as diretrizes ESG formam o terceiro tema a ser aprofundado em reportagens da Revide, dentro do projeto comemorativo dos 40 Anos da revista.

 

A agenda ESG deixou de ser tema reservado a relatórios corporativos de grandes companhias para se tornar exigência de cadeia produtiva e critério de seleção de fornecedores – sem o qual se corre um risco silencioso de ficar fora do mercado – a partir de 2020, graças ao Padrão GRI, criado em 1997 pela organização Global Reporting Initiative (Iniciativa Global de Relatórios). Mais utilizado sistema de relatórios de sustentabilidade em todo o mundo, o Padrão GRI testou ao vivo, durante a pandemia, a resiliência dos negócios que seguiam práticas ESG. Empresas com práticas sólidas de cuidado com funcionários, fornecedores e comunidades reagiram melhor. As que viviam de aparência, sofreram.

 

Mas o que distingue um compromisso ESG genuíno de uma boa campanha de marketing embalada em verde (grenwashing)? E o que incentiva uma empresa de médio porte — sem pressão de investidores internacionais e sem cotas na bolsa — a embarcar nessa agenda?

 

Para a professora Adriana Cristina Ferreira Caldana, coordenadora adjunta da Coordenadoria de Administração Geral (Codage) da USP e titular do Departamento de Administração da Faculdade de Economia e Administração de Ribeirão Preto (FEARP) da USP, o greenwashing (maquiagem verde) preocupa. A palavra define quando uma empresa intitula como ESG ações que não são fundamentadas na estratégia, não são um compromisso perene e não estão relacionadas a indicadores robustos que possam ser verificados por empresas externas e certificadores. "Classificamos assim porque torna-se mais campanha de marketing do que um compromisso real da empresa de contribuir com práticas ambientais, sociais e de governança", explica a pesquisadora.

 

Os três pilares

 

O ESG se sustenta sobre três pilares. O Ambiental engloba gestão de emissões de gases de efeito estufa, uso de recursos naturais, política de desmatamento, gestão de resíduos, água e energia e preservação da biodiversidade. O Social abrange saúde e segurança dos trabalhadores, salário justo, benefícios, engajamento de funcionários, gestão de fornecedores e segurança de dados. A Governança contempla conformidade, transparência financeira e contábil, auditoria e práticas de remuneração dos acionistas.

 

Não são critérios isoláveis. Uma empresa que polui rios e trata bem os funcionários não tem ESG. Outra com balanço impecável e cadeia de fornecimento opaca, tampouco. O tripé só funciona inteiro.

 

No Brasil, o pilar Ambiental concentrou historicamente a maior atenção, impulsionado, em parte, pela pressão de investidores e mercados compradores estrangeiros. O Social e, principalmente, a Governança ainda têm espaço amplo para amadurecer.

 

Para as empresas de menor porte, que operam fora do radar dos grandes fundos, o desafio começa antes: entender que ESG não é um capítulo do relatório anual. É modo de gestão.

 

Entre o real e o ideal

 

Levantamentos recentes apontam que cerca de 71% das empresas brasileiras dizem adotar ESG. No entanto, aproximadamente 68% não publicam relatório de sustentabilidade. A distância entre o discurso e a prestação de contas é, ela mesma, um dado revelador. Para a professora Adriana, esses números precisam ser lidos com cautela. "A gente só consegue realmente ter certeza de que a empresa está fazendo quando o relatório mostra isso. Principalmente quando é empresa de capital aberto, que tem alguma forma de verificação dessas informações também por terceiros”, explica. Às vezes, completa ela, as empresas dizem que têm ESG por conta de um ou outro projeto ligado à área ambiental ou social, mas não se trata disso. Em outras palavras: ter uma horta na sede e um programa de coleta de óleo de cozinha não configura ESG. “É um bom começo, mas não é estratégia”, diz.

 

A trajetória das ferramentas de transparência ESG é longa. O Padrão GRI foi a primeira grande referência global para relatórios de sustentabilidade e a Natura foi a pioneira brasileira a adotá-lo, em 2006. Depois vieram o Climate Disclosure Standards Board (CDSB – em português, Conselho de Nomas de Divulgação Climática), em 2007; o Sustainability Accounting Standards Board (SASB – Conselho de Normas de Contabilidade de Sustentabilidade), em 2011; e o Task Force on Climate-Related Financial Disclosure (TCFD – Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima), em 2017.

 

Toda essa arquitetura convergiu, em 2021, para a criação do International Sustainability Standards Board (ISSB – Conselho Internacional de Normas de Sustentabilidade), vinculado ao International Financial Reporting Standards (IFRS – Normas Internacionais de Relatório Financeiro, mesma organização que define padrões para divulgações financeiras internacionais, sinalizando que sustentabilidade e finanças já não vivem em prateleiras separadas.

 

Em 2026, o cenário regulatório brasileiro tomou um caminho controverso. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tornou voluntária a adoção, para companhias abertas, do Padrão IFRS-S1 e S2 — norma internacional de divulgação de informações de sustentabilidade que muitas empresas brasileiras já vinham adotando de forma antecipada. A decisão gerou leituras opostas no mercado. “Esse recuo da CVM foi lido como uma cautela. Alguns leram como retrocesso e outros como uma forma de dar mais tempo às organizações para se prepararem”, analisa a professora. “Há uma pressão já para a CVM voltar atrás e tornar o reporte no formato IFRS-S1 e S2 obrigatório novamente”, completa.

 

O que o movimento evidencia é que a agenda avança independentemente de normas. As grandes empresas já internalizaram o ESG como exigência de mercado para investidores, clientes internacionais e consumidores mais exigentes.

 

O debate regulatório importa para as companhias abertas. Para as demais, o incentivo vem de outro lugar.

 

Ribeirão Preto no mapa ESG

 

Na região, apesar de o setor de saúde e de serviços serem fortes, são as indústrias que acabam puxando a Agenda ESG de uma maneira mais intensa, e o setor com maior potencial para liderar, segundo a professora Adriana Caldana, é o sucroenergético. "Por conta de trabalhar com energias renováveis e tudo mais, ele pode e já tem puxado essa pauta de uma maneira mais forte", afirma.

 

O argumento tem substância. A região de Ribeirão Preto concentra uma das maiores produções canavieiras do mundo, com usinas que, nas últimas décadas, migraram da queima da palha para a colheita mecanizada, reduziram emissões e passaram a gerar energia elétrica a partir do bagaço da cana. Um setor que, por necessidade e pressão de mercados compradores de Europa e Ásia, antecipou boa parte da agenda ambiental muito antes de ela ganhar três letras.

 

Mas há mais na cidade do que cana. Referência nacional na área, o polo de saúde de Ribeirão Preto começa a aparecer com mais força no mapa ESG. O setor de serviços também. E as universidades locais deixaram de ser apenas formadoras de profissionais para se tornarem exemplos institucionais vivos de como a agenda pode ser estruturada de dentro para fora.

 

A Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp) oferece um exemplo de que a agenda vai além das empresas e que uma entidade de classe pode ser protagonista ativa no ESG. Para Sandra Brandani, presidente da entidade, os três pilares estão em movimento simultâneo. No ambiental, a Acirp integra o Grupo de Trabalho de Mudanças Climáticas, que tem definido políticas públicas urgentes para o município; participa do Planta Aí Ribeirão, mobilizando empresas para a arborização urbana; e do Requalifica Centro, que incentiva a melhoria da mobilidade e a valorização do patrimônio e do comércio na área central da cidade.

 

No pilar Social, a entidade mantém uma assistente social que a representa em conselhos, fóruns e redes municipais ligados à comunidade, à saúde mental, ao combate à violência e ao cuidado com os mais jovens. A Acirp também integra a Mesa Diretora do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) — participando de comissões de destinação do Imposto de Renda, do plano de prevenção ao trabalho infantil e da elaboração do Plano Municipal da Primeira Infância. Ocupa ainda a vice-presidência do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (Comsean), onde articula o setor produtivo com os demais agentes em iniciativas como o projeto "Reciclar Plantar" (de economia circular para resíduos orgânicos), que resultou, este ano, nos primeiros testes de compostagem de grandes geradores da cidade, em parceria com bares e restaurantes.

 

Na Governança, a Acirp mantém o Instituto de Economia Maurílio Biagi (IEMB-Acirp) e a coordenação do Fórum das Entidades de Ribeirão Preto (FERP), com atuação pautada em ética, transparência e diálogo com os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

 

"Mais do que cumprir uma agenda ESG, a Acirp busca transformar esses princípios em ações concretas, contribuindo para uma cidade mais sustentável, inclusiva, inovadora e preparada para os desafios do futuro", diz Brandani.

 

Unaerp: ESG antes do nome

 

Para Rafael Tomaz de Oliveira, diretor de Ensino, Pesquisa e Extensão da Unaerp (Universidade de Ribeirão Preto), os princípios ESG já orientavam as atividades da instituição muito antes de a agenda ganhar o nome que carrega hoje. "Nossa missão e nossos valores estão, há muito, relacionados ao compromisso com a administração sustentável dos recursos naturais, com a transparência e a ética na governança, e com um forte lastro de responsabilidade social, que a própria vocação filantrópica da Instituição reivindica desde o seu nascedouro", afirma.

 

Os números do pilar social são expressivos. Só em 2025, o Hospital Electro Bonini (HEB), integrado ao Sistema Único de Saúde (SUS), atendeu cerca de 30 mil pessoas e realizou mais de 90 mil procedimentos. A Maternidade Cidinha Bonini registrou mais de 1.100 nascimentos no mesmo período, com o título Hospital Amigo da Criança concedido pelo Unicef e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). As Clínicas Integradas — Odontologia, Fisioterapia, Psicologia e Nutrição — somaram mais de 36 mil atendimentos no ano. O Escritório de Assistência Jurídica (EAJ) realizou mais de 2.400 atendimentos gratuitos à população, e os programas de bolsas — ProUni e iniciativas próprias, como o Programa de Bolsas Próprias de Estudo (PBEST) — beneficiaram mais de 2.300 estudantes.

 

No pilar ambiental, a Unaerp capta a água condensada pelos aparelhos de ar-condicionado para reutilização em limpeza e jardinagem; desenvolveu, em parceria com o Instituto Federal de São Paulo (IFSP), um simulador computacional para estimativa de emissões de gases de efeito estufa; aderiu ao programa Carbono Zero SP; e, em 2025, recebeu o Selo UNAI (United Nations Academic Impact) da ONU, certificando seu comprometimento com dez princípios alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para 2030. Em 2026, a universidade passou a integrar a Rede Nacional de Salas Verdes, do Ministério do Meio Ambiente. Adere ainda ao International REC Standard (I-REC), sistema que garante rastreabilidade dos atributos ambientais da energia e comprova que o consumo da instituição vem de fontes limpas e renováveis.

 

A estrutura de governança da Unaerp é composta por Conselho Universitário, Conselho Administrativo, Chancelaria, Grupo Gestor e Reitoria, com cinco diretorias estratégicas e colegiados que incluem representação docente e estudantil. Anualmente, a universidade publica seu Balanço Social, disponível no site institucional.

 

"Os temas ESG estão presentes de forma transversal nos currículos, nas atividades acadêmicas e em projetos institucionais que promovem inclusão, diversidade, bem-estar, cidadania e desenvolvimento sustentável", diz Rafael de Oliveira.

 

ESG como estratégia, não custo

 

Para as médias empresas do interior, o caminho de entrada na agenda ESG não precisa começar por um grande investimento. A professora Adriana Caldana é direta: "Muitas vezes as empresas menores tendem a entender ESG como um custo e, na verdade, não é. O ESG, hoje, é muito mais uma estratégia de você melhorar a performance da empresa, e não depende de altos investimentos para começar", esclarece.

 

A lógica tem respaldo em dados. Empresas com desempenho ESG sólido mostram, consistentemente, maior resiliência em momentos de crise, melhor produtividade e retorno mais robusto dos investimentos – o que o mercado convencionou chamar de Business Case. "Tem muitos dados, hoje, de empresas com performance ESG mostrando que elas são mais resilientes às crises, têm melhores produtividade e retorno dos seus investimentos", aponta a pesquisadora. "É muito mais uma questão desses grupos de profissionais que ainda não praticam ESG entenderem melhor o que é a estratégia, para começar a aplicar a partir da base, do que ele já investe, do que ele já tem instalado", afirma.

 

O mercado, por sua vez, dá seus recados. Grandes clientes corporativos, como bancos, varejistas e exportadoras, passaram a exigir, em extensos questionários de habilitação, que seus fornecedores também pratiquem ESG. Quem não responde fica de fora da cadeia. Quem responde bem ganha um diferencial que dificilmente aparece no balanço contábil, mas está presente na renovação do contrato, no acesso ao crédito e na reputação junto a um consumidor que a cada ano fica mais exigente.

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