1992: Na ponta do estilete
O crescimento da violência na década de 90, em Ribeirão Preto, foi assunto retratado pela Revide. Um dos casos foi abordado duas vezes: a morte de Denise Caprânica pelo menor de idade "Tigrão"
Na década de 90, quando Ribeirão Preto registrava cerca de 70% de aumento da criminalidade, a Revide, já considerada um dos principais meios de comunicação da cidade, publicou, com destaque, o caso envolvendo Tigrão, um menor de idade que matou com um estilete a jovem Denise Caprânica. A cidade caminhava rumo a um aumento desenfreado nos índices de homicídios: a taxa, para cada 100 mil habitantes, era de 15,89, em 1991, e pulou para 44,64, em 1998.
Em uma tarde de dezembro de 1992, a estudante de 16 anos, moradora dos Campos Elíseos, seguia para a aula de teatro, quando Tigrão cruzou o seu caminho. Antes de sair, vestida de saia longa, salto alto e maquiada, Denise perguntou para a mãe se estava bonita. Dona Elma, orgulhosa, afirmou que sim, mas a filha decidiu voltar para o quarto e trocar de roupa. Vestiu calça legging, camiseta e tênis.

O pai, Remo, não conseguiu acompanhar a filha até o Teatro Municipal, como de costume. Tinha recebido visitas e Denise, portanto, seguiu sozinha. Não podiam imaginar que, a poucos quarteirões, o tênis que a menina usava seria o chamariz para se deparar com a morte. Denise foi abordada por “Tigrão”, o menor que roubou seu tênis e tirou-lhe a vida com um estilete fincado no coração.
A irmã de Denise, a advogada Rosana, lembra que o dia seguiu sua rotina até o momento do assalto. “Minha irmã havia passado o dia todo em casa. Já tinha ido à escola e se preparou para ir ao teatro. Naquele dia, infelizmente, saiu sozinha para o curso”, conta Rosana. Por volta das 18h30, um amigo da família deu a notícia de que a menina havia desmaiado na rua e tinham a levado para o hospital. “Eu corri na frente, enquanto meus pais estacionavam o carro e o médico foi pediu calma, mas já avisou que minha irmã estava morta. Não havia mais o que fazer”, recorda Rosana.
Sensibilidade da população
Tamanha brutalidade causou comoção na população, que começava, então, a perceber traços de insegurança, medo e o crescimento do número de menores infratores. Depois do ocorrido, a mãe de Denise caiu em prostração. Sandra, a outra irmã que já morava no exterior, passou um mês com a família. Apesar da companhia e do apoio das filhas, Elma não encontrava motivos para seguir adiante e ficava imaginando formas de se encontrar com o jovem acusado e se vingar. “Se isso acontecesse, certamente não íamos cometer nenhum crime, porque não fomos criados para matar ninguém, mas pensávamos e fantasiávamos um plano que diminuísse a nossa dor”, lembra a mãe.
Rosana via, diante de si, o abatimento da mãe que, dia após dia, perdia o brilho nos olhos. “O tempo passa rápido e traz serenidade, compreensão, conforto e ainda mais união familiar. Os sentimentos vão tomando outras proporções e dando lugar às lembranças e à saudade”, argumenta Rosana. Viver o luto de forma natural, sem exageros e com o objetivo de manter as boas recordações de Denise foi um passo importante para que a família se reerguesse.
Depois que Sandra e o filho voltaram para os Estados Unidos, Elma ficou ainda pior, mas, ao ver o sofrimento da outra filha e do marido por conta de sua dor, decidiu se reerguer. “Sei que muitas mães passam por isso todos os dias, mas era a minha filha, a minha dor”, desabafa Elma. Aos poucos, ela foi retomando as atividades diárias e a rotina voltou à normalidade para a família Caprânica.
Tigrão cumpriu três anos de prisão, à época, na Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (FEBEM) — hoje, Fundação Casa — e, cinco anos depois, a família soube que ele morreu em um acidente de moto, depois de ter cometido outro roubo. “Recebi a notícia e um vazio tomou conta de mim. Não tinha nenhum sentimento de vingança, apenas um pensamento no quanto a mãe deste jovem poderia estar sofrendo naquele momento”, revela Rosana.
Um tempo depois, Remo adoeceu e se tornou dependente dos cuidados da família. Assim, as atenções foram voltadas para a sua saúde, até que, há 11 anos, o pai de Denise faleceu em decorrência de um AVC. O que restou para Rosana e Elma foram as lembranças. “Jamais vou esquecer esses episódios, mas a rotina transforma os sentimentos e tudo fica mais tranquilo. Não me lembro dos momentos ruins, apenas da memória da minha filha ainda viva, enquanto estava entre nós”, ressalta a mãe.
Para Elma e Rosana, o maior incômodo é ver, hoje, a falta de sensibilidade das pessoas com tantos casos de violência que acontecem na cidade. “Vivemos o luto da forma que achamos que devia ser. Aprendemos muito com tudo isso. Entendemos melhor a respeito do que é o ser humano e suas relações. Apenas vivemos os dias após o acontecido sem questionar o porquê de tudo isso. Respeitamos a ausência de Denise e de Remo”, finalizam mãe e filha.