Muito trabalho pela frente
À frente de uma das pastas mais complexas da administração municipal, Juliana Ogawa narra os desafios de tornar Ribeirão Preto uma cidade mais resiliente em 2026
Advogada e gestora pública, Juliana Ogawa assumiu a Secretaria de Infraestrutura e Zeladoria de Ribeirão Preto em um cenário desafiador: contratos herdados, déficit histórico de manutenção, crescimento urbano acelerado e uma cidade pressionada por eventos climáticos cada vez mais intensos. A pasta estratégica — responsável por drenagem, limpeza urbana, iluminação pública, manejo de resíduos, roçadas e zeladoria — atua tanto no planejamento de longo prazo quanto nas urgências diárias, impactando diretamente a vida da população. Nesta entrevista, Juliana faz um balanço do trabalho realizado, detalha ações em andamento e aponta caminhos para 2026, com foco em resiliência, mudança de cultura e eficiência.
Quais frentes demandam mais atenção da Secretaria de Infraestrutura neste início de ano?
A Secretaria de Infraestrutura e Zeladoria enfrenta, neste início de ano, desafios típicos do período chuvoso. A cidade chegou mais preparada, com a limpeza de bocas de lobo e manutenção do sistema de drenagem, o que tem ajudado a reduzir o tempo de escoamento da água após as chuvas. Ainda assim, lidamos com um sistema difuso, com bocas de lobo sem ligação às galerias pluviais, outras subdimensionadas e o descarte irregular de lixo, fatores que contribuem para pontos de alagamento. Outro desafio é o rápido crescimento da vegetação rasteira, especialmente de capins de origem rural, que chegam a crescer até 5 cm por dia com as chuvas, dificultando a roçada. As quedas de árvores também são frequentes nesta época, exigindo respostas rápidas. Soma-se a isso a iluminação pública, que herdamos com falhas de manutenção e atrasos contratuais. Apesar do volume de trabalho, já avançamos na zeladoria da cidade, com limpeza de bocas de lobo, intervenções em pontos de alagamento, intensificação das roçadas, eliminação de descartes irregulares e maior cobrança na iluminação pública.
Quais ações estão em andamento para melhorar o sistema de drenagem urbana e prevenir alagamentos em pontos críticos da cidade?
A Secretaria de Infraestrutura atua na manutenção do sistema de drenagem urbana, que enfrenta problemas estruturais, como galerias subdimensionadas e aumento da demanda causado pelas mudanças climáticas. Para tornar o sistema mais funcional e resiliente, há um trabalho conjunto de planejamento entre as secretarias de Planejamento, Obras Públicas e Infraestrutura. De forma preventiva, realizamos a limpeza de bocas de lobo e a manutenção das galerias pluviais. Apenas em 2025, cerca de 36 mil bocas de lobo foram limpas, contribuindo para o escoamento da água e a redução de alagamentos. A coleta de resíduos e a varrição também são fundamentais para evitar o entupimento do sistema. Em situações emergenciais, atuamos durante as chuvas, com desobstruções, sucção da água em pontos críticos e intervenções rápidas para restabelecer a mobilidade urbana.
Ribeirão Preto cresceu muito nas últimas décadas. Quais os problemas decorrentes e como enfrentar essas questões de forma estrutural e não apenas paliativa?
O crescimento acelerado de Ribeirão Preto trouxe falhas no sistema de drenagem em alguns empreendimentos, ausência de bocas de lobo, falta de pavimentação e implantação de praças sem comunicação prévia com a Infraestrutura. Como cidade de crescimento horizontal, levar políticas públicas a todas as áreas é mais complexo e oneroso, impactando mobilidade, coleta de lixo, roçada, saúde e educação. É fundamental que a cidade cresça de forma ordenada e resiliente. Outro desafio é a criação de áreas verdes e de lazer sem planejamento adequado de orçamento e mão de obra para manutenção. Oferecer espaços públicos de qualidade exige capacidade real de manutenção — temas que já estão em debate na atual gestão, por serem essenciais ao funcionamento da cidade.
Como a Secretaria equilibra o planejamento de longo prazo com as urgências do dia a dia?
Em todos os serviços que executamos, temos duas frentes de trabalho: a programada e a emergencial. Dependendo das situações, como dias após fortes chuvas, nossas equipes são totalmente mobilizadas para os atendimentos emergenciais e prioritários. Mas é preciso trabalhar com planejamento, o que ocorre por meio das programações dos serviços, após avaliações técnicas. Ainda temos um desafio, que é atender às demandas da população e da Câmara dos Vereadores. Por isso, nossos gerentes desempenham papel fundamental no planejamento e execução dos cronogramas e na sua fiscalização.
A limpeza urbana é uma das áreas mais sensíveis. Quais são os desafios da cidade na gestão de resíduos sólidos e limpeza pública?
Sem dúvida o descarte irregular de lixo e a separação de recicláveis são os maiores desafios. Em 2025, assim que assumi a Secretaria e fiz a primeira vistoria na cidade, percebi quão suja Ribeirão Preto estava. Hoje, estudado o município, os dados e a cultura da cidade, percebemos que essa situação se dá por duas causas: uma herança de gestão anteriores, pela má implementação de caçambas de lixo em diversos pontos da cidade, e pela falta de conhecimento dos cidadãos, que acreditam que apenas a Prefeitura é responsável por limpar e manter a cidade limpa. A situação piora quando a população descarta em áreas verdes e de preservação, causando prejuízos para áreas ambientais importantes para a cidade.
São quantos pontos de descarte irregular de lixo mapeados?
Existem 46 pontos que se repetem historicamente e eliminamos dois: um na rotatória da Avenida Patriarca com a rua Pedreira de Freitas, outro na avenida Dom Pedro, ao lado da Coca-Cola. O comportamento das pessoas também está mudando, o lixo não está mais tão concentrado como antes, está mais espalhado por outras áreas. Também, infelizmente, as escolas passaram a ser alvos dos ‘mal-educados de plantão’. Elas têm recebido grandes volumes de descarte irregular, geralmente próximo às entradas de alunos.
Quais medidas a Prefeitura está adotando para resolver esse problema de forma definitiva — e não apenas com ações pontuais de limpeza?
A intensificação da fiscalização e punição dos infratores, o patrulhamento ostensivo e as ações de educação ambiental. E, por fim, um pacote de leis que compelirão a mudança de comportamento dos munícipes. Intensificamos as ações de limpeza no ano passado, finalizando o ano com cerca de 350 mil toneladas de lixo recolhidas. Isso foi possível graças à atuação da fiscalização geral e ao apoio da GCM [Guarda Civil Municipal]. Estamos trabalhando com a iniciativa privada e a sociedade civil organizada para modificar essa cultura e aumentar a vigilância, através de denúncias. Vale sempre lembrar que descartar lixo em locais irregulares é crime ambiental sujeito a multa. O resultado foi positivo e gerou aumento de 25%, em média, da procura pelos ecopontos.
Como funciona a operação da coleta seletiva e qual é o volume diário de recicláveis coletado em Ribeirão Preto?
Implementamos nessa gestão a coleta porta a porta em 100% das residências, ou seja, todos os bairros são atendidos pela coleta seletiva, além dos oito ecopontos espalhados na cidade. Essa coleta seletiva é realizada pela empresa Estre Ambiental S/A, através de veículos e equipes exclusivas para esse serviço. Após a recolha, são destinados à cooperativa Mãos Dadas. A média de recolhimento é de 200 toneladas por mês. Agora, buscamos entender o fracasso dessa coleta. Apenas 60% do volume de lixo é alcançado, quer porque os cidadãos não separam o material, quer porque os catadores fazem a retirada desses resíduos. Trabalhamos em uma campanha de esclarecimento, estruturando a ampliação da divulgação deste trabalho, além de orientar a forma correta de descarte. Outro ponto foi a abertura de novo chamamento, que ampliou a participação das cooperativas de recicláveis, agora com três novas que irão receber os resíduos recicláveis, de acordo com a capacidade de cada uma. A questão do lixo é uniforme em Ribeirão Preto: falta cultura e adesão à política pública. Por isso, em conjunto com as secretarias de Meio Ambiente, Agricultura e Sustentabilidade e Educação, a atual gestão está elaborando o primeiro Plano Municipal de Educação Ambiental, essencial para modificarmos a cultura e a relação de pertencimento do ribeirãopretano.
Há um plano de aumento no número de ecopontos na cidade, para atender a toda a população?
Temos oito ecopontos, inclusive em Bonfim Paulista. A política foi implantada na gestão anterior e, pelo que se pode observar, buscou atender a todas as regiões da cidade, mas, além do crescimento de Ribeirão Preto, não houve um trabalho intensivo e efetivo que mudasse a cultura da população, por isso não trouxe o resultado esperado. Entendemos a política de ecopontos, como era realizada, bastante ineficiente. Por isso, temos trabalhado muito na divulgação da sua existência, assim como na informação da gratuidade dos seus serviços, e estamos licitando outros dois ecopontos, um no Flamboyant e outro no Cristo Redentor. Mas aumentar a estrutura dos Ecopontos não é positivo. Temos ampliado Parcerias Público Privadas (PPP) para fazemos a gestão dos resíduos sem ampliar demais os gastos do município. Todo esse trabalho já tem mostrado resultado positivo, com aumento de cerca de 25% de descarte. Para 2026, já aumentamos a quantidade de resíduos que os munícipes podem descartar, de 1 m³ para 2 m³.
Em relação aos demais resíduos — construção civil, hospitalar etc —, quais as demandas prioritárias da pasta nesta área?
Temos uma usina, que beneficia o Resíduo da Construção Civil (RCC) gratuitamente na cidade, além da coleta desse tipo de resíduo nos ecopontos, que funcionam de segunda a segunda-feira das 7h às 19h. Entendemos que o RCC já não representa uma parcela significativa do lixo descartado irregularmente. Os resíduos hospitalares e da saúde também têm regramento próprio. Os grandes desafios são resíduos domésticos, o lixo de cozinha e o de banheiro, roupas, armários, camas e colchões. São os elementos que mais aparecem e que estamos estudando parcerias para solucionar. Estamos bastante alinhados com a USP neste sentido.
Quais leis municipais hoje regem a questão do lixo e do descarte de resíduos em Ribeirão Preto?
Todas as cidades que venceram a questão do lixo percorreram um caminho único: o endurecimento da legislação em um sistema de tolerância zero. Evidente que a Educação Ambiental traz muito resultado para aqueles cidadãos que estão em formação: as crianças e adolescentes são elementos poderosos nessa batalha; elas são agentes de transformação social. Contudo, não podemos esperar a próxima geração para resolver uma questão que é primordial para a sociedade hoje. Isso já está sendo discutido e teremos novidades em breve. A estrada está só no começo e o envolvimento da sociedade civil é peça fundamental.
O que a população pode esperar da Secretaria de Infraestrutura em 2026?
Podemos esperar uma Secretaria ainda mais atuante, com contratos mais modernos e que atendam às necessidades da cidade. Em 2025, os contratos foram herdados da gestão anterior, assim como o orçamento. Agora teremos a oportunidade de mudar. Pretendo organizar contratos que coloquem Ribeirão Preto no século 21, com mais áreas ajardinadas embelezando a cidade. Já entendemos o caminho da drenagem, da iluminação pública, do serviço de tapa-buracos. Agora é iluminar mais praças e restabelecer esses espaços para os ribeiraopretanos. Depois de entender as necessidades através da escuta e a realidade dos parques, estamos estruturando novos contratos, a partir da participação da população. Vem muitas novidades, mas naquilo que funcionou, vamos continuar, como os mutirões, que colocam todos os serviços disponíveis na Secretaria no mesmo lugar. Assim reconstituímos 20 áreas bastante degradadas. A limpeza das bocas de lobo e a poda de árvores são serviço em que caminhamos bem e devemos mantê-los.
Se pudesse apontar uma mudança comportamental — tanto do poder público quanto da população — para transformar a infraestrutura da cidade, qual seria?
Compreender que o dinheiro público vem da população e que gastar R$ 100 milhões com o lixo é desperdício de recurso, porque manter a cidade bela e funcional é um dever de todos: servidores e população. E que a gestão pública é a forma mais eficiente de modificar o mundo em que vivemos e mudar, efetivamente, a vida das pessoas. Tive um chefe, Alexandre Modonezi, que dizia: “grandes obras mudam as cidades; pequenas ações mudam a vida das pessoas”. É isso que devemos fazer: mudar para melhor a vida das pessoas.