25 anos de apoio
O atendimento é feito por enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, além do trabalho em conjunto com os médicos
No dia 5 de maio de 1992, Neusa Guissoni da Silva, então com 52 anos, recebeu alta da cirurgia de mastectomia — processo de remoção da mama para o tratamento do câncer — e foi orientada, ainda no hospital, a frequentar um grupo multidisciplinar chamado Rema, núcleo de ensino, pesquisa e assistência na reabilitação de mastectomizadas, criado pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP. “Não sabia nem entendia nada sobre a doença. Naquela época, não se falava muito sobre o assunto. Então, senti um pouco de dificuldade de me relacionar com as outras pessoas”, conta dona Neusa, uma das mulheres que está há mais tempo no grupo.
Em 22 anos frequentando as atividades, Neusa já é considerada por muitas, inclusive pelos profissionais do núcleo, uma “mãezona”. Após receber um abraço de uma das enfermeiras e entrar na sala para a entrevista, a dona de casa relatou as dificuldades que passou após a cirurgia e com o tratamento. Neusa conta que, ao ver que outras mulheres passam pela mesma situação, procura ajudar. “Foi depois de vir para o Rema que passei a me identificar com as histórias de outras mulheres”, revela.
De fala tranquila e expressão zelosa, dona Neusa, demonstrando empatia com as frequentadoras mais novas do grupo, diz entender que muitas pacientes pensam que somente elas passam pelas dificuldades do câncer de mama. Ela revela que, quando precisou, não teve muito apoio fora do grupo. “Quando chegam novas mulheres, as enfermeiras dão todo suporte profissional e pedem para que venham falar comigo para que eu possa dar uma ajuda”, explica, em tom maternal. Neusa diz, ainda, que, quando encontra uma mulher em tratamento, encaminha ao Rema.
ATENDIMENTO INTEGRAL
O Rema foi criado em 1989, três anos antes da mastectomia de dona Neusa. O núcleo, atualmente sob a responsabilidade da enfermeira Maria Antonieta Spinoso Prado, já atendeu a aproximadamente 1,2 mil mulheres. Segundo a coordenadora do grupo, professora Dra. Ana Maria de Almeida, que integra este trabalho desde o início, a evolução das mulheres que participam das atividades do núcleo é visível.Todo o atendimento é feito por enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, além do trabalho em conjunto com os médicos de cada mastectomizada atendida, que chega a reunir 40 mulheres por sessão. “São pessoas que tiveram sua mama retirada, total ou parcialmente”, explica Ana Maria. Os encontros acontecem semanalmente, às segundas, quartas e sextas-feiras e o grupo não trabalha com sistema de alta.
Marislei Sanches Panobianco, professora do Departamento de Enfermagem da USP, também atua na coordenação do grupo e conta que o atendimento é realizado de maneira ampla, ultrapassando os limites da físicos da universidade. Várias atividades, segundo a docente, são realizadas fora do prédio da EERP. “Elas fazem passeios, viagens, almoços, organizam bazares e, em julho, irão comemorar o Dia do Amigo [celebrado no dia 20 de julho]”, conta Marislei. Em novembro, as mulheres do Rema ainda realizam a Festa da Primavera e o ano é encerrado com uma confraternização.
Todas estas atividades, na opinião das coordenadoras do núcleo, são importantes para a recuperação, em seu sentido mais amplo — físico, emocional e social. “Muitas mulheres chegam aqui abaladas pela cirurgia e se recuperam. Hoje, estão muito bem integradas ao grupo e à própria família”, finaliza Marislei.
Como parte das atividades do grupo nasceu “Delícias e Sabores do Rema”, livro de receitas que já possui duas edições. Nas obras, estão receitas de pratos do cotidiano das mulheres atendidas. O material foi produzido por elas e organizado por um profissional da nutrição. A renda obtida com a venda dos exemplares é revertida ao tratamento dessas mulheres.
RECONSTRUÇÃO DA VIDAO diagnóstico do câncer pode representar a interrupção de muitos sonhos e projetos para o tratamento da doença. Na opinião da psico-oncologista Cristiane Corsini Prizanteli, responsável pelo departamento de psicologia do Hospital do Câncer de Ribeirão Preto, núcleos de atendimento como o Rema, além de dar suporte após a alta do tratamento, são importantes também para lidar com os sacrifícios e as perdas de cada paciente. “Com a alta do tratamento, há um misto de alegria e medo: alegria pela sobrevivência e medo pela reincidência. Nesse sentido, os grupos de apoio podem ajudar muito”, explica.
Em ambientes como esses, os participantes encontram o que a especialista chama de identificação. Segundo ela, a possibilidade de vislumbrar um caminho de esperança, por meio das histórias de mulheres que sobreviveram à doença, tem um efeito extremamente positivo.
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Texto: Bruno Silva
Fotos: Julio Sian
* Publicado em 03/07/2014