Quando o ESG sai do papel
GRUPO INTELLI e Instituto SEB mostram como a sigla ESG vira rotina, no chão de fábrica e na formação de jovens da região
À pergunta sobre a distância entre discurso e prática, deixada no ar pela temática da aplicação de ESG (sigla para práticas Ambientais, Sociais e de Governança), o GRUPO INTELLI e o Instituto SEB respondem com ações. Ambas – a primeira uma indústria de energia e transmissão de Orlândia, e a segunda o braço social e ambiental do grupo educacional sediado em Ribeirão Preto – mostram que, sim, é possível implementar ESG de verdade e não apenas praticar greenwashing (maquiagem verde).
No primeiro caso, a fábrica que produz conectores, cabos e componentes elétricos de alta precisão emprega também campeões mundiais de arremesso de peso, martelo e disco. No Instituto, voltado à vulnerabilidade social, crianças aprendem a separar corretamente o lixo reciclável e a sonhar com uma carreira. Nenhuma dessas duas cenas aparece em relatório financeiro e justamente aí, no detalhe que escapa à planilha, a sigla ESG deixa de ser (só) sigla.
Confira mais a respeito a seguir.
INTELLI: DO CERTIFICADO À ROTINA
Receber reconhecimento de uma das maiores distribuidoras de energia do Brasil não é pouca coisa. Para o Grupo Intelli, porém, o selo conquistado na avaliação de fornecedores da Energisa foi apenas a confirmação de um caminho construído há anos. “Trabalhamos com um olhar sustentável em tudo o que fazemos, aplicando os 5 R’s — repensar, recusar, reduzir, reutilizar e reciclar — como diretriz real, e demonstramos isso aos nossos fornecedores e colaboradores todos os dias”, resume Michelle Miele, gerente do Sistema de Gestão Integrado do grupo.
No pilar ambiental, a empresa acumula um portfólio pouco comum entre indústrias do interior: ISO 9001, ISO 14001 (há seis anos), ISO 45001, ISO 50001 (conquistada em 2026) e as normas de rotulagem ambiental ISO 14020 e 14024. Toda a energia consumida vem de fontes renováveis, rastreada pelo certificado internacional I-REC, e a empresa publica inventário próprio de Gases do Efeito Estufa (GEE).
No nicho em que atua — energia e transmissão —, os impactos ambientais mais relevantes estão exatamente onde a empresa concentra seu controle. Da aquisição da matéria-prima ao produto entregue ao cliente final, o monitoramento de toda a cadeia permite identificar e reduzir riscos de contaminação do solo, do ar e da água a cada etapa.
As metas têm data marcada, dentro do compromisso público SP Carbono Zero: de 6.200 toneladas de CO₂ (gás carbônico – um dos que agravam o efeito estufa no planeta) equivalente emitidas em 2025, a meta é chegar a 4.000 em 2030, 2.000 em 2040 e emissão zero em 2050. Só no ano passado, a redução já foi de 7,98% sobre o total emitido — puxada por iluminação LED em 100% das unidades, seis empilhadeiras a gás trocadas por elétricas, veículos elétricos para a diretoria e uma frota própria que já usa 30% de etanol no lugar da gasolina. Reuniões por videoconferência, no lugar de viagens a trabalho, cortaram 24,20% do consumo de combustível fóssil da frota.
No pilar social, o GRUPO INTELLI mantém, há mais de 25 anos, parceria com a Prefeitura de Orlândia, gerando trabalho e capacitação para famílias da cidade. Há três anos, esse histórico ganhou nome próprio: o Instituto Vincenzo Antônio Spedicato (Ivas), responsável por uma creche patrocinada e por cursos de qualificação em parceria com o Senai. Dentro da empresa, colaboradores – entre eles, campeões mundiais de arremesso, patrocinados pela própria companhia – contam com plano de saúde diferenciado, ginástica laboral e um programa estruturado de cargos e salários. Um tipo de detalhe que não cabe em relatório de sustentabilidade, mas diz muito sobre uma empresa.
A governança, reconhece Michelle, é o pilar que ainda pede estrutura. “Precisamos avançar na constituição de um comitê e de um conselho”, admite. Há também um relatório de sustentabilidade, mas de circulação restrita. “Divulgamos apenas para nossos clientes, conforme solicitam as evidências. Não publicamos em nível federal”, explica.
E se o mercado internacional já trata ESG como diferencial de homologação, o nacional segue mais frio. “No Brasil, a qualidade do produto ainda fala mais alto”, diz a gestora, sem rodeios.
Se a indústria puxa a régua ambiental — como mostrou a primeira reportagem desta série, na edição impressa anterior —, o setor educacional segue pouco visível no mapa ESG da região. O Instituto SEB aparece como uma exceção provando que a agenda também cabe fora do chão de fábrica.
SEB: ‘FÁBRICA’ DE GENTE CONSCIENTE
Sediado no espaço “A Fábrica”, em Ribeirão Preto, o Instituto SEB constrói sua agenda ESG em dois projetos que se completam: Nau e Materioteca.
O Projeto Nau é o pilar social que mobiliza jovens em situação de vulnerabilidade para o mercado de trabalho, não apenas com capacitação técnica, mas com desenvolvimento socioemocional, para que planejem a carreira sob a ótica da sustentabilidade financeira, da ascensão social e do impacto socioambiental.
A Materioteca é o acervo de sustentabilidade instalado na sede do instituto, onde o pilar ambiental ganha corpo e vira educação ambiental prática para alunos e visitantes. Ali, reciclagem e reutilização deixam de ser conceitos abstratos. Por meio de intervenções pedagógicas e jogos educativos, o Instituto SEB fortalece o conhecimento ecológico de um jeito lúdico, mostrando que o futuro sustentável se constrói no presente e não em promessa de longo prazo.
“Ao integrar inclusão produtiva e educação ambiental, o Instituto SEB prova que a agenda ESG não se resume a discursos, mas se materializa em ações diárias que transformam vidas e preservam o planeta”, afirma José Luiz do Carmo, diretor do Instituto SEB.
Sozinhos esses exemplos não fecham a distância entre discurso e prática. Mas ajudam a entender por que, em Orlândia, um operário pode também ser campeão mundial e por que, em Ribeirão Preto, uma criança pode realmente fazer a diferença na questão climática, antes de aprender a temer o futuro.