Matéria-prima: lixo

Matéria-prima: lixo

Depois de mergulhar em coletivo ambiental, há quase sete anos, Michelle Oliveira Nahas segue a meta de transformar a cidade e é otimista quanto ao futuro

Michelle Oliveira Nahas não começou a buscar uma vida mais sustentável por acaso, mas por convicção acumulada. Cursando a segunda graduação, em Engenharia Ambiental e Sanitária, ela conheceu o Coletivo Lixo Zero, de Ribeirão Preto, em 2019, durante a primeira Semana Lixo Zero realizada na cidade. Começou como apoiadora, divulgando ações, convidando amigos e familiares. Em 2021, recebeu o Prêmio Atitude Cidadã do Instituto Lixo Zero. O reconhecimento, diz, foi o impulso definitivo. Tornou-se embaixadora, depois consultora e desde 2022 coordena o coletivo local.


Sua trajetória ambiental, porém, começa muito antes. Michelle cresceu em uma casa onde fraldas ecológicas eram regra, consertar era hábito e potes de vidro ganhavam novas funções. A mãe reaproveitava embalagens, separava resíduos, deixava recicláveis para catadores. Na infância, Michelle se incomodava com lixo jogado na rua e desperdício de água. O livro “As aventuras e perigos de um copo d’água” marcou sua imaginação ao narrar a história de um copo que descobre a poluição e decide agir. “Eu queria ser como o copo e não me esconder, mas lutar”, lembra.


Ainda assim, a reciclagem sistemática veio depois, na faculdade, em São Carlos, ao conhecer um projeto que recolhia recicláveis em troca de pontos. A prática abriu a percepção da lógica de consumo.
Para quem nunca ouviu o termo, Michelle explica que Lixo Zero não significa produzir nada, mas redesenhar o sistema. Trata-se de uma meta que envolve mudança de estilo de vida, separação correta de resíduos e, sobretudo, transformação no modelo de produção. “A prioridade é seguir os ‘R’s: Repensar, Recusar, Reduzir, Reutilizar, Reparar, Recuperar e só então Reciclar”. A reciclagem, nesse contexto, é o último passo e não o primeiro.


Ela rejeita a ideia de que sustentabilidade é cara ou inacessível. “Não começa com carro elétrico ou painel solar. Começa com consumir menos, desperdiçar menos”, diz. Consertar em vez de descartar, comprar de segunda mão, reduzir tempo de banho, reaproveitar água, evitar desperdício de alimentos. Práticas que, segundo ela, além de ambientais, são economicamente vantajosas.


O desafio maior está na cultura urbana. Ribeirão Preto recicla menos de 1% do que produz e ainda opera sob a lógica linear do extrair, consumir e descartar. O lixo é visto como algo a ser retirado de casa o mais rápido possível e responsabilidade exclusiva do poder público.


A paralisação dos coletores, no início de fevereiro, expôs essa fragilidade. O lixo acumulado nas ruas foi rapidamente atribuído à Prefeitura. “Ninguém refletiu sobre o volume excessivo que geramos todos os dias”, observa. Para ela, se houvesse redução de consumo e separação correta (recicláveis para coleta seletiva ou cooperativas, orgânicos para compostagem, rejeitos para a coleta comum) o cenário teria sido menos caótico.


Michelle fala de futuro com clareza técnica e visão urbana. Não quer uma cidade com mais caminhões de lixo, mas uma que não precise deles. “Uma gestão inteligente de recursos, em que o lixo deixe de ser lixo e passe a ser matéria-prima”, esclarece. Sonha com ecopontos em todos os bairros, coleta automatizada, empresas responsáveis pela logística reversa e produtos pensados para durar.
Acima de tudo, quer pertencimento. “Leis e fiscalização são importantes, mas o cuidado precisa vir mais do senso de responsabilidade do que do medo da multa”, afirma. Uma lógica em que o que chamamos de lixo seja apenas matéria fora do lugar, e na qual a cidade aprenda não apenas a recolher resíduos, mas a produzi-los menos. 

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