A alimentação dos pequenos

A alimentação dos pequenos

Os pais que participaram da pesquisa afirmam que as propagandas dificultam os ensinamentos para alimentação saudável

Uma pesquisa realizada pela ONG Instituto Alana, que luta pela regulamentação da publicidade dirigida à criança, revela que os anúncios publicitários de produtos alimentícios considerados não saudáveis — produtos com excesso de gordura, sódio ou açúcar — podem ser um dos agentes causadores da obesidade infantil.

Segundo a pesquisa 80% dos pais acreditam que a publicidade de fast food e alimentos considerados não saudáveis, prejudica os hábitos alimentares de seus filhos, os pais afirmam ainda que essas propagandas dificultam os ensinamentos para alimentação saudável e que ao irem no supermercado seus filhos costumam pedir o que aparece nos anúncios.

A nutricionista Milene Ferronato, compreende a queixa dos pais e conta que algumas propagandas usam o lúdico para atrair as crianças. “A publicidade para criança acaba sendo um pouco desleal, pois atrai pelo lúdico, talvez ela nem goste do lanche, mas como essas propagandas sempre mostram brinquedos ou algo divertido, elas acabam sendo atraídas e pedem aos pais esses produtos”, afirma.

Para a publicitária Narayma Saquy, as propagandas bem feitas atingem seu objetivo que é atrair o futuro usuário do produto. “Toda campanha publicitária, quando bem feita, consegue facilmente atingir seu público alvo. No caso das crianças, isso é muito mais fácil, porque tudo que não é saudável é extremamente gostoso, como por exemplo, doces, salgadinhos, sanduíches, refrigerantes, confeitos, gomas coloridas e outras guloseimas. A publicidade venderá o produto, o controle desse consumo pelas crianças, ficará a cargo dos pais”, ressalta.

Entre os 596 entrevistados pelo Instituto de Pesquisas Datafolha, 76% afirmam que essas propagandas dificultam os esforços para ensinar seus filhos e 78% revelam que grande parte das propagandas induzem a criança a pedir aos pais que comprem os produtos anunciados.

A assistente comercial Fabiana Amaro é mãe do Kauan de seis anos e acredita que as propagandas influenciam a alimentação durante o crescimento da criança. “A publicidade dirigida ao público infantil se vale da inexperiência da criança. O hábito alimentar da criança será de acordo com o que ele se acostumou a comer desde pequeno, porém quando ele atinge certa idade, começa a escolher o que vai comer pelo que conhece do alimento, é a partir desse ponto que eles começam a pedir o que vêem na TV”, conta.

A nutricionista Milene Ferronato, ressalta o aumento de pessoas acima do peso, tanto crianças quanto adultos, e diz que a preocupação com esse caminho para a obesidade deve começar em casa. “Atualmente, temos visto mais pessoas acima do peso do que magras, a criança que está acima do peso é fruto de um contexto onde os hábitos alimentares contribuem para a obesidade. Trabalhar o hábito alimentar da família é uma forma de contribuir para uma alimentação saudável desde a infância”, explica.

Desde 2006 a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) discute a regulamentação da publicidade de alimentos considerados não saudáveis, determinando que esse tipo de propaganda seja acompanhado de alertas para possíveis riscos a saúde. Porém, a regra foi suspensa devido a uma liminar concedida pela Justiça Federal em favor da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia). No ano de 2009 algumas empresas do setor alimentício declararam que iriam limitar a publicidade dirigida a crianças até o fim daquele ano, mas de acordo com o levantamento realizado pelo Instituto Alana, até dezembro de 2010 apenas 12 empresas haviam detalhado seu compromisso no site, destas, oito possuíam a descrição dos critérios nutricionais para alertar o que pode ser considerado um alimento saudável ou não saudável.

A publicitária Narayma Saquy ressalta que é função dos pais acompanharem a alimentação das crianças. “Colocar regras nas publicidades desse tipo de alimentos não irá influenciar menos as crianças sobre o consumo moderado dos alimentos não saudáveis. Vontades todas as crianças tem, basta saber controlar a quantidade dentro de uma rotina diária, e isso é função dos pais”, destaca.

Fabiana ressalta que é necessário certo limite nas propagandas voltadas para o público infantil. “A publicidade dirigida ao público infantil deve ter limites diferentes do adulto, as crianças ainda não possuem discernimento para compreendê-la”, conclui.

As agências publicitárias, indústrias e ONGs estão atentas ao que se refere à alimentação saudável, principalmente de crianças, mas o primeiro passo deve ser dado em casa e no ambiente escolar, mostrando a essas crianças o que é padrão e o que é exceção.

“Os pais devem estar atentos aos hábitos alimentares da família, podem ceder algumas vezes, mas colocar na mesa alimentos importantes para a saúde da criança e mostrar o que é bom para elas e o que pode ser ingerido em poucas quantidades. O padrão deve ser bom e a influência — no caso as propagandas — passa a ser exceção”, conclui Milene.

Revide Online
Texto: Pâmela Silva | Fotos: Julio Sian e arquivo Revide

Publicado em 07/07/2011

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