A arte de ensinar
Ativo, otimista e com boas lembranças, Lelio Favaretto comenta, no reencontro com o discípulo e amigo Fernando Mantelatto, sobre a vocação para ensinar
Aluno da primeira turma do curso de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto (FFCLRP), Lelio Favaretto é, além de biólogo, dentista e marcheteiro, uma arte que tem a madeira como principal matéria-prima. Na entrevista a Fernando Luis Medina Mantelatto, recorda o período em que iniciou seus trabalhos na USP e esteve na direção do Bosque Municipal Fábio Barreto, um dos principais desafios da carreira.
Natural de Pontal, casado e pai de quatro filhos, Lelio adotou e se dedicou a Ribeirão Preto desde os tempos acadêmicos. Pelo trabalho desenvolvido, recebeu o título de Cidadão Ribeirãopretano. Graduado pela USP em Odontologia em 1954 e em Biologia em 1968, especializou-se em Fisiologia Animal Comparativa.
Apesar de ter atuado como cirurgião dentista de 1955 a 1985, confessa que sua maior realização foi conquistada em sala de aula, onde lecionou as disciplinas de anatomia humana, fisiologias animal comparativa e geral, na Faculdade de Filosofia da USP de Ribeirão Preto de 1974 a 1992. No Centro Universitário Barão de Mauá, ministrou aulas de fisiologia geral e biofísica nos cursos de Biomedicina e Biologia. Esteve na direção do Bosque Municipal por duas vezes (de 1979 a 1984 e de 1993 a 1996) e, hoje, dedica-se exclusivamente à paixão pelas viagens e pela marchetaria. Autodidata, começou a compor seus quadros com essa técnica em 2003, realizando a primeira exposição individual na Casa da Cultura de Cajuru, em agosto 2004.
A amizade entre os dois nasceu quando Fernando, recém-contratado como docente da USP, decidiu ampliar suas pesquisas com os crustáceos de água doce. Depois de ter trabalhado com camarões e caranguejos marinhos, encontrou subsídios para sua nova frente de trabalho na tese publicada pelo professor Lelio. “Coincidentemente, meu primeiro trabalho de orientação com os alunos do curso de Biologia foi realizado com crustáceos na região de Serra Azul, onde Lelio desenvolveu alguns de seus estudos com camarão de água doce”, recorda Fernando. Segundo ele, o professor Lelio foi um dos pioneiros na Instituição em conciliar a área acadêmica com a área social. “Um trabalho de prestação de serviço à comunidade, que é o terceiro pilar da Universidade, precedido pelo ensino e pela pesquisa”, aponta Fernando.
Admirador do trabalho desse entusiasta pelo ensino, Fernando ressalta que colocar em prática o conteúdo didático usando meios e formas inovadoras, dentro e fora da sala aula, está entre as principais virtudes do professor Lelio. “Confesso que o ensino eficiente envereda por este campo também. É um resgate do que já usávamos antigamente: levar a teoria para a prática do dia a dia, transformando a aula em algo mais atrativo”, explica Fernando.
Nem mesmo a aposentadoria afastou Lelio do ensino. Ao se reencontrar na marchetaria, revela que pretende continuar ensinando, desta vez, os segredos da técnica que o encantou em uma de suas viagens à Europa.
Fernando: O que o motivou a adotar a Biologia como profissão?
Lelio: Descobri a Biologia já formado em Odontologia. Aliás, no meu tempo, o curso era conhecido como História Natural. A partir daí, comecei a me interessar e a pesquisar muito. Mudei para Ribeirão Preto na década de 1960, época em que foi aberta a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto, que oferecia o curso de Biologia. Com 31 anos, casado, pai de quatro filhos, não me intimidei e me aventurei no meio da meninada. Prestei o vestibular e, de dentista, virei biólogo em 1964.
Fernando: Nesta ciência, que área escolheu para desenvolver suas pesquisas?
Lelio: Desde o começo, a Fisiologia e a Bioquímica me atraíram muito, até porque uma está muito associada à outra e, assim, as duas áreas se completam. Acabei optando pela Fisiologia. Fui um dos pioneiros a trabalhar com crustáceos em Ribeirão Preto, inclusive, sou autor da primeira tese sobre camarões de água doce publicada no Brasil. Foi um trabalho difícil, pois não existiam obras para pesquisa até então — tanto que meu orientador teve problemas em encontrar material de estudo, porque não havia quase nada na época.
Fernando: Na sua trajetória acadêmica, qual foi seu maior desafio e o mais marcante?
Lelio: Realmente foram o Zoológico e o Bosque de Ribeirão Preto. Estes foram grandes desafios porque entrei num ramo completamente diferente daquele com que atuava no meu dia a dia e tive que enfrentar um dos maiores entraves: a burocracia. Além disso, a oposição de pessoas que se diziam entendidas no assunto “ecologia” e não concordavam com minhas ideias sobre a gestão do Bosque atrapalhou bastante no início do trabalho. Lembro que a primeira empreitada que propus foi a transferência do Zoológico para fora da área do Bosque, pois, no meu entendimento e de outros especialistas, os dois não coexistiam facilmente e, pelas características de cada um, deveriam ocupar espaços independentes.
Fernando: Como surgiu a chance de trabalhar no Bosque da cidade?
Lelio: No começo da década de 1970, o Bosque estava numa situação muito triste. Os animais morriam com muita frequência, as árvores estavam caindo, o que acarretava graves acidentes, inclusive com vítima fatal. O secretário municipal de Saúde, Dr. José Victor Nonino, enviou um ofício solicitando ajuda do Departamento de Biologia da FFCLRP/USP. Marcamos uma reunião que contou com a presença de alguns voluntários e formamos uma comissão de assessoramento para o Bosque Municipal. Éramos cinco pessoas e fomos gerenciar o local. Como o trabalho era muito complexo e a situação era grave, alguém tinha que assumir efetivamente o cargo de diretor e coube a mim esta tarefa. Fiquei no cargo por seis anos. Saí sem ter realizado tudo o que queria, voltando mais tarde, quando estava aposentado da USP.
Fernando: Nesses anos, acredito que você tenha visto muitos fatos marcantes. Qual foi o mais significativo?
Lelio: Tenho isso quase como uma brincadeira. Um dia fui buscar uma onça preta no zoo de Goiânia e lá, em uma gaiola, havia um tucano sem a parte superior do bico. Fiquei penalizado com a situação da ave, perguntei ao diretor do zoológico o que iriam fazer com ela. Ao saber que o animal seria sacrificado, pedi permissão para trazê-lo comigo. Como eu era dentista, voltando a Ribeirão Preto, fiz um bico de acrílico oco no meu laboratório de prótese. O dispositivo foi amarrado com fios de aço inoxidável, à parte restante do bico original (coto). A partir daí, o tucano teve uma vida praticamente normal por mais alguns anos, chamando a atenção de todos que visitavam o zoológico, principalmente as crianças. Essa intervenção, primeira efetuada no Brasil, foi na época noticiada pela Folha de S. Paulo e pela revista Veja.
Fernando: Como educador, como você avalia a educação hoje?
Lelio: O ensino está degradado. Não sei bem como ou quando isso começou, mas parte do problema é de responsabilidade da família, principal agente educador da criança. Talvez por causa da agitação da vida moderna e da necessidade de trabalhar cada vez mais, a educação dos filhos, desde as classes menos favorecidas até as mais abastadas, ficou renegada a um plano secundário, até terciário. Os pais acabaram terceirizando integralmente a educação dos filhos. Quando se esperava que os professores dessem conta do recado, encontraram profissionais mal pagos, mal formados, que têm até três turnos de trabalho, sem tempo para preparar as aulas e para buscar atualização profissional. Como esses professores podem transmitir algo diferenciado aos alunos?
Fernando: Como a universidade poderia contribuir para mudar este quadro?
Lelio: As instituições não podem se eximir da responsabilidade, não podem deixar de ter uma influência direta sobre esse pessoal. No meu tempo de docência, saía da faculdade e lecionava para professores primários na Divisão Regional de Ensino ou em cidades vizinhas, como Pontal, Igarapava e Bebedouro. Para onde me chamavam eu ia e os professores me recebiam com a maior boa vontade. Um pouquinho do que a gente levava para eles era de uma utilidade incrível. Desenvolvíamos trabalhos que deixavam as aulas mais atrativas, como a horta doméstica, um verdadeiro laboratório vivo onde as crianças podem aprender muito mais do que fazer a horta, capinar e plantar. Elas podem acompanhar o desenvolvimento das plantas, estudar a capacidade nutricional delas, entre outros temas importantes em diversas disciplinas.
Fernando: A Faculdade de Filosofia da USP de Ribeirão Preto completa 50 anos em março. Como vocês superaram a pouca infraestrutura inicial?
Lelio: Começamos o curso ocupando uma parte do prédio da Patologia da Faculdade de Medicina. Cederam-nos algumas classes e, como tínhamos poucos jogos de cadeiras, elas eram carregadas de um ambiente para o outro ao terminar cada aula. Era tudo improvisado, até no laboratório, para onde trazíamos materiais de casa e adaptávamos para as nossas necessidades. Até a lanchonete era improvisada. Tinha uma cantina no cantinho do prédio em que as alunas eram garçonetes e preparavam os lanches, depois das aulas. Um dos professores morava no andar superior do depósito de cadáveres. O engraçado é que ele tocava violino e, à noite, quando as pessoas passavam em frente ao prédio, se assustavam com a música. Mas foi o começo e fico extremamente feliz por ter participado desses momentos e acompanhado o desenvolvimento da Instituição.
Fernando: Que conselho daria para um neto ou um filho que enveredasse para área de Biologia?
Lelio: Diria a ele, como disse ao meu neto, também biólogo, que seguisse a profissão, se fosse o que realmente desejasse. Para mim, o mais importante da vida é essa satisfação. Às vezes, a pessoa corre atrás do dinheiro e chega ao fim insatisfeito. Quem faz o que gosta é feliz a vida toda! Outro item importante é não ter medo de errar na escolha, porque essa história de definir uma profissão quando se está no último ano do Ensino Médio é conversa. Mudei de área depois de dez anos de profissão e, depois de aposentado, mudei de novo e me tornei marcheteiro. Sempre é tempo de mudar!
Fernando: Esse é seu hobby atual?
Lelio: É quase uma profissão, só que não vendo as peças. Estou guardando tudo no ateliê que montei em casa, onde passo, em média, uma semana por mês. O resto do tempo eu viajo. Foi exatamente em uma viagem a Sorrento, na Itália, em 1996, que conheci a marchetaria, uma técnica que consiste em incrustar, embutir ou aplicar peças recortadas de madeira, formando desenhos variados. De volta ao Brasil, não encontrei nenhum curso para me especializar na técnica. Então, importei alguns livros americanos, outros portugueses, e fui estudar por conta própria, pesquisando e aprimorando a arte, que quero repassar para outras pessoas. Infelizmente, ela corre o risco de acabar por falta de profissionais. No Brasil, acho que só tem seis pessoas que desenvolvem esse tipo de marchetaria. Quero ensinar e não consigo por falta de interessados. Agora, parece que, em breve, o Senai irá iniciar um curso.
Fernando: No seu acervo tem alguma peça favorita?
Lelio: Cada trabalho tem uma história única, mas tenho duas peças muito especiais. Uma é “A Bela e a Fera”. Nesta obra, resolvi mostrar que nem todo morcego é vampiro. As quase 140 espécies que vivem no Brasil comem frutos, folhas, peixes, insetos, etc. Há até os morcegos que sugam néctar de flores, como fazem de dia os beija-flores e as abelhas. Como biólogo, resolvi homenagear esses animais. A outra é a “Via Sacra”, que está instalada na igreja matriz de Cajuru, uma das minhas obras mais vistas. A série, concluída em 2006, é composta por 14 quadros de 1,25 m de altura por 50 centímetros de largura.
DEDICAÇÃO INTEGRAL
"O professor doutor Lelio Favaretto é um exemplo de engajamento profissional e de responsabilidade social. Nascido na região, fincou raízes em nossa cidade, onde desenvolveu um papel importante no início da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP/USP), entidade onde atuou junto ao Departamento de Biologia, como educador e pesquisador. Na mesma época, engajou-se de corpo e alma em uma grande empreitada: a gestão do Bosque Municipal Fábio Barreto de Ribeirão Preto. Prestes a completar seu cinquentenário, a FFCLRP recebeu, com muita alegria, a incumbência de conversar com um de seus primeiros profissionais e resgatar parte de sua trajetória. Já o conhecia por seus trabalhos acadêmicos com crustáceos e suas habilidades criativas, mas me surpreendi ao saber detalhes de sua história de vida.”
Fernando Luis Medina Mantelatto é biólogo, professor titular e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP)
Texto: Rose Rubini
Fotos: Carolina Alves