Remédio para o meio ambiente
Logística reversa de medicamentos ainda enfrenta hábito do descarte de comprimidos, xaropes e cartelas no lixo comum ou no esgoto
Durante décadas, o destino final de remédios vencidos foi tratado como um detalhe doméstico. O comprimido sobrando no armário acabava no lixo da cozinha. Xaropes iam para o ralo da pia. Cartelas metálicas seguiam para a coleta seletiva sem qualquer separação. “Muita gente ainda não percebe que medicamento não é lixo comum. O descarte incorreto pode contaminar água, solo e impactar diretamente a saúde pública”, explica a enfermeira Mariane Fabiani Ciccilini Simões, da gestão de resíduos da Secretaria Municipal da Saúde de Ribeirão Preto.
Só recentemente o país começou a estruturar uma política nacional capaz de interromper esse caminho invisível percorrido pelos resíduos farmacêuticos. Desde 2020, o Brasil possui um decreto federal que regulamenta a logística reversa de medicamentos domiciliares vencidos ou em desuso. A norma criou um sistema de responsabilidade compartilhada entre fabricantes, distribuidores, importadores, farmácias e consumidores. Na prática, a cadeia farmacêutica passou a ser obrigada a estruturar pontos de coleta e destinação ambientalmente adequados para esses resíduos.
Porém, quase seis anos depois da regulamentação nacional, especialistas ainda enxergam um desafio menos tecnológico do que cultural. “Além da logística, existe uma questão de comportamento. A população ainda não recebeu informação suficiente sobre os riscos do descarte incorreto”, afirma a socioambientalista Magda Maria Guilhermino, da ONG Terra Sem Plástico.
Em Ribeirão Preto, pessoas físicas podem entregar medicamentos vencidos nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e também em farmácias privadas que possuam coletores específicos. Já agulhas e objetos perfurocortantes utilizados em tratamentos domiciliares devem ser encaminhados exclusivamente às unidades públicas de saúde. Pessoas jurídicas que trabalham com esses materiais, como clínicas e até estúdios de tatuagem, precisam pagar a empresas credenciadas para fazerem o descarte regular do material. Já suas embalagens de papel e bulas podem seguir para reciclagem convencional.
De acordo com a enfermeira Magda, os chamados “blisters” – cartelas metálicas utilizadas para comprimidos – seguem entre os itens mais descartados incorretamente pela população, mas não devem ir para o lixo comum nem para a coleta seletiva convencional. “Elas carregam resíduos contaminantes”, alerta.
As equipes de saúde de Ribeirão Preto também orientam moradores sobre o descarte de materiais perfurocortantes utilizados em casa, como agulhas aplicadas em tratamentos injetáveis. Nesses casos, a recomendação é armazenar os itens em recipientes resistentes, como frascos de amaciante ou água sanitária, antes da entrega em unidades de saúde. O objetivo é evitar acidentes tanto dentro das residências quanto durante o transporte e manejo dos resíduos.
O volume de 300 kg mensais de resíduos químicos recolhidos nas unidades municipais, segundo dados da Secretaria Municipal da Saúde, ajuda a dimensionar um problema que cresce junto com o aumento do consumo de medicamentos no país. O Brasil envelhece rapidamente e seus armários de remédios também. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que pessoas com 60 anos ou mais já representam 16,6% da população brasileira, percentual que há pouco mais de uma década era de 11%.
O PERIGO DAS SUPERBACTÉRIAS
Análise publicada pela revista científica “Ciência & Saúde Coletiva” mostrou que grande parte da população brasileira nunca recebeu orientação adequada sobre descarte de medicamentos. Mais de 60% dos entrevistados afirmaram jogar remédios no lixo comum. O cenário preocupa porque os impactos ambientais desse descarte não são visíveis no curto prazo. “Muitos medicamentos são formulados justamente para resistirem à degradação química dentro do organismo humano. O problema é que essa estabilidade continua mesmo depois do descarte. Quando comprimidos, cápsulas e xaropes chegam às redes de esgoto, parte dessas substâncias atravessa os sistemas convencionais de tratamento sem ser totalmente eliminada”, explica a farmacêutica Andrea Cristina Soares, da equipe de Gestão de Resíduos da Secretaria Municipal da Saúde.
“As técnicas tradicionais de tratamento de água e esgoto não conseguem reter completamente esses resíduos químicos. Muitas dessas substâncias continuam circulando no meio ambiente por longos períodos”, complementa a enfermeira Magda.
Resíduos de antibióticos, hormônios, anti-inflamatórios e antidepressivos já foram identificados em cursos d’água em diferentes partes do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), um dos principais alertas envolve o surgimento das chamadas superbactérias, microrganismos resistentes aos tratamentos convencionais em razão da presença contínua de antibióticos no ambiente. Já resíduos hormonais têm sido associados a alterações reprodutivas em organismos aquáticos e desequilíbrios ambientais ainda difíceis de medir em sua totalidade.
A boa notícia é que, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias, o volume de medicamentos descartados corretamente no país ultrapassou mil toneladas em 2025 — número 18 vezes maior que o registrado em 2021. Atualmente, cerca de 7,8 mil farmácias brasileiras já possuem pontos de coleta.
Ribeirão Preto faz parte desse processo nacional. Por possuir mais de 500 mil habitantes, o município entrou no grupo de cidades prioritárias, como previsto pelo decreto federal para implantação do sistema de logística reversa nas farmácias. Hoje, essa logística funciona como uma cadeia integrada entre farmácias, distribuidores e empresas especializadas no tratamento ambiental desses resíduos. Depois de entregues nos pontos de coleta, os medicamentos seguem para destinação controlada, normalmente por meio de incineração ou tratamento térmico, reduzindo os riscos de contaminação ambiental.
Ainda assim, o elo mais importante da cadeia continua sendo o consumidor. Para Mariane, o país avançou na regulamentação, mas ainda comunica pouco sobre o tema. Diferentemente do que acontece com descarte de pilhas, óleo de cozinha ou eletrônicos. “As pessoas precisam entender que o descarte correto também é uma forma de cuidado com a saúde coletiva”, reforça.
PARA ONDE VAI O REMÉDIO VENCIDO?
Na sua casa: encontrou medicamento vencido, sobra de tratamento ou cartela usada?
Leve para os pontos de coleta: UBSs de Ribeirão Preto e farmácias com coletores específicos
Logística reversa: os resíduos são recolhidos por empresas especializadas e credenciadas
Destinação final: medicamentos passam por tratamento térmico e incineração controlada
Impacto evitado: redução da contaminação da água, do solo e do risco de superbactérias