‘Uma dor absurda’
Benedito Fonseca, Susana Souza, Adiel Ramos e André Nogueira

‘Uma dor absurda’

É assim que pacientes descrevem o sofrimento causado pelo herpes-zóster, doença que pode deixar dor persistente e é prevenível por vacina disponível apenas na rede privada

Uma das primeiras providências tomadas pela jornalista Susana Souza, ao completar 60 anos, foi ir até o posto de saúde de seu bairro saber quais vacinas são recomendadas à sua nova idade. Na hora, já recebeu imunizações contra a gripe e a covid-19 e foi informada sobre a vacina contra o herpes-zóster, disponível apenas na rede privada. Ela já tinha os orçamentos de três clínicas particulares em mãos quando foi surpreendida pelos primeiros sintomas da doença.


Confundiu as primeiras dores nas costas, que impediram seu sono, com mau jeito decorrente do treino pesado que fizera na academia. No pronto atendimento, o médico que a atendeu chegou a suspeitar da doença, mas, como não encontrou manchas ou bolhas, prescreveu um analgésico e lhe recomendou procurar um ortopedista. No dia seguinte, as bolhinhas apareceram e ela foi imediatamente buscar o antiviral no atendimento 24 horas do convênio. “Àquela altura eu já tinha lido tudo a respeito da doença e sabia que precisava tomá-lo nas primeiras 72 horas após o aparecimento das bolhinhas”, comenta.


A dor continuou. “Uma dor absurda! Era como uma faca cortando minha carne de dentro para fora, ininterruptamente. Cheguei a chorar de dor”, relata Susana, que no oitavo dia procurou um infectologista. Ele receitou pregabalina, medicamento utilizado no tratamento da dor neuropática, que ela está tomando há quase um mês. “No último final de semana senti uma felicidade imensa por ter dormido praticamente sem dor”, comemora, já fazendo contas sobre quando poderá tomar a vacina.


Uma das complicações do herpes-zóster é a neuralgia pós-herpética, caracterizada pela dor que persiste por mais de 90 dias após o início das lesões e pode durar meses ou anos [veja quadro sobre a doença].


Para quem já teve uma crise, a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) sugere um intervalo de seis meses antes da vacinação, mas informa que esse período pode ser encurtado para evitar a perda da oportunidade de se vacinar. O momento deve ser avaliado com o médico.


“O herpes-zóster é provocado pela reativação do vírus varicela-zóster, o mesmo da catapora, que permanece latente no organismo. Com o envelhecimento, o sistema imunológico perde eficiência (processo chamado de imunossenescência) e aumenta a possibilidade de o vírus voltar a se multiplicar”, explica o médico infectologista e professor na USP Ribeirão, Benedito Fonseca.


Por isso é que a doença se manifesta com mais frequência entre pessoas mais velhas. O arquiteto André Nogueira relata ter enfrentado cerca de dez episódios em apenas quatro anos e ainda não conseguiu se vacinar. “A cada cinco meses, em média, a crise volta”, afirma.


Para Fonseca, episódios recorrentes como os relatados por André exigem avaliação médica. “É fundamental o acompanhamento de um médico, porque pode haver efeitos colaterais”, frisa, ao falar sobre os tratamentos medicamentosos.

 

ENTUSIASTA DA VACINA


Fonseca se diz um entusiasta da atual vacina recombinante Shingrix, produzida a partir de uma proteína do vírus e sem vírus vivo em sua composição. Além de prevenir o herpes-zóster e suas complicações, a vacinação tem sido associada a um menor risco de demência em estudos publicados em revistas científicas como Nature Medicine e Annals of Internal Medicine. Os resultados são promissores, mas ainda não permitem tratar a prevenção da demência como um benefício comprovado da vacina.


“A recomendação médica formal é vacinar a partir dos 50 anos, sobretudo idosos e pessoas com algum grau de comprometimento imunológico. O esquema é de duas doses”, informa o médico. Segundo a SBIm, a vacina também é indicada a partir dos 18 anos para imunocomprometidos ou pessoas com risco aumentado para herpes-zóster.


Disponível apenas na rede privada, a vacina pesa no orçamento de nossos entrevistados. Entre os valores levantados por Susana junto a clínicas particulares de vacinação, há opções a partir de R$ 800 por dose. “São caras! Vou ter que me organizar financeiramente para tomar, mas só quem já passou por uma dor como a da herpes-zóster sabe o quanto esse investimento é importante”, diz.


O engenheiro elétrico Adiel Mendonça Ramos, 59, teve mais sorte. Aos 53, quando ainda trabalhava em São Paulo (capital), teve herpes-zóster na coxa direita e precisou pedir licença do trabalho. “A vacina não era liberada pelo meu convênio, mas como várias pessoas começaram a contrair, tendo que se afastar do serviço, houve um momento em que o convênio acabou oferecendo gratuitamente. O custo de cada dose, à época, era de mais ou menos R$ 1.000, mas eu não paguei nada”, diz.


Para o arquiteto André, o custo se tornou o de menos. “Se pudesse, eu tomaria a vacina hoje”, diz. O infectologista Benedito Fonseca compreende, mesmo nunca tendo sofrido com a doença. Segundo ele, ao avaliar pacientes com herpes-zóster usando uma escala de dor de 0 a 10, a imensa maioria classifica a intensidade nos níveis 9 ou 10. “Ninguém merece este nível de dor”, conclui.   

 


ENTENDA A DOENÇA


• O herpes-zóster, conhecido como cobreiro, ocorre quando o vírus da catapora, que permanece no organismo, volta a se manifestar. É mais comum em pessoas mais velhas ou com as defesas do organismo comprometidas.

 

• Dor, ardor ou formigamento podem surgir antes das manchas e bolhas na pele, geralmente em um dos lados do corpo. Em algumas pessoas, a dor persiste por meses ou anos. A doença também pode afetar os olhos e causar outras complicações. Ao perceber os sintomas, procure atendimento médico: o tratamento com antivirais tem melhores resultados quando iniciado nas primeiras 72 horas após o aparecimento das lesões.

 

• A prevenção é feita com vacina em duas doses, disponível na rede privada. Ela é indicada a partir dos 50 anos e, desde os 18, para pessoas com comprometimento da imunidade ou risco aumentado para a doença, conforme avaliação médica.


 

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