Gestos cotidianos
Como uma médica transformou os materiais descartados em escritório com a ajuda da filha, que morou na Alemanha e trouxe bons exemplos de sustentabilidade
No consultório da ginecologista Maria Angela Cury Ramos Carvalho, a mudança de hábitos em relação ao lixo nasceu do incômodo de se ver copos plásticos empilhados ao fim do dia, aventais e lençóis de TNT (Tecido Não Tecido) descartados após minutos de uso. O volume crescia e a consciência também. “Não houve um episódio específico, mas ver aquele lixo e pensar no tempo que demoraria para se degradar foi me causando um grande desconforto”, conta a médica.
A primeira decisão foi substituir os copos descartáveis por outros de vidro. Depois, veio a busca por uma lavanderia que permitisse retomar os aventais e lençóis de tecido, algo que ela já tinha, mas não conseguia usar. A preocupação ganhou lastro quando a médica visitou a filha mais velha na Alemanha. Lá, ficou fascinada em perceber como o lixo não era regra social. A experiência, somada ao cotidiano do consultório, acelerou escolhas. As camisolas de tecido, que pareciam um risco (“achei que as pacientes se incomodariam”) tornaram-se elogio recorrente pelo conforto, textura e sensação de cuidado. “Faço questão de explicar às pacientes o motivo dos copos e aventais. É também uma forma de conscientização”, comenta a ginecologista.
O cuidado extrapolou o consultório. Em casa, apesar de morar em um prédio de alto padrão, onde a coleta seletiva ainda é falha e contaminada, Maria Angela adotou um sistema próprio, que consiste em dois latões (um para recicláveis e outros para resíduos), separação de isopor, tampinhas, embalagens de remédios e cosméticos e lixo eletrônico – o chamado “cyber lixo”. Um triturador de alimentos, sugerido pela arquiteta, reduziu ainda mais o volume orgânico. “Hoje, o volume de lixo reciclável é muito maior que o de não reciclável”, conta.
O hábito de higienizar e destinar corretamente o isopor, que ela conheceu em projeto local, virou rotina com impacto social. “É uma forma de ajudar famílias que trabalham nessa reciclagem e reutilizar um material na construção civil”, resume.
MADE IN ALEMANHA
A filha de Maria Angela, Ana Laura Cury Ramos Carvalho, sentiu estranhamento e frustração na volta da Alemanha. “Há pouca separação do lixo doméstico [por aqui] e baixa noção de responsabilidade do produtor de lixo”, compara. Diz que, lá fora, a separação é obrigada por lei, sob pena de multa. O sistema de “Pfand” (devolução remunerada de embalagens) cria a sensação de que se paga pela bebida, não pela garrafa. “Carregar o lixo até o ponto de descarte era mais uma oportunidade de pensar no quanto eu produzia”, acrescenta Ana.
Na comparação com São Paulo, onde mora, Ana percebe em Ribeirão Preto uma maior lacuna na cultura, não na informação. “Há iniciativas e dados acessíveis. O que ainda surpreende é a desoneração do compromisso, mesmo conhecendo os problemas”, critica. Para ela, quando a coleta falha, cabem pressão, reunião de condomínio, busca ativa por soluções. “A estrutura é complexa”, reconhece, já que nem tudo compensa reciclar, mas o básico poderia ser melhor, inclusive para quem coleta. “Vejo diariamente pessoas em extrema vulnerabilidade recolhendo papelão e alumínio sem segurança”, comenta.
Mãe e filha concordam no ponto central do ciclo do lixo. “Ações individuais importam porque reduzem resíduos e educam pelo exemplo. Todo lixo bem encaminhado tem impacto”, diz Ana. “E quando os outros veem, são inspirados.”