Lixo sem hora
Projeto testa contêineres para retirar sacos de lixo das calçadas em dois bairros de Ribeirão Preto e divide avaliações sobre adesão e expansão
O caminhão de coleta de lixo passa em dias e horários determinados. Na maioria dos bairros de Ribeirão Preto, são dias alternados para que os sacos deixem as casas, os apartamentos e estabelecimentos comerciais para ocupar calçadas e lixeiras. Entre o descarte na calçada e a coleta, não é incomum que animais, chuva, catadores ou atos de vandalismo deixem lixo comum espalhado em calçadas e ruas. “É um problema de saúde pública. Precisamos trabalhar para melhorar a cidade”, explica Gabriel Zucoloto, secretário adjunto municipal de Infraestrutura e Zeladoria em Ribeirão Preto.
Como um caminho para solucionar a questão, moradores de dois bairros experimentam um sistema diferente. No Jardim Botânico e na Vila Ana Maria, na zona Sul, contêineres passaram a receber o lixo comum produzido por residências e estabelecimentos comerciais. Os equipamentos permitem o descarte a qualquer hora, sem a necessidade de aguardar o dia ou o horário da coleta.
Às vésperas de completar dois meses, o projeto piloto apresenta um resultado visível. “Há menos sacos expostos nas calçadas atendidas. Achei maravilhoso. Já usei várias vezes e espero que coloquem por toda a cidade”, explica a vendedora e moradora de uma das áreas atendidas, Ana Paula Conti.
A estudante Gabriela Carabolante diz que, para esse tipo de iniciativa funcionar, tem que haver conscientização. “Educação é a base. Não se esqueçam da base, não se esqueçam das periferias. É lá que esse projeto precisa funcionar”, diz.
Agora, para decidir se o sistema deve avançar pela cidade, a Prefeitura terá de avaliar custos, eficiência, manutenção e a capacidade de evitar o descarte de materiais inadequados. “A proposta é otimizar a coleta porta a porta, evitar a exposição e o vandalismo do lixo nas ruas, calçadas e sarjetas, contribuindo para uma cidade mais limpa”, afirma Zucoloto.
Os dois bairros foram escolhidos por concentrarem edifícios residenciais, casas e estabelecimentos comerciais. Em áreas verticalizadas, muitas pessoas produzem resíduos em um espaço relativamente pequeno, o que aumenta o volume acumulado antes da passagem do caminhão.
Os contêineres foram instalados a uma distância máxima de 50 metros dos prédios, segundo a Prefeitura. A coleta continua nos mesmos dias e horários. A mudança ocorre no início do processo: em vez de deixar os sacos na calçada, moradores e comerciantes devem depositá-los dentro dos equipamentos. O caminhão recolhe o material armazenado.
Na avaliação preliminar da administração municipal, houve adesão da população e a operação ocorreu sem dificuldades significativas. “Conseguimos realizar normalmente a coleta e já vemos os bairros mais limpos na questão da exposição de lixo”, diz Zucoloto.
O diagnóstico, porém, se baseia principalmente na percepção das equipes responsáveis pelo serviço. A Prefeitura não apresentou indicadores que permitam comparar a situação anterior com a atual, como o número de imóveis atendidos, o volume recolhido, a redução de resíduos encontrados nas ruas ou a quantidade de descartes irregulares.
Também não foi divulgado o custo de implantação e operação. Segundo Zucoloto, os gastos permanecem em avaliação por se tratar de um projeto piloto.
A iniciativa é fruto da parceria entre a Prefeitura e a Estre Ambiental, empresa responsável pela coleta de resíduos no município.
MUDANÇA DE HÁBITO
O anúncio do projeto nas redes sociais da Prefeitura recebeu manifestações favoráveis e pedidos para que o sistema alcance outras regiões. Moradores citaram bairros como Vila Seixas e Jamil Seme Cury, além da área próxima ao Parque Tom Jobim.
Outros comentários compararam a iniciativa com modelos adotados em cidades europeias. Bruno Camargo, que viveu em Portugal, disse que os containers fazem parte da rotina urbana no país europeu. Um morador que se identificou como Ric Coslove citou experiência semelhante no centro de São Paulo, onde, segundo ele, o sistema permite descartar o lixo sem mantê-lo acumulado dentro de casa ou nas calçadas.
As manifestações publicadas no Instagram não representam uma pesquisa de opinião, mas ajudam a identificar expectativas e dúvidas provocadas pela mudança. Parte dos usuários elogiou a praticidade. Outra levantou receios sobre furtos, vandalismo e descarte de materiais proibidos. Rubia Luiza afirmou que os contêineres poderão receber galhos, entulho, terra, areia e móveis se não houver fiscalização e conscientização. “A ideia pode até ser boa no papel, mas, na prática, muita gente vai descartar de tudo”, escreveu.
A identificação dos equipamentos gerou outra dúvida. Embora sejam destinados apenas ao lixo comum, os contêineres exibem o símbolo associado à reciclagem. Daniel Balarin afirmou que a imagem pode confundir os moradores e sugeriu a adoção de um símbolo específico. Outros usuários perguntaram por que o projeto não contempla também materiais recicláveis.
Segundo as regras divulgadas pela Prefeitura, papéis, plásticos, vidros e metais devem continuar separados e ser entregues à coleta seletiva. Os contêineres recebem restos de alimentos, resíduos sanitários, embalagens sujas e materiais sem possibilidade de reciclagem. O lixo deve ser acondicionado em sacos fechados. Entulho, móveis, pneus, eletroeletrônicos, lâmpadas, óleo de cozinha, restos de tinta, isopor e outros resíduos volumosos devem ser levados aos ecopontos.
A divisão parece simples em uma lista, mas representa um dos principais desafios da experiência. A facilidade para descartar o lixo a qualquer momento também pode favorecer o depósito de materiais inadequados caso as orientações não sejam compreendidas ou respeitadas.
Um comentário levantou preocupação diferente. O usuário identificado como Nichollas disse temer que animais abandonados sejam colocados dentro dos recipientes. A Prefeitura não relatou ocorrências desse tipo, mas a manifestação mostra como um equipamento novo também desperta receios sobre o uso do espaço público.
“As dificuldades iniciais de adesão foram superadas com divulgação, orientação e educação ambiental”, afirma o secretário adjunto, que não detalhou quais foram os problemas encontrados, quantos descartes irregulares ocorreram ou quais reclamações chegaram aos canais municipais.
A manutenção é outro ponto decisivo. A higienização dos equipamentos ocorre pelo menos uma vez por mês. Após a retirada dos resíduos, um caminhão específico lava os contêineres no próprio local, de acordo com o secretário.
A frequência terá de ser acompanhada ao longo do ano. Recipientes que recebem restos de alimentos e resíduos sanitários podem provocar mau cheiro ou atrair insetos caso a limpeza não acompanhe o volume depositado. O calor intenso de Ribeirão Preto também pode exigir ajustes na operação.