Espaços vivos
Alguns pontos são referência no Centro de Ribeirão Preto — fomentam a cultura, a educação e a economia — levando público para valorizar o bairro onde a cidade começou
Só uma em cada dez pessoas que entram na Biblioteca Sinhá Junqueira vai retirar um livro. Outra parcela de 10% participa das atividades culturais. Os demais, conta o diretor e bibliotecário Ciro Athayde Barros Monteiro, vão ao local “para tudo mesmo”: socializar, jogar e até fazer artesanato. “A biblioteca é um espaço de encontro”, define.
No ano passado, segundo ele, foram 196 mil visitas, uma média de 750 pessoas por dia, além de mais de 800 atividades culturais. Público sobretudo da região norte da cidade. Não há um estudo efetivo sobre o impacto da restauração do local neste resultado — foram R$ 11 milhões investidos pela Fundação Educandário — mas Ciro arrisca uma comparação com o que havia antes. “O número de pessoas que a gente recebe em um mês, hoje, é mais do que o público que se recebia antes durante o ano todo.”
O caso da biblioteca ilustra o que separa os “lugares destino” que prosperam no Centro de Ribeirão Preto dos que são apenas locais de passagem. Como o próprio Ciro argumenta, por ser ponto onde todos os ônibus param, a região central possui enorme potencial para acolher pessoas vindas de todos os bairros da cidade.
Entre os equipamentos municipais abertos à visitação, a procura varia. Segundo a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, o Centro Cultural Palace registra média semanal de 1.827 visitantes; o Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP), 430; e o Museu da Imagem e do Som (MIS), 41.

Espaços vivos
Uma distinção que pode fazer a diferença para o bairro, como aponta a presidente da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp), Sandra Brandani Picinato. “O comércio de passagem atende a uma necessidade imediata: a pessoa está passando por determinado lugar e aproveita para comprar algo. Já o comércio de destino oferece um motivo para o deslocamento”, afirma. O consumidor escolhe ir, segundo ela, porque encontra algo que não encontra em outro lugar, seja pela qualidade, pela história, pelo atendimento ou pela tradição. “O que diferencia é a experiência”, resume.
A mesma ideia aparece na resposta do Instituto Paulista de Cidades e Identidades Culturais (IPCIC), que desenvolveu com a Acirp o projeto Requalifica Ribeirão. Um diagnóstico de 2024 apontava que dos 3.466 lotes levantados no quadrilátero central, 19,2% estavam fechados, sem uso ou disponíveis para venda ou locação. “O desafio é transformar patrimônio em espaço vivo, capaz de fazer do Centro um destino e não apenas um lugar de passagem”, afirma a presidente, Sandra Molina.
O Theatro Pedro II, por exemplo, reaberto em 1996 depois de um incêndio, recebe cerca de mil pessoas em dia de espetáculo. Desde março de 2025, abre também para visitas gratuitas às terças, quintas e aos sábados, e já recebeu canadenses, franceses, chilenos e russos, entre outros. “Muitas pessoas vêm inicialmente para conhecer o patrimônio histórico e arquitetônico e acabam retornando para vê-lo em funcionamento”, diz a presidente da Fundação Dom Pedro II, Flávia Garcia Chiarello. O teatro é público e se mantém com repasses municipais, a locação dos espaços e o projeto Amigos do Theatro, em que empresas e pessoas pagam mensalidade em troca de camarotes.
No Museu Casa da Memória Italiana, localizado ao lado da Catedral Metropolitana de São Sebastião, a maior parte do público é de estudantes, sobretudo da rede pública municipal e estadual, e o trabalho educativo busca ampliar a presença da primeira infância, conta o cogestor Gabriel Azarias. Outra parcela expressiva é a dos visitantes “espontâneos”, que chegam sem vínculo com escolas, universidades ou casas de repouso.
A Fábrica, sede do Instituto SEB, instalada na antiga Antarctica, na avenida Jerônimo Gonçalves, tem teatro para 350 pessoas, cafeteria com almoço executivo e um Clube de Leitura 60+. O diretor José Luiz do Carmo descreve o público desde quem vai “em busca de uma pausa na correria do dia a dia” até quem procura “revisitar memórias através de um prédio histórico.”
No Palacete 1922, o motivo da visita muda com o calendário. Durante a semana, é a gastronomia, sobretudo para quem trabalha no Centro. No fim de semana, a casa, seus objetos e sua história, com visitantes de outras cidades e estudantes das faculdades. “Muitas pessoas têm memória afetiva com a casa, principalmente quem é de Ribeirão Preto. Há 30, 40 anos, as pessoas vinham muito no Centro, a cidade acontecia no Centro”, diz o administrador Carlos Eduardo Lopes.
O Armazém Baixada abriu em 2016. “A ideia era resgatar um espaço central e de muita história para a cidade”, explica Jonas Paschoalick. Segundo ele, estar na região central facilita o deslocamento e a baixa densidade populacional no contraturno diário beneficia as atividades com som à noite e o estacionamento, apesar de a desconfiança em relação à segurança ainda afugentar público. “Aos poucos, quebramos estes estigmas em relação à região da baixada e contribuímos para a valorização do espaço, dos imóveis, dos prédios e casas históricas”, pontua.
Inaugurada no último dia 17 de outubro, a Central Contemporânea acaba de dar novo destino — como uma ocupação coletiva de ateliês e ambiente expositivo — a uma casa construída há quase um século na rua General Osório. “Abrir um espaço de arte contemporânea em um casarão da década de 1930 no Centro de Ribeirão Preto é um encontro poderoso entre memória urbana e criação atual. Essa fusão valoriza o patrimônio histórico ao mesmo tempo em que oxigena a região central da cidade com novas experiências culturais e debates artísticos”, afirma Yolanda Cipriano, artista visual que faz a gestão compartilhada do local.
Endereços sem parentesco. Um teatro público, uma biblioteca, uma casa de família que virou museu, uma fábrica que ganhou nova vida. O que eles têm em comum? Todos oferecem um motivo para ir ao Centro, para vivenciar o bairro que deu início à cidade.

Rede de atrativos
Para Sandra Brandani esses locais não deveriam ser exceção à regra. “Nem todo espaço tombado atrai turismo e oferece experiência”, observa. Muitos, pelo contrário, ficam abandonados e acabam depredados porque as obras tornam inviável preservá-los. “Não basta um lugar ser antigo”, afirma. Na sua opinião, este é um círculo virtuoso que tende a beneficiar o entorno. “Tudo depende da conexão com o comércio existente, da acessibilidade, da segurança e da diversidade de atividades”. O objetivo, diz Sandra, deve ser “criar uma rede de atrativos, e não pontos isolados de prosperidade”.
Para o IPCIC, um imóvel fechado por muito tempo impacta a atividade de todo o quarteirão. “Quando três ou quatro imóveis estão fechados em um quarteirão de cinco, o movimento diminui, as calçadas ficam vazias e até os estabelecimentos que permanecem abertos perdem atratividade”, afirma Sandra Molina. Após a conclusão do projeto Requalifica Ribeirão, “infelizmente, nada foi feito.” Houve empenho em entender as demandas, mas “as iniciativas seguem isoladas e não como um plano da cidade.”

A rede esbarra na falta de ação conjunta. Carlos Eduardo Lopes, do Palacete 1922, lembra que “nunca houve um movimento de se fazer um trabalho conjunto para aumentar esse fluxo de pessoas em benefício de todos”. Para ele, com segurança mais efetiva e melhor iluminação, o Centro seria “uma excelente fonte de renda para o município.”
Barreiras de acesso
Ser destino, porém, não basta para ficar. O Cine Clube Cauim, por exemplo, passou duas décadas no antigo Cine Bristol, na rua São Sebastião, mas hoje funciona na rua Olavo Bilac, na Vila Seixas.
O que levou o Cauim a sair foi o acesso. No auge, segundo o presidente, Fernando Kaxassa, recebia 4 mil estudantes por dia. Eram 14 ônibus por sessão. Na hora da chegada, a rua São Sebastião parava. “A Polícia ficava lá com a gente, era uma operação de guerra”, relata. Um ônibus que pegava o sinal fechado chegava 15 ou 20 minutos depois do outro, a porta abria para o lado da rua e as crianças desciam com os carros passando. O prédio, dos anos 1970, não tinha acessibilidade. “Para o nosso projeto, começou a ficar impraticável”, diz. E ele não considera que o Cauim tenha deixado completamente o Centro. “A Vila Seixas, para a gente, ainda é Centro. Só atravessamos a avenida”, afirma.
Apesar da dificuldade com relação ao acesso — a falta de estacionamento e a insegurança no trânsito para o embarque e o desembarque de escolares — para Gabriel Azarias, da Casa da Memória Italiana, a circulação de pessoas traz outro benefício, “naturalmente inibe a violência no território.”
Falta incentivo
A Prefeitura informa que a revitalização do Centro integra as prioridades da gestão e que há articulação permanente entre secretarias, agora formalizada pelo Decreto nº 233/2026, publicado em 20 de outubro, que instituiu a Comissão Gestora da revitalização e do retrofit de edificações, coordenada pela Casa Civil.
Sobre incentivos, cita o que está previsto: a Lei Complementar nº 3.175/2023 prevê instrumentos de requalificação urbana, incluindo um Plano de Ação Regional (PAR) para o Quadrilátero Central, que permitirá avaliar parâmetros urbanísticos e incentivos à ocupação. O mecanismo que compensa investimentos em imóveis tombados por meio de certificados vinculados ao IPTU e ao ISS tem regulamentação “em andamento”. A resposta não detalha incentivos específicos para o Centro já em vigor.
Carlos, do Palacete 1922, ressalta a burocracia. “A isenção do IPTU para imóveis tombados precisa ser pedida todo ano e depende da resposta do Conselho do Patrimônio. Enquanto não vem, a casa fica como se estivesse devendo o IPTU para o município”, explica.
A Acirp propõe um ambiente de teste para soluções inovadoras de ocupação e revitalização de imóveis e incentivos tributários, inclusive isenções, condicionados à realização das obras de conservação. O Armazém concorda: “poderia atrair outros espaços culturais ou de outra natureza, que evitam a região pelas dificuldades inerentes.”
Fernando Kaxassa, que mora a uma quadra do antigo Cauim, anda a pé pelo Centro todos os dias, passando pelo Mercadão, pela Única e pelo Pinguim, e da janela dos fundos de sua casa, olha para o prédio do Cine Bristol todas as manhãs sentindo um misto de saudade e de esperança pelo destino do local. “Este lugar está fadado a ser sempre um ponto de cultura.”
