1995: A descriminalização do aborto
Marli Villela Mamede, ex-professora titular da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, retoma o assunto que comentou na Revide há 24 anos e que ainda hoje continua no centro das atenções
Em fevereiro de 1995, as páginas da Revide já eram carimbadas com um dos assuntos mais polêmicos da sociedade atual. Sob o título “Direito de escolha”, a matéria, feita pela jornalista Marilice Bernabei, levantou a discussão sobre a descriminalização do aborto. À época, estimava-se que, no Brasil, eram realizados de 3 a 6 milhões de abortos por ano, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desses casos, cerca de 400 mil resultaram em morte da mãe.
Depois de 24 anos, o resgate dessa reportagem ocorre por meio do relato da professora titular da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto-USP, à época. Marli Villela Mamede, hoje com 68 anos, lembra que as mulheres eram colocadas no hospital em quartos separados e vistas como pessoas que não praticavam atitudes corretas, algo que já se esperava da sociedade. A aposentada tem convicção de que mulher nenhuma quer fazer aborto. Para ela, quem se submete a isso, entra nesse processo por outras questões, principalmente sociais, pressão da família, medo, pressão econômica ou de parceiro sexual.
A reportagem ainda trazia um estudo de 1989 sobre abortos provocados, feito pela mestranda da Escola de Enfermagem e professora da Universidade Federal de São Carlos, Márcia Marinelli. Ela descreveu a dificuldade que foi conseguir os dados e ficou um ano e meio à espera para ter acesso a essas informações. Em se tratando dos motivos para o aborto, 15% estavam relacionados a fatores econômicos. Atualmente, Marli ainda afirma que, analisando o perfil dessas mulheres, as que morrem são negras, pobres e desacompanhadas. Umas das questões que a profissional procurava compreender era o histórico delas. “Eu sempre analisava os motivos que as levavam àquela situação. Aí eu questionava o porquê de criminalizar essas mulheres”, relaciona a ex-professora.
Sendo favorável à descriminalização do aborto, a aposentada diz que a mulher deve ter autonomia sobre seu próprio corpo. “Ao mesmo tempo, nós, profissionais da saúde, temos a responsabilidade de dar todos os recursos possíveis para que aquela mulher seja informada, ajudá-la a compreender seu corpo. No momento que ela decidir sobre isso, que ela tenha um respaldo, como as mulheres ricas têm”, ressalta Marli.
O papel da mídia
Ao relembrar o papel que a mídia tem em tratar desse assunto, Marli diz que procura ajudar bastante a colocar a questão em discussão, existente há milênios e encoberta pela igreja. A aposentada lembra, ainda, que, no período da reportagem da Revide, vários jornais a procuraram para falar sobre a temática, inclusive a televisão. A repercussão foi grande a partir da matéria na revista. “Acho que a Revide foi umas das pioneiras em trazer essa questão tão encoberta que é o aborto. Acredito também que a revista sempre está atualizada, muito além dos nossos tempos”, comenta a aposentada.
O aborto é proibido no Brasil, e só admitido pelas leis do país em três situações: gravidez decorrente de estupro, risco de morte para a mãe e casos de feto anencéfalo. Segundo a Pesquisa Nacional sobre o Aborto (PNA), o procedimento é tão comum no Brasil que, ao completar 40 anos, mais de uma em cada cinco mulheres já terá feito aborto. O recurso ainda é praticado no auge do período reprodutivo feminino, entre 18 e 29 anos, e recorrente nas mulheres que possuem baixa escolaridade.
Fonte de informação
“Eu sou leitora assídua da Revide. Ela chega toda semana na minha casa. As capas são extremamente atrativas, chamam a atenção para buscar o que está naquele conteúdo. A Revide foi um grande ganho para Ribeirão Preto. O povo se acostumou com ela. Então, todo lugar que vamos, a Revide está. Ela faz parte de nossa vida. É uma mídia que oferece informação, educação e orientação para a população. Eu dou os parabéns à Revide e desejo que ela se fortaleça cada vez mais”, afirma a aposentada Marli Villela Mamede.
