Guardiões da limpeza contra os maus hábitos
Cerca de 600 toneladas/dia de resíduos são coletados em Ribeirão Preto

Guardiões da limpeza contra os maus hábitos

Sob supervisão da Secretaria da Infraestrutura e Zeladoria, duas empresas e três cooperativas gerem a limpeza e o lixo em Ribeirão este ano, tendo como grande desafio a falta de educação ambiental

De acordo com a Secretaria de Infraestrutura e Zeladoria de Ribeirão Preto, em todo o ano de 2025, a Prefeitura gastou mais de R$ 100 milhões apenas com gestão dos resíduos sólidos (lixo) – com a limpeza pública foram mais R$ 20,4 milhões –, todos terceirizados à iniciativa privada. “São custos altíssimos”, reconhece Juliana Ogawa, titular da pasta responsável pelo gerenciamento das “guardiãs da limpeza” no município: a empresa Estre Ambiental, que realiza a coleta e destinação final do lixo convencional e a coleta seletiva; a Suma Brasil Serviços Urbanos e Meio Ambiente S/A, que faz as varrições e limpeza de vias e áreas públicas; e a Cooperativa Mãos Dadas, até o ano passado única a dar destinação final ao material reciclável recolhido pela Estre – neste ano o município está em negociações com mais duas (leia boxes abaixo). 

A secretária Juliana Ogawa tem como meta elevar a coleta seletiva a 30% do total coletado


Mais do que o custo, porém, preocupa gestores, ambientalistas – e qualquer pessoa bem-informada sobre o impacto do lixo na natureza e sua contribuição para o aquecimento global – o baixo nível de reaproveitamento dos resíduos domiciliares gerados na cidade. “Temos uma taxa muito pequena de coleta seletiva em Ribeirão Preto: por volta de 180 a 200 toneladas/mês, que é próximo de 1% do volume de recicláveis estimado em uma cidade. Estamos muito aquém do que a lei preconiza”, confirma a secretária.


A Estre Ambiental calcula que apenas 3% das 600 toneladas/dia de resíduos sólidos que recolhe vêm da coleta seletiva. Significa dizer que em torno de 97% de lixo (mistura de materiais que poderiam ser reaproveitados com rejeitos, que não servem para nada e nem ninguém) vão para o aterro – Centro de Gerenciamento de Resíduos (CGR) – de Guatapará. 


Em uma Ribeirão Preto ideal, em que toda a população separasse seus descartes, iriam para o aterro apenas os rejeitos, que costumam corresponder a até 15% do total coletado. Já os recicláveis (os outros 85%) virariam dinheiro e empregos nas cooperativas e muito mais anos de vida útil ao CGR de Guatapará, atualmente com vida útil estimada até 2033 – ou seja, só receberá os resíduos de Ribeirão Preto e outras 14 cidades por mais sete anos.


De acordo com o gerente de operações da Estre, Adriano Chaves, a empresa adota, continuamente, estratégias de otimização do espaço do aterro – pelo qual é responsável – com o objetivo de ampliar sua vida útil. Um exemplo é a geração de biogás a partir de resíduos, já utilizado para geração de energia elétrica. “A adoção [futura] de novas tecnologias para sua purificação e transformação em biometano elevará o patamar de eficiência e sustentabilidade do processo, reforçando o compromisso da empresa com a economia de baixo carbono e a inovação ambiental, promovendo um ciclo virtuoso em que o resíduo se transforma em energia limpa, reduzindo emissões e contribuindo para o cumprimento das metas climáticas globais”, declara Chaves.

 

Segundo Adriano Chaves, da Estre, Ribeirão tem uma geração per capita de lixo acima da média nacional

 

Essas medidas não resolvem o problema ambiental maior, representado pela poluição dos recursos naturais por materiais que poderiam ser reciclados, mas enterrados na natureza levam milhares de anos para se decompor. Também não evita a liberação de gás metano – decorrente da decomposição de orgânicos – na atmosfera, que contribui cerca de 20 vezes mais que o gás carbônico para o efeito estufa, responsável pelo aquecimento global e, consequentemente, a crise climática enfrentada por todo o planeta.

 

FALTA EDUCAÇÃO


De acordo com nossos “guardiões”, o maior obstáculo no caminho de uma melhoria na gestão da limpeza e dos resíduos sólidos, em Ribeirão Preto, segue sendo a relação do munícipe com o lixo que gera. O gerente de operações da Estre, Adriano Chaves, ilustra isso descrevendo três características dessa relação: a primeira, o alto nível de geração per capita, que na cidade tem um padrão acima da média nacional de 1 kg de descartes ao dia (60% deles orgânicos e 40% recicláveis). A Estre entende que tal padrão está fortemente associado ao perfil urbano, ao poder aquisitivo médio da população e aos hábitos de consumo consolidados. “Isso se reflete em maior volume de resíduos domiciliares e comerciais, especialmente embalagens, orgânicos e rejeitos mistos”, afirma o gerente.


A segunda característica é a cultura de descarte irregular predominante por aqui. “Apesar de haver conhecimento geral sobre a importância da destinação correta, observa-se que o comportamento majoritário ainda é orientado ao ‘descarte’ e não à ‘gestão do resíduo’. A separação na fonte, ainda não ocorre como deveria e muitas vezes é inadequada, comprometendo a eficiência da coleta seletiva”, pontua Chaves.


Por fim, o gerente de contrato da Suma Brasil, Antônio Marcílio, faz coro a Chaves ao apontar que falta educação ambiental aos ribeirão-pretanos. “Um hábito comum da população, que dificulta significativamente a execução dos nossos serviços, é o descarte irregular de resíduos, tanto em vias públicas quanto em praças e demais áreas públicas”, diz ele.

 

Antonio Marcílio, da Suma Brasil destaca o descarte irregular em vias e áreas públicas

 

 

“É preciso que o munícipe entenda sua participação na produção de resíduos e que ocorra uma multiplicação de informações entre a própria população, para cada vez mais reforçar a importância de começar em casa [a gestão correta do lixo], para futuramente todos manterem e exigirem dos outros uma cidade mais limpa e organizada, forjando equilíbrio entre o serviço eficiente e o engajamento do cidadão”, sugere Chaves.

 

EDUCAÇÃO AMBIENTAL


Para exercer influência sobre os usuários desses serviços, a secretária Juliana Ogawa informa que está em fase de conclusão – pela Secretaria Municipal de Comunicação, a pedido de sua pasta – um plano de divulgação massiva conclamando a população a adotar a separação do lixo. “Também teremos o trabalho intensivo em escolas, para o qual contamos com dois parceiros da Prefeitura: a Transpetro e o Instituto Estre têm estado conosco em vários eventos, levando a questão ambiental e a necessidade da coleta seletiva e ensinando a população a fazer a separação”, descreve a secretária. 


Ela se diz otimista quanto aos resultados do plano em elaboração, baseada nos obtidos até aqui com uma divulgação “quase boca-a-boca” dos nove ecopontos de Ribeirão Preto. “Conseguimos aumentar em 26% a procura pelos ecopontos”, comemora. Em 2024, eles receberam um total de 15.060 toneladas de resíduos específicos, e em 2025, 19.490 – aumento de 29,4%.


Juliana revela ainda que a meta de sua gestão é a coleta seletiva pública chegar perto de 30% de lixo separado nos próximos três anos. “Por isso, estamos aumentando o número de cooperativas que receberão o lixo reciclado”, declara. Antes, porém, há um passo-a-passo já em curso, iniciado com uma parceria entre a pasta e a USP Ribeirão Preto para quantificar com precisão o volume de recicláveis coletado, hoje, na cidade, tanto pela Estre quanto por entes privados, regulares ou não. “É claro que tem outros artífices fazendo a coleta de recicláveis, mas a gente não sabe o total”, comenta, antes de concluir: “não conseguimos fazer planejamento sem saber o tamanho da dificuldade. Depois, vamos incrementar esse tipo de coleta, ampliar parcerias e, se necessário, mudar a legislação para fazermos uma cidade mais sustentável”, promete. 


De acordo com Chaves, a Estre também já tenta elevar o volume de sua coleta seletiva acima das atuais 55 toneladas por semana – em média – desenvolvendo atividades de educação ambiental, em parceria com o Instituto Estre e a Secretaria de Infraestrutura.

 

NÚMEROS


No primeiro contrato assinado entre a Estre Ambiental e a Prefeitura de Ribeirão Preto, em 2014 – renovado em 2018 –, a empresa figurava como responsável não só pela coleta, gerenciamento e destinação de resíduos sólidos domiciliares e seletiva, como também pelas varrições e lavagens manuais e mecanizadas de vias e logradouros públicos, limpeza e desinfecção de feiras livres, limpeza de locais com eventos especiais e em situações emergenciais, gestão do transbordo, instalação de caçambas e coleta de resíduos volumosos (cata-trecos). 


Em 2024, a Estre assinou outra prorrogação de contrato, no qual assumia apenas coleta, gerenciamento e destinação dos resíduos. Os serviços de limpeza urbana passaram à responsabilidade da Suma Brasil, que assinou com o município em junho do mesmo ano. Para realizá-los, a empresa recebe R$ 1,7 milhão ao mês, totalizando mais de R$ 20,4 milhões ao ano. 


Um total de 266 colaboradores da Suma dão conta de aproximadamente 19,6 mil km de varrição de vias públicas e 300 hectares de varrição em praças e áreas públicas. Além disso, são atendidas 88 feiras livres, lavados 15 hectares de áreas públicas e recolhidas cerca de 2 mil toneladas de resíduos em locais especiais de eventos.

 

A diretora financeira Ana Paula dos Santos Lopes na sede da CRRP: na expectativa

 

A coleta da Estre é feita porta a porta, e em locais de difícil acesso são instaladas caçambas, trocadas frequentemente por caminhões da empresa. Recentemente, foi incorporado, a pedido da secretaria, o serviço exclusivo de limpeza do quadrilátero Central, realizado por meio de Tuk Tuks — veículos elétricos com capacidade de carga de até 280 kg e emissão zero de gás carbônico.


O gerenciamento e destinação final consistem no transporte dos resíduos orgânicos até a Estação de Transbordo, na rodovia Mario Donegá Km 0 + 500m, para pesagem, armazenamento e separação em “caixas estacionárias” de 40 m³ (adequadas ao carregamento de caminhões tipo roll-on/roll-off); depois no traslado até o aterro de Guatapará (destino final). No caso da coleta seletiva, depois de também passar pelo transbordo, todo o material é enviado à cooperativa Mãos Dadas.


De acordo com Chaves, da Estre, o valor total do contrato da empresa com a Prefeitura é de R$ 92 milhões. A coleta e o transporte dos resíduos sólidos domiciliares são feitos por 144 colaboradores e 36 veículos – 18 por turno (manhã e noite). A seletiva emprega oito motoristas, 16 coletores e oito veículos (quatro por turno). Na coleta e transporte com caçambas são empregados, no caso das regiões de difícil acesso, cinco motoristas, sete coletores e quatro veículos (dois por turno); nos Ecopontos, dois motoristas e dois veículos. No transbordo, transporte e destinação final colaboram 15 motoristas e cinco veículos utilizados em três turnos (manhã, tarde e noite). 






 

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