Especial Ribeirão 2056: entre a adaptação e o colapso
Desperdício define o futuro do abastecimento em Ribeirão Preto

Especial Ribeirão 2056: entre a adaptação e o colapso

Ribeirão Preto extrai do Aquífero Guarani 13 vezes mais água do que a natureza consegue repor

Ribeirão Preto bebe de um reservatório com 230 mil anos de idade. A água que sai das torneiras não vem de rios ou represas, mas das profundezas da terra, filtrada por camadas de arenito desde a era dos dinossauros. O Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do mundo, é a única fonte de abastecimento público da cidade. E ele está minguando.


Essa dependência exclusiva coloca Ribeirão Preto em posição singular e vulnerável. Segundo o Instituto Ribeirão 2030, a disponibilidade hídrica do município é de apenas 51,29 m³ por habitante por ano, colocando a cidade na 29ª posição entre os municípios paulistas com as menores disponibilidades. O paradoxo é cruel: polo agroindustrial e universitário entre as cidades mais expostas ao risco hídrico do estado.


A Saerp opera 122 poços tubulares profundos para abastecer os cerca de 720 mil habitantes. Não há mananciais superficiais como alternativa imediata. E dados levantados por pesquisadores da USP de São Carlos revelam que o nível piezométrico — a pressão da água no subsolo — recuou 72 metros na área central de Ribeirão Preto nos últimos 82 anos. Poços de exploração intensiva para a indústria e o agronegócio registram rebaixamento médio de 60 a 70 metros a cada dez anos. A gravidade do quadro levou o governo de São Paulo a criar uma Área de Restrição e Controle Temporário para captação de águas subterrâneas no município, reconhecendo formalmente que a cidade retira do aquífero mais do que ele consegue repor. Segundo o Instituto Geológico do Estado, a captação local supera em 13 vezes a capacidade de recarga natural.


Ao problema da extração excessiva soma-se o desperdício histórico. Quase metade da água distribuída é perdida antes de chegar à torneira. O índice caiu para 36,82% conforme o Ranking de Saneamento 2026, mas permanece acima dos 25% recomendados pelo Ministério da Integração. O consumo per capita também preocupa: 216 litros por habitante por dia, ante os 154 litros da média nacional e quase o dobro dos 110 litros considerados suficientes pela ONU para necessidades básicas.


A ameaça não é só de escassez. Pesquisas identificaram resíduos de agrotóxicos da lavoura canavieira nos poços que abastecem a cidade — traços de diuron e hexazinona em amostras da zona leste. As áreas de recarga do aquífero abrigam bairros vizinhos a canaviais, cemitérios, ocupações irregulares e o antigo lixão municipal.


Em 2025, a Saerp apresentou ao Comitê da Bacia Hidrográfica do Pardo um estudo sobre capacidade máxima e sustentabilidade do sistema aquífero. O documento reconhece os limites do modelo atual. A prefeitura elabora seu primeiro Plano Municipal de Adaptação e Resiliência Climática, com recursos hídricos entre os eixos prioritários. A Saerp projeta iniciar, a partir de 2030, a captação de água do Rio Pardo — mudança estrutural no abastecimento. Até lá, R$ 43 milhões anunciados em 2025 preveem novos poços e reservatórios. Especialistas alertam: sem mudança no padrão de consumo e proteção das áreas de recarga, obras não bastam.


Relatórios da Agência Nacional de Águas apontam que mudanças climáticas podem reduzir significativamente a disponibilidade hídrica no Sudeste até 2040. Para Ribeirão Preto, isso se traduz em menor recarga do aquífero que sustenta a cidade. Em três décadas, a cidade terá mais habitantes, temperaturas mais altas, chuvas menos previsíveis e o mesmo aquífero que já dá sinais de esgotamento. O desafio hídrico até 2056 é uma conta que já está vencida.

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