Sem deixar rastros
Artista de Ribeirão Preto tem hábitos pensados no futuro do planeta e, mesmo sem acreditar que ações individuais salvem o mundo, continua fazendo sua parte
Quando abriram a tartaruga no litoral de Santa Catarina, havia um plástico de bala dentro do seu estômago. A cena não foi presenciada por Luara Pepita, mas por uma ex-aluna, bióloga, que participava da análise de animais mortos na costa. “Ela disse que ela podia ter chupado aquela bala. Aquilo ficou comigo”, lembra a multiartista e arte-educadora de Ribeirão Preto.
A primeira lembrança de separação de resíduos de Luara nasceu antes, de uma prática simples. Entre 2008 e 2011, ela estudava na Unicamp e morava perto de repúblicas estudantis. Ali, o lixo era dividido em três lixeiras: para orgânicos, recicláveis e lixo comum. “Era uma boa base. Quando você separa o seco do molhado, já começa a ter noção do quanto gera”, recorda. Foi em 2017, porém, depois da história da tartaruga, que a consciência virou prática radical.
Luara comprou um copo de silicone e nunca mais usou copinho descartável. Vieram o guardanapo de pano, os talheres de bambu, o canudo reutilizável. Depois, o xampu em barra, o condicionador sólido, a pasta de dente sem embalagem convencional, cosméticos com bioplástico vegetal. “A ideia não é só separar, mas gerar menos [lixo]. Tem coisa demais no planeta. A meta é reduzir consumo em primeiro lugar”, explica.
Luara se define como vegana, artista, “lixo zero”, mas faz questão de desmontar qualquer idealização. Ela mora com outras pessoas, que nem sempre compartilham das mesmas escolhas. Usa carro, viaja, já retrocedeu em hábitos quando o trabalho apertou e o tempo faltou. “Cheguei em um ponto individual muito bom. Depois precisei mergulhar no trabalho e acabei comprando mais coisas embaladas. Eu respeito os ciclos. Não sou menos por conta disso. Sigo firme”, declara.
Na casa onde vive hoje, os recicláveis são separados e recolhidos por catadores. Os orgânicos vão para a composteira de uma amiga, em uma chácara. “Separar o seco do melado já ajuda demais, mas separar não é suficiente. Reduzir é o principal”, ensina. Ela insiste na “chavinha do consumo”, que consiste em comprar menos, consumir de fato o que compra, evitar acúmulo que vira resíduo antes mesmo de ser usado.
Essa lógica transbordou para o trabalho. Em 2020, ao lado da atriz e diretora Miriam Fontana, fundou o projeto Rastro do Meu Passo, espetáculo e ação educativa que conecta arte e sustentabilidade. A montagem circulou pelo Sesc, teve apoio do ProAC e passou por 12 cidades, realizando oficinas de figurino com resíduos, debates e ações inclusivas. “Um projeto que era para ser simples virou gigante. Não vamos romantizar porque é caro e dá trabalho, mas precisamos saber o melhor caminho e fazer a nossa parte”, detona.
A mesma filosofia orienta a ARTEIA, espaço cultural independente que ela gere na avenida Meira Júnior. Lá, não há lixo, apenas lixeira no banheiro. Cada visitante leva seus resíduos de volta. Copos são de vidro, utensílios de metal, e móveis de pallet reaproveitado. “Leve seu copo ou caneca” é campanha permanente. A decoração privilegia pintura nas paredes em vez de objetos. O Coletivo Lixo Zero é parceiro constante. “Não existe fora”, ela diz. “A palavra lixo nos faz acreditar que dá para jogar algo para longe, mas não dá.”
Luara é dura ao falar da cidade. “A cultura do descarte em Ribeirão é ruim! Falta estrutura, fiscalização e educação ambiental”, aponta. Ainda assim, recusa o cinismo. Quando questionada se ações individuais fazem diferença, ela responde com honestidade desconfortável – “não fazem em um sistema estruturado para destruir” – e completa, quase no mesmo fôlego, que, independentemente disso, não vai deixar de fazer a sua parte. “É o que me cabe.”
Entre a descrença sistêmica e a prática cotidiana, ela escolhe o gesto. “A gente pode aplicar isso não só ao lixo, mas à nossa conduta com os outros. Fazer a própria parte é uma forma de seguir.”
Foto: Gabi Nalon