Vacina no braço, dúvidas na cabeça

Vacina no braço, dúvidas na cabeça

Rede com quase quatro dezenas de salas de vacinação em Ribeirão Preto garante acesso gratuito, mas profissionais da enfermagem ainda enfrentam desinformação, medo e desafios

Antes mesmo da primeira seringa ser preparada, o trabalho já começou. Na sala de vacinação da Unidade Básica de Saúde (UBS) da Vila Virgínia, na zona oeste de Ribeirão Preto, ainda antes da chegada dos pacientes, as geladeiras são abertas, temperaturas são conferidas, prazos de validade revisados. Cada detalhe importa. “Iniciamos o dia fazendo leitura das câmaras de vacinas, observando lotes e validades, fazendo assepsia no local e preparando tudo para o atendimento”, explica Elisabete Borges Trombela, auxiliar de enfermagem que atua na UBS.


A rotina se repete, com pequenas variações, em dezenas de unidades espalhadas por Ribeirão Preto. São 39 salas de vacinação distribuídas entre UBSs e UBDSs (Unidades Básicas Distritais de Saúde), formando uma rede que, segundo a Secretaria Municipal de Saúde, cobre todas as regiões da cidade. Do ponto de vista estrutural, o acesso existe e é amplo. A vacina é gratuita, está disponível perto de casa e atende diversos públicos. Ainda assim, a cobertura vacinal não avança no ritmo esperado. 


Em campanhas recentes, a cobertura entre grupos prioritários ficou bem abaixo da meta de 90%, com índices girando em torno de 60% em determinados grupos (idosos e crianças, por exemplo). No ano passado, a secretaria já havia alertado que nenhuma vacina infantil atingiu a meta ideal de 95% em determinados ciclos.


No último “Dia D de Vacinação”, que marcou o início da campanha contra a Influenza em todo o país, 6.893 pessoas foram imunizadas em Ribeirão. O número é considerado positivo pela subsecretária da Vigilância em Saúde, Luzia Márcia Romanholi Passos. “Estamos em um período de transição climática, em que as pessoas ficam mais suscetíveis às infecções respiratórias. O vírus da Influenza circula na cidade, portanto a população precisa se imunizar”, diz.


Na UBDS Castelo Branco, na zona leste, uma das mais movimentadas da cidade, a auxiliar de enfermagem Deise Andréa da Silva diz que, “em média, 100 pessoas se vacinam por dia, mas em campanhas esse número pode passar de 450”, conta. O volume deixa clara a capacidade do sistema e sua elasticidade. É capaz de aguentar uma demanda acentuada de movimento, principalmente depois das de campanhas nacionais, como as de influenza ou durante a pandemia de Covid-19.


A memória desse período, aliás, ainda atravessa o cotidiano de quem trabalha na linha de frente da imunização. Para muitos profissionais, foi ali que a dimensão do trabalho se tornou mais evidente. “Quando chegou a vacina contra a Covid-19, foi uma alegria muito grande. Era a esperança de proteger a população”, lembra Deise.


Para Rafael Evandro Merino, técnico de enfermagem que atua em duas unidades, a lembrança vem carregada de emoção. “Quando chegava alguém agradecendo a Deus pela oportunidade e, ao mesmo tempo, chorando por alguém que perdeu e não teve essa chance, doía demais”, relata. Em meio ao luto coletivo, a sala de vacinação se transformou em um espaço de reconstrução simbólica, um lugar onde ciência e esperança se encontravam, mas nem sempre esse encontro é simples.

 

RUÍDO DE INFORMAÇÃO


Se a logística funciona, com câmaras frias, controle rigoroso de temperatura e protocolos definidos, o mesmo não se pode dizer da circulação de informação fora das unidades de saúde. É onde se constrói uma das principais barreiras à vacinação.  “Existem muitas barreiras, como fake news, medo e falta de informação”, resume Rafael. As histórias que chegam até o balcão de atendimento são, muitas vezes, desconectadas da realidade científica. “Algumas beiram o absurdo. Outras são repetidas com tanta frequência que se tornam familiares. Perguntam se a vacina da gripe está misturada com a da Covid, se a vacina causa a doença”, conta Elisabete. 


Já Cristiane Lopes Silva, técnica de enfermagem da UBS Vila Recreio, na zona Norte, ouve versões ainda mais extremas: “Dizem que pode causar infarto, alterar o DNA ou até infertilidade. Não tem embasamento científico, mas gera medo”, afirma. Entre as mais recorrentes, estão também teorias de que vacinas mudariam a orientação sexual de adolescentes ou fariam parte de um plano para redução populacional. “Já ouvi que a vacina do HPV poderia mudar a preferência sexual do adolescente”, relata Rafael.


Diante disso, o trabalho técnico se mistura ao pedagógico. A cada atendimento, é preciso explicar, tranquilizar, reconstruir a confiança. Nem sempre dá certo. “Já presenciei pessoas que chegaram decididas a se vacinar, mas recuaram por medo ou influência de informações incorretas”, diz Cristiane. Em outros casos, o caminho é aberto por uma conversa. “Quando o paciente chega aberto ao diálogo e à aceitação de ideias que não chegaram pelas redes sociais, esclareço as dúvidas e ele resolve se vacinar”, afirma Deise.


Esse embate cotidiano ajuda a explicar um paradoxo em todo o país. O Brasil tem um dos programas de imunização mais completos do mundo, com calendário que contempla crianças, adolescentes, adultos, idosos e grupos com comorbidades. Ao mesmo tempo, enfrenta queda em coberturas vacinais que já foram referência internacional. Dados recentes do Ministério da Saúde mostram que vacinas básicas da infância, como poliomielite e tríplice viral, ainda não recuperaram plenamente os índices anteriores à pandemia. A meta de 95% de cobertura segue distante em diversas regiões do país.

 

HISTÓRIAS DESIGUAIS


Um diagnóstico comum para a queda da cobertura vacinal é a desigualdade. Cristiane diz que vê quase diariamente histórias que vão além da imunização. Crianças levadas por avós, famílias desestruturadas, mães sobrecarregadas. “Lembro de uma moça que cuidava do próprio filho e de sobrinhos com deficiência porque a mãe tinha abandonado. Ela veio regularizar as vacinas. Ela certamente é exceção no ato da vacina, mas não nos desafios da vida”, conta.


São situações que transformam a sala de vacinação em uma espécie de porta para o sistema de saúde e, muitas vezes, para o próprio acolhimento social. Rafael observa diferenças claras entre as regiões onde atua. Em uma unidade predominam idosos. Em outra, crianças que chegam depois da escola, aproveitando a proximidade. A lógica do território se impõe. “Muitos aproveitam a saída da escola e já passam na UBS para vacinação”, explica.


A capilaridade da rede, nesse contexto, é mais do que um dado técnico. É o que permite que essas histórias cheguem até o sistema. Ainda assim, existem obstáculos concretos. “Algumas pessoas têm dificuldade de locomoção ou horário de trabalho”, aponta Cristiane. Elisabete acrescenta outro fator importante. “A condição econômica. Há quem tenha dificuldade de acesso por causa da locomoção”, diz. Ou seja, mesmo com a estrutura distribuída pela cidade, o acesso não é automático. Ele depende de tempo, informação e, muitas vezes, de uma rede de apoio que nem sempre existe.


Para além do atendimento, existe também uma engrenagem que pouca gente enxerga. Cada dose aplicada carrega um processo logístico que começa muito antes de chegar ao braço do paciente. As vacinas precisam ser mantidas em temperaturas específicas, com controle constante. “Se houver qualquer alteração, não é possível garantir a eficácia”, explica Rafael. As câmaras utilizadas nas unidades contam com tecnologia que mantém o funcionamento mesmo em caso de falta de energia, mas a vigilância é permanente. Esse cuidado evita perdas e garante a qualidade do imunizante. 


No Brasil, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) é responsável por coordenar essa operação em escala nacional. Criado em 1973, ele estruturou a rede pública de vacinação que existe hoje. Ao longo das décadas, foi responsável pela erradicação da varíola e pela eliminação da poliomielite no país, conquistas que hoje parecem distantes, mas que dependem da manutenção da cobertura vacinal.

 

CONFIANÇA E MEDO


Para quem está do outro lado da agulha, a decisão de se vacinar nem sempre é simples. Mesmo com informação disponível, o medo ainda aparece. A aposentada Maria Lúcia Ferreira, de 67 anos, conta que hesitou antes de tomar a vacina contra a gripe. “Fiquei com receio por causa do que ouvi. A gente tem a impressão de que vai ficar doente, mas a enfermeira explicou tudo com calma. Saí mais tranquila”, diz.


Já o motorista João Henrique Alves, 34, admite que adiou a atualização da caderneta por anos. “A gente acha que não precisa, vai deixando. Só vim porque precisei para o trabalho”, afirma. Para os profissionais da enfermagem, essa é parte essencial do trabalho. “As vacinas são seguras e são nossas armas contra as doenças”, reforça Deise.


Ao final do dia, depois que o fluxo diminui e as portas se fecham, a rotina se reinicia. Novamente, conferência de temperaturas, organização dos materiais, registro das doses aplicadas. 


Entre uma campanha e outra, entre um surto e outro, a sala de vacinação segue como uma das estruturas mais capilares e democráticas do sistema de saúde brasileiro, mas ela não funciona sozinha. Depende de informação de qualidade, de confiança nas instituições e, principalmente, da decisão individual de cada pessoa. “Ter medo é normal, mas é importante buscar fontes seguras e conversar com profissionais”, orienta Cristiane. 

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