Responsabilidade de todos
Esta é uma entre muitas questões sobre o lixo que precisamos internalizar, de acordo com a docente, pesquisadora e consultora ambiental Marília Agnesini
Engenheira Química e doutora em Tecnologia Ambiental, Marília Vasconcellos Agnesini atua como docente e pesquisadora nos cursos de graduação em Engenharia Química e Arquitetura e Urbanismo e no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia Ambiental da Unaerp (Universidade de Ribeirão Preto). Desenvolve projetos de pesquisa nas áreas de sustentabilidade, gestão de resíduos sólidos e aplicação de processos para o tratamento de água e efluentes, além de atuar como consultora ambiental, ministrando palestras, cursos, elaborando pareceres técnicos e propondo soluções ambientais para os setores público e privado, com foco na aplicação prática do conhecimento científico e na promoção do desenvolvimento sustentável. Na entrevista a seguir, ela fala especialmente sobre a importância de se repensar a forma como cada pessoa descarta o resíduo que produz.
Como vê a situação atual da gestão de lixo em Ribeirão Preto?
O principal desafio das pesquisas na área ambiental é justamente tirar o conhecimento científico do papel e transformá-lo em prática. Quando trabalhamos com resíduos sólidos, fica muito evidente a distância entre o discurso ambiental e o comportamento real da população. Em Ribeirão Preto, ainda enfrentamos uma cultura de descarte muito forte, baseada na ideia de que o lixo ‘desaparece’ depois que sai da nossa casa, quando, na realidade, nada do que consumimos é jogado fora. O resíduo apenas muda de lugar. Ele vai para um aterro, para o solo ou para rios, gerando diversos impactos. Outro ponto crítico é o preconceito e a marginalização dos trabalhadores do setor de resíduos. Isso revela uma contradição: falamos em sustentabilidade, mas não valorizamos quem está na base desse sistema. Portanto, a cidade ainda está distante de uma real consciência ambiental. Falta informação, mas, principalmente, falta responsabilidade compartilhada entre uma gestão pública adequada e as escolhas diárias da população.
Ribeirão Preto tem enfrentado problemas crônicos de descarte irregular de lixo em áreas públicas. Na sua opinião, quais são as principais causas desse comportamento?
Eu percebo que o descarte irregular de resíduos é, antes de tudo, um reflexo do comportamento da sociedade. Ele contribui diretamente para cenas que, infelizmente, tornaram-se comuns: lixões a céu aberto e despejo em rios e córregos. A falta de conscientização e de educação ambiental é um fator importante, mas o problema vai além da simples falta de informação. Existe uma relação cultural muito equivocada com o lixo, que é visto como algo inútil, sem valor, que precisa apenas ser descartado o mais rápido possível. Quando a sociedade enxerga o resíduo apenas como rejeito, ela se isenta da responsabilidade pelo que acontece depois do descarte: o problema ‘deixa de ser meu’ assim que o saco de lixo sai da minha casa. Essa visão ignora que muitos desses materiais poderiam ser reutilizados, reciclados ou destinados de forma adequada. Claro que questões estruturais também influenciam, como falhas na coleta seletiva, ausência de pontos adequados de descarte e fiscalização insuficiente. No entanto, mesmo onde existe estrutura, o descarte irregular continua acontecendo, o que mostra que o problema é mais profundo e está ligado ao modo como produzimos, consumimos e lidamos com nossos resíduos.
O papel do cidadão é fundamental, mas as políticas públicas, como os ecopontos, também são ferramentas-chave. Como avalia a eficácia dos ecopontos?
Os ecopontos são, sem dúvida, ferramentas muito importantes para a gestão dos resíduos recicláveis. Quando bem utilizados, eles contribuem diretamente para a redução do descarte irregular e para a organização do sistema de limpeza urbana. No entanto, em Ribeirão Preto, a sua eficácia ainda é limitada por alguns fatores: muitos moradores desconhecem a existência desses locais ou não sabem exatamente onde eles estão, o que evidencia uma falha na comunicação e na divulgação por parte do poder público. Além disso, não basta apenas disponibilizar o ecoponto; é fundamental garantir o gerenciamento adequado dos resíduos que chegam até ele. Isso inclui a triagem correta dos materiais, a separação entre recicláveis e rejeitos e, principalmente, a articulação direta com as cooperativas locais.
Há muitos desafios de aplicação e fiscalização da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010). Onde está o maior gargalo: leis, fiscalização, educação?
Na minha visão, o maior gargalo está na educação ambiental. Leis, fiscalização e multas são instrumentos importantes, mas atuam de forma corretiva e punitiva. Elas não mudam, por si só, a forma como as pessoas se relacionam com o lixo. A educação ambiental é a base para a mudança de comportamento, pois trabalha valores, percepção de responsabilidade e consciência coletiva. Quando a população entende que o descarte inadequado gera impactos não somente ambientais, mas também sociais e econômicos, que retornam para a própria cidade, o cumprimento das leis deixa de ser apenas uma obrigação e passa a ser uma escolha consciente.
A logística reversa é um conceito central da gestão de resíduos sólidos e da economia circular. O que isso significa para cidadãos e empresas?
A logística reversa é, basicamente, o caminho de volta dos produtos depois que eles já foram usados. Em vez de irem para o lixo comum, esses materiais retornam para seus fabricantes, para serem reaproveitados, reciclados ou descartados de forma ambientalmente correta. Para o cidadão, isso significa separar corretamente resíduos como embalagens, eletroeletrônicos, pilhas, baterias, lâmpadas, óleo de cozinha e medicamentos vencidos, e destiná-los aos pontos de coleta adequados. Para as empresas, a logística reversa representa responsabilidade sobre todo o ciclo de vida do produto. Isso inclui estruturar sistemas de coleta, parcerias com cooperativas, ecopontos e recicladores, além de investir em embalagens mais sustentáveis e em processos alinhados à economia circular. Na prática, quando a logística reversa funciona, menos resíduos vão para aterros, mais materiais retornam para a cadeia produtiva, o que representa um ganho ambiental, social e econômico para toda a região.
No seu trabalho com estudantes e pesquisadores, você já observou iniciativas inovadoras ou comportamentos que trazem esperança para o futuro da gestão de resíduos em Ribeirão Preto?
Sim, tenho observado iniciativas muito positivas, especialmente no ambiente acadêmico, que mostram que é possível avançar na gestão de resíduos de forma estruturada e prática. Recentemente, desenvolvi com minha aluna, a engenheira química Cristiane Panari, o seu projeto de mestrado em Tecnologia Ambiental na Universidade de Ribeirão Preto, com foco específico na criação e estruturação de cooperativas de reciclagem. O trabalho abordou de forma prática todos os aspectos necessários para a criação de uma cooperativa. Como resultado, foi fundada, em 2023, a Cooperativa de Resíduos Sólidos Recicláveis de Ribeirão Preto, que hoje já se encontra homologada pela Prefeitura. Além disso, com o objetivo de contribuir com outras iniciativas semelhantes, nosso grupo de pesquisa elaborou um manual prático que orienta o planejamento, a formalização e a gestão sustentável de cooperativas de recicláveis. Esse tipo de iniciativa mostra que a integração entre universidade, poder público e sociedade civil pode gerar soluções reais, replicáveis e com impacto positivo para o futuro da gestão de resíduos na cidade.
As cooperativas de catadores e recicladores são um elo importante entre o cidadão, o poder público e o setor produtivo. O que ainda precisa melhorar?
As cooperativas de recicláveis são um dos melhores exemplos práticos de desenvolvimento sustentável. Elas atuam de forma integrada nas três dimensões da sustentabilidade. Do ponto de vista ambiental, contribuem para a captação de resíduos recicláveis que, muitas vezes, seriam descartados de forma irregular ou destinados a aterros, promovendo a logística reversa e a economia de novas fontes de matérias-primas, por exemplo. Na dimensão econômica, geram renda por meio da comercialização dos materiais recicláveis, criando uma atividade produtiva essencial para a cadeia de gestão de resíduos. Já no aspecto social, as cooperativas têm um papel fundamental na reintegração de trabalhadores historicamente marginalizados, como os catadores, promovendo inclusão social, dignidade e reconhecimento profissional. No entanto, apesar de sua importância, o investimento e o olhar do poder público e do setor produtivo para esse setor ainda são insuficientes: faltam apoios técnico, financeiro e institucional para que as cooperativas possam se fortalecer e se profissionalizar.
Quais são os impactos imediatos graves que você vê, hoje, em Ribeirão Preto relacionados ao descarte inadequado — desde poluição visual até riscos à saúde ou ao solo e à água?
Um dos primeiros efeitos visíveis é a poluição visual, que degrada áreas públicas, terrenos baldios e margens de rios e córregos. Além disso, há impactos ambientais mais críticos, como a contaminação do solo e da água. Resíduos descartados de forma irregular podem liberar substâncias tóxicas, que se infiltram no solo e podem alcançar as águas subterrâneas, comprometendo a qualidade ambiental. Do ponto de vista da saúde pública, o acúmulo de lixo favorece a proliferação de vetores de doenças, como insetos e roedores, aumentando o risco de problemas sanitários para a população.
Educação ambiental é frequentemente mencionada como solução essencial. Na prática, o que precisa acontecer nas escolas, nas famílias ou nos espaços públicos e privados para que as atitudes em relação ao lixo comecem a mudar?
Precisamos falar abertamente sobre o lixo e quebrar paradigmas relacionados ao consumo excessivo e à ideia de que descartar é suficiente para resolver o problema. É fundamental que as pessoas compreendam que existe uma relação direta e interdependente entre o descarte inadequado de resíduos e problemas ambientais, sociais e de saúde humana. Na prática, a educação ambiental deve começar nas escolas, mas não pode se restringir a elas. Ela precisa alcançar toda a sociedade, por meio de campanhas permanentes, ações comunitárias e políticas públicas educativas. Quando a educação ambiental é tratada como um processo coletivo e permanente, e não como uma ação pontual, as atitudes começam a mudar de fato e, assim, formar cidadãos mais conscientes, críticos e corresponsáveis pela gestão dos resíduos que geram.
Nos próximos anos, o que é necessário para Ribeirão Preto avançar de forma sustentável na gestão de resíduos?
O que Ribeirão Preto mais precisa é de atitude e ação. Iniciativas como as que estão sendo discutidas hoje, neste projeto da Revide, envolvendo a sociedade civil, a academia, o poder público e a mídia, são um excelente começo. Estar cercada de pessoas unidas por um propósito comum é inspirador e mostra que a transformação é possível. No entanto, não podemos parar no debate. É fundamental enxergar o problema de forma holística e colocar em prática todo o conhecimento científico que já temos. Isso inclui investir em educação ambiental contínua, fortalecer políticas públicas, apoiar cooperativas e ouvir quem construiu sua vida trabalhando com o lixo: essas pessoas têm um conhecimento prático valiosíssimo. Só com ação coordenada, escuta ativa e compromisso coletivo conseguiremos avançar de forma sustentável na gestão de resíduos da cidade, transformando um problema histórico em oportunidade de desenvolvimento sustentável.