30 anos de muita história
Isabel de Farias e Murilo Pinheiro dirigem a empresa que chega aos 30 anos como importante observador da cidade

30 anos de muita história

Há 30 anos, o cenário, político, econômico e social de Ribeirão Preto era o retrato de uma cidade de 130 anos, com cerca de 500 mil habitantes.

Há 30 anos, o cenário, político, econômico e social de Ribeirão Preto era o retrato de uma cidade de 130 anos, com cerca de 500 mil habitantes. O que isso significa em detalhes — e a utilidade dessa análise para a reflexão sobre a Ribeirão Preto atual e aquela que se deseja alcançar —, só se torna possível por meio do registro histórico. Através do olhar de um atento observador, que tenha buscado narrar esse contexto ao longo do tempo, de forma imparcial e aprofundada, mantendo o cuidado de, além de registrar, arquivar essas informações para evitar que esse passado se perca.


Esse importante papel, a revista Revide cumpre, rigorosamente, desde 1986, quando foi fundada por um grupo de jovens com a intensão de revolucionar a comunicação na cidade. A ideia de ‘tirar do papel’ uma publicação investigativa e provocante se materializou logo na primeira edição. Chamando a atenção para a derrubada do casarão dos Junqueira Lobato, na esquina da rua Américo Brasiliense com a rua Visconde de Inhaúma, para a construção do edifício Center Plaza, a revista voltava o olhar para o passado, conduzindo a uma reflexão que seria recorrente em suas páginas, nos seus 30 anos de existência: a preservação do patrimônio histórico de Ribeirão Preto. 


Em repetidas ocasiões, como na década de 1990, engajada na restauração do Theatro Pedro II ou, mais recentemente, retratando a necessidade de preservação da Catedral Metropolitana ou a revitalização do Centro, a Revide sempre pontuou para os leitores e para a cidade a importância histórica e cultural.


Para os padrões da época do surgimento, a ousadia começou pela escolha do nome “Revide” — inspirado em um texto de Viriato Corrêa, que representava o espírito contestador dos fundadores. “Um homem não é para ser chicoteado, covardemente, miseravelmente, sem um revide, sem um gesto qualquer de vingança” —, mas não parou por ai. No decorrer dos 30 anos, a Revide passou por inúmeras mudanças. Foram ajustes na linha editorial, no formato, na periodicidade e no projeto gráfico, que fizeram com que a revista estabelecesse um novo conceito em mídia impressa no mercado de Ribeirão Preto e região.


Quebrando padrões e superando expectativas, a Revide se consolidou como veículo de comunicação, alcançando os 30 anos como um importante observador da cidade, que retrata em suas reportagens, entrevistas e seções de temas relevantes para Ribeirão Preto, sua gente ou seu desenvolvimento. A revista conta uma história, através da sua própria história.


Primeira década

Entre 1986 e 1996, foram muitas as transformações políticas e econômicas e os impactos sociais registrados nas páginas da Revide. O final do Plano Cruzado e o sumiço dos fiscais do Sarney, junto com os produtos dos supermercados ou o confisco da poupança, na era Collor, são exemplos. 


Em 1987, a Revide literalmente, virava a cabeça dos leitores, pois para ler as matérias era preciso  girar a revista de ponta cabeça. A ideia original virou marca registrada e foi importante para tornar a publicação conhecida. 
Na edição de junho de 1990 – no “Adeus sem despedida” –, a revista mostrava que Sócrates foi um dos únicos ídolos do futebol brasileiro que saiu de campo sem o tradicional jogo de encerramento da carreira. 

Os problemas sociais sempre tiveram espaço reservado na revista. O assustador aumento no índice de violência, a situação de meninos de rua usados no tráfico de drogas ou a falta de higiene em matadouros denunciavam a miséria humana e a disparidade social em Ribeirão Preto, assim descrita em entrevista de fevereiro de 1991, com o ex-diretor da Sucem, Amaury Lélis Dal Fabro: “O que no Alto da Boa Vista é lixo, no Jardim Jandaia é dinheiro”. A referência era à quantidade de lixo depositada nas casas da periferia, o que, já naquela época, dificultava o trabalho de combate à dengue e resultaria, seis meses mais tarde, na maior epidemia da história da cidade, até então, com 7.500 casos notificados e 2.500 confirmados.


Em 1996, a Justiça Eleitoral habilitava 285.158 eleitores para a primeira votação eletrônica da história de Ribeirão Preto. O avanço da tecnologia ganhava o ambiente virtual. Havia 12 provedores de internet na cidade, oito comerciais, três de escolas e um da Ceterp. A estimativa era de cem empresas riberiaopretanas com páginas na internet, entre elas, o RibeirãoShopping, com uma das homepages mais acessadas.

Encerrando com chave de ouro a primeira década de vida, a Revide foi homenageada pela Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto por sua importante contribuição para a reabertura do Theatro Pedro II, que aconteceu em 15 de maio de 1996.

 

Belas Lembranças


Gosto de lembrar meu primeiro contato com a Revide. Entrei em uma loja e me chamou a atenção uma revista com uma foto do rio Pardo. Pela manchete, logo vi que se tratava de jornalismo. Isabel de Farias era uma menina. Parecia frágil, mas aí estava o engano. E quem passou por lá sabe do que estou falando. Para me testar, arriscou a pauta da morosidade da justiça no caso do assassinato de Jovino Campos. Investiguei, escrevi, ela me contratou e vieram outras pautas que amei fazer. Eram outros tempos: past up, foto revelada, máquina de escrever, longe, muito longe do digital... A Revide publicava matérias pioneiras na imprensa da cidade, como a chegada do crack em Ribeirão, trabalho infantil no corte da cana, os meandros da loucura, num tempo que era possível entrar no Hospital Santa Tereza, a prostituição, maternidade na adolescência, curandeirismo (essa deu o que falar). Polêmica, desagradando alguns setores, digamos assim, a Revide desenhou a periferia, gravitou pela política e desvendou escarpas sociais. E eu estava lá. Com orgulho. Junto com a Revide muitos profissionais deram seus primeiros passos e aprenderam a andar sozinhos. Trinta anos. É um tempo, heim? A maioria das publicações não resiste um ano, mas, para compreender esse verbo, só encontro um substantivo, que parece abstrato, mas, nesse caso, é bem concreto: confiança. 
Matilde Leone, jornalista

 

Segunda década

Com a informática como poderosa aliada na agilidade e na precisão — e uma dose avantajada da ousadia que sempre marcou sua existência —, uma década após a fundação, a Revide deu um passo decisivo: passou a ser semanal. 


Completamente reformulada, gráfica e editorialmente, a edição 100% colorida circulava aos finais de semana com venda em bancas e distribuição para assinantes. Ribeirão Preto ganhava, assim, um novo veículo, capaz de acompanhar mais de perto as notícias da cidade.


Com a cobertura jornalística ampliada, a atenção foi redobrada para os fatos marcantes do cotidiano. A segunda década narra, portanto, a história de uma Ribeirão Preto que assistiu ao crescimento do caos no trânsito, do índice de violência, da prostituição, a agonia dos antigos cinemas de bairro, a inauguração de novos shoppings e o início do trabalho aos domingos, a crise no carnaval de rua, a privatização das rodovias, as novidades na reprodução humana e a popularização do celular com 47.250 aparelhos em funcionamento na cidade. Também teve o início da TV a Cabo, o crescimento no setor gastronômico e de serviços e o fortalecimento da construção civil, principalmente, na zona sul.

Um pedaço da história

A Revide foi uma grande escola para mim, trabalhei na revista durante quase cinco anos. Participei da transição de mensal para semanal e tive oportunidade de fazer matérias maravilhosas. Uma matéria marcante foi “Internet Mania”, capa de março de 1997. Poucas pessoas tinham acesso à rede na cidade, a Internet assustava muita gente que desconhecia seu potencial.

Entrevistei uma ex-professora, Marisa Gianecchini Gonçalves de Souza, um exemplo para mim. Naquela época, há quase 20 anos, acreditava que, se bem dosada, a Internet era um recurso a mais para a produção da linguagem e não significava uma diminuição na competência discursiva das pessoas. No final da reportagem, havia um ‘glossário virtual’ onde aparecia a expressão e-mail, palavra ainda não muito conhecida e vIRCiados, definição de pessoas viciadas em canais de bate-papo (IRC), quando as redes sociais nem sonhavam em existir. Um dos vIRCiados entrevistados, estudante na ocasião, veio a ser meu cliente na assessoria, o professor Cláudio Miranda, da FEA-USP. Sinto que ajudei a escrever um pedaço da história de Ribeirão Preto. Os encartes dos patrimônios históricos e arquitetônicos da cidade, de personalidades importantes, enfim, realmente a Revide faz jus a seu slogan porque é a cara de Ribeirão. Enfrentou crises, planos econômicos e contribuiu para o desenvolvimento da cidade. Parabéns pelos 30 anos, uma balzaquiana que ainda vai viver muito tempo.
Ana Cândida Tofeti, jornalista

 

Terceira década

Após um período de edições mensais, a partir de 2006, a Revide retomou a publicação semanal. Sempre com o objetivo de melhorar, encontrando formas ainda mais interessantes e atrativas para levar informação, conhecimento e cultura para os leitores, a revista se reinventou diversas vezes, mudando a linha editorial, o formato e a tiragem. 


Cada fase tem características marcantes e muitas delas podem ser facilmente identificadas através da própria capa. Durante esta terceira década de vida, a publicação se voltou, principalmente, para as pessoas, dando destaque ao trabalho e a realização de profissionais de todos os campos do conhecimento.

Os mais diversos temas de interesse da cidade foram abordados nas páginas da Revide: Saúde, Meio Ambiente, Patrimônio, Cultura, Tecnologia, Educação, Planejamento, Política, Economia. Difícil encontrar alguma temática que já não tenha sido, de alguma forma, observada pelo olhar atendo de quem caminha desenvolvendo-se junto com a cidade. Com isso, a publicação se consolidou no mercado editorial de Ribeirão Preto, virando referência para leitores e anunciantes. Alcançando a impressionante marca de 55 mil exemplares, distribuídos gratuitamente em Ribeirão Preto e outras 28 cidades da região.

Um ano de mudanças

Em 1999, o Brasil e o mundo passavam por grandes transformações. Por aqui, o Real, implantado com sucesso em 1994, desvalorizou-se; na Europa, o Euro foi usado pela primeira vez, mas apenas em transações eletrônicas, antes de ser introduzido fisicamente, em moedas e em notas, em 2002.

Na América, bem, na América, houve um fato ainda mais marcante, pelo menos para mim, pois ela se pintou de verde e branco para comemorar o título da Libertadores pelo Palmeiras. Este era o cenário da época em que passei a trabalhar na Revide. Após quase sete anos atuando no jornalismo esportivo, em Campinas e Ribeirão Preto, percebi que havia chegado o momento de enveredar por outras áreas do jornalismo, o que de fato ocorreu quando estive na Revide. Durante os quase dois anos em que trabalhei na redação, transitei pelas editorias de economia, educação, política, cultura, e, claro, esportes, entre reportagens de capa, entrevistas, projetos especiais, matérias e notas. Daria até um livro. Naquele tempo, a Revide tinha uma linha editorial diferente dos tempos atuais, e era a única revista semanal do interior paulista independente, ou seja, sem ser encartada em algum jornal. Colocar em circulação uma revista semanal não é tarefa fácil, ainda mais em um país com tantas instabilidades econômicas e políticas e em um mercado fora das grandes capitais. Com competência e persistência, a Revide conseguiu se manter em atividade ininterruptamente, cresceu, fortaleceu-se e, neste ano, chega às bodas de pérola no mercado editorial do interior paulista.
Paulo Viarti, jornalista

 

Foto da capa: Lidia Muradás

Compartilhar: