Reciclagem em espera
Cooperativas aguardam contratos com a Prefeitura para participar da triagem dos recicláveis recolhidos em Ribeirão Preto
A coleta seletiva porta a porta avança na área urbana de Ribeirão Preto, mas o material separado pela população tem atualmente um único destino. Todos os recicláveis recolhidos pela Prefeitura são encaminhados à Cooperativa de Agentes Ambientais Mãos Dadas. Outras duas organizações da cidade, a Cooperativa de Reciclagem de Ribeirão Preto (CRRP) e a Cooperagir, aguardam a assinatura de contratos para também participar do serviço.
“O chamamento público para credenciamento de cooperativas de catadores de recicláveis segue aberto para o envio das documentações das cooperativas faltantes”, explica o secretário municipal da Infraestrutura, Júlio Caliento. O procedimento foi aberto em setembro de 2025 e as três cooperativas foram convocadas em fevereiro deste ano. Ainda não há prazo anunciado para a conclusão do processo.
De janeiro a julho de 2026, Ribeirão Preto recolheu, em média, 261,57 toneladas mensais por meio da coleta seletiva. O volume acumulado nos sete meses chegou a 1.830,99 toneladas. A Prefeitura afirma que a divisão futura considerará a capacidade técnica e operacional de cada cooperativa, o número de cooperados e a quantidade que cada uma consegue processar.
O serviço alcança 100% da área urbana uma vez por semana. Mas o volume separado ainda representa uma parcela pequena dos resíduos produzidos no município. A cidade gera cerca de 650 toneladas de resíduos sólidos urbanos por dia, o equivalente a aproximadamente 19,5 mil toneladas em um mês de 30 dias. A coleta seletiva corresponde, portanto, a cerca de 1,3% desse total.
A proporção não significa que todo o material recolhido seja efetivamente reciclado. Antes de voltar ao mercado, os resíduos precisam passar pela triagem, etapa em que são separados os itens comercializáveis e aquilo que não pode ser aproveitado.
Os números atuais indicam avanço em relação à retomada da coleta porta a porta. O serviço ficou suspenso por mais de um ano e voltou em 1º de julho de 2024, quando passou a atender toda a área urbana. Naquele mês, foram recolhidas 189 toneladas. A média dos sete primeiros meses de 2026 é 38,4% superior, embora a comparação reúna períodos diferentes. A Prefeitura não forneceu o balanço fechado de 2025.
Na Mãos Dadas, os dados apresentados pelo diretor financeiro, Carlos Roberto Mendes, são próximos dos números municipais. A cooperativa recebe, em média, 264,86 toneladas por mês, transportadas pela Estre Ambiental, responsável pela coleta nas ruas e nos ecopontos.
Após a triagem, aproximadamente 116 toneladas são classificadas como rejeitos, enquanto cerca de 148,86 toneladas ficam disponíveis para comercialização. Isso significa que 43,8% do material recebido não pode ser recuperado. A cooperativa possui atualmente 36 cooperados. Segundo Carlos, os contratos têm duração de 12 meses e vêm sendo prorrogados desde 2013.
Do outro lado da espera, a CRRP, criada em agosto de 2023, possui nove cooperados e declara ter capacidade para triar e comercializar até 100 toneladas por mês. “Recebemos no início de janeiro, por e-mail, a informação de que seria feita a contratação das três cooperativas. Agora estamos aguardando a assinatura”, afirma a diretora financeira Ana Paula dos Santos Lopes. Para ela, a entrada dos materiais recolhidos pela Prefeitura poderá aumentar a renda dos cooperados e permitir novos investimentos na estrutura da entidade.
Enquanto o contrato não chega, a CRRP mantém a operação com materiais levados à sede ou obtidos por meio de parcerias. Ana Paula afirma que cerca de 100 pessoas passam pelo local em dias tranquilos para doar ou vender recicláveis. Nos períodos de maior movimento, o número pode superar 200.
A cooperativa recebe plásticos, papéis, metais, vidro e sucatas. Também visita escolas e recebe estudantes para atividades de conscientização ambiental, ações que ajudaram a formar uma rede própria de fornecedores e parceiros.
No início do ano, representantes das três cooperativas participaram de reuniões com a Secretaria da Infraestrutura. Segundo Ana, foram discutidas a divisão dos materiais da coleta seletiva e dos ecopontos e a prestação de serviços em eventos.
Documento no caminho
Segundo Ana, o registro na Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo (Ocesp) está entre os documentos exigidos pelo chamamento. Ela afirma que a CRRP deu entrada no pedido e aguarda a análise. A manutenção do registro, de acordo com a diretora, custa aproximadamente R$ 1 mil por ano.
O documento não havia sido solicitado em outros processos públicos dos quais a CRRP participou. “É um custo adicional que não faz muito sentido, porque a estrutura e a manutenção da cooperativa já têm um custo alto”, argumenta.
A Secretaria da Infraestrutura não indicou quais documentos ainda devem ser apresentados por cada organização nem estabeleceu uma previsão para as assinaturas. A Cooperagir preferiu não comentar o assunto.
Pagamento contestado
A relação financeira da Prefeitura com a Mãos Dadas também é questionada. Segundo Carlos Roberto Mendes, no modelo anterior, a remuneração pela triagem era calculada sobre todo o material recebido, até o limite de 150 toneladas mensais. Agora, o pagamento segue faixas escalonadas e considera o volume vendido após a separação.
A mudança ganha peso, pois grande parte do material recebido pela cooperativa é classificado como rejeito. Embora essa parcela também precise ser recebida e separada pelos cooperados, ela não gera receita com a venda.
“Antigamente, a gente recebia por tonelada, pelo total recebido na cooperativa, até o limite de 150 toneladas. Eles mudaram a fórmula e, no nosso entender, ela é prejudicial”, afirma Carlos. A entidade tenta negociar uma revisão. A reportagem não teve acesso às faixas e aos valores do novo modelo, por isso não foi possível calcular o impacto financeiro da mudança.
A entrada de mais cooperativas pode ampliar a capacidade de triagem e gerar renda, mas não resolve sozinha o baixo volume destinado à coleta seletiva nem a quantidade de rejeitos. O resultado também depende da separação feita em casas e estabelecimentos.
Para Ana, Ribeirão Preto precisa investir em campanhas permanentes. “Quanto mais conscientização ambiental a população tiver e quanto mais resíduos destinar para a reciclagem, melhor para nós, para a sociedade, para o meio ambiente e para os aterros”, conclui.