A arte de fotografar
Carla Vannucchi revela à todos seu trabalho na exposição “O Fundo e a Forma”, que conta com 25 fotos de diversas situações cotidianas
Movida pela paixão por gente, lugares, cores, luz e todo o contexto que dá prazer aos olhos alheios, a fotógrafa ribeirão-pretana Carla Vannucchi revela a todos seu trabalho na exposição “O Fundo e a Forma”. A exposição conta 25 fotos coloridas e preto e branco, que registra diversos locais, formas, expressões e situações cotidianas.
Confira a entrevista exclusiva da fotógrafa para o portal da Revide.
- Como e quando começou na fotografia e quais foram as suas maiores dificuldades?
Carla: Meu pai e meu avô eram fotógrafos. Praticamente nasci dentro de um laboratório. Aos nove anos ganhei a primeira máquina, não parei mais. Tinha filmes, papel e químicos à vontade, mas tive que aprender sozinha sobre máquinas. Fucei bastante em estúdios alheios, mas só alguns profissionais pararam para explicar como faziam o que faziam.
Fui tentando e fazendo um pouco de tudo: casamento, batizado, enterro, necropsias, mortos em linhas de trem, aéreas, publicidade, retrato etc. Paralelamente fui fazendo meu trabalho autoral, como qualquer fotógrafo. Muito difícil viver de fotografia no Brasil, a menos que você faça eventos ou seja um fera na fotografia publicitária. Tive a oportunidade de ter um laboratório PB ainda nos anos 90. Nele, aprendi a restaurar quando ainda se usava “spotone” (tinta) e pincel de um pelo só. Fiz diversas coisas ao mesmo tempo porque a fotografia jamais me sustentou financeiramente, mas jamais nos separamos.
- O que é saber fotografar?
Carla: Fotografia é uma técnica. Quando estudava arquitetura na UNESP em 91, tive a imensa sorte de ter um semestre de aula prática de fotografia com Bóris Kossoy. Na minha turma, só eu sabia quem era ele por conta de uma revista sobre fotografia que meu pai assinava. Quando ele pediu as fotos do semestre para avaliação, travei, não queria que ele dissesse que eu deveria escolher outra coisa pra fazer na vida. Me pediu qualquer foto, só pra dar uma nota. Escolhi algumas e no dia seguinte espalhei-as pela mesa de secagem do laboratório da faculdade. Ele entrou e ficou uns 40 minutos lá, olhando, depois me chamou e disse que tinha duas coisas pra me dizer. A primeira é que eu era péssima em laboratório, deixava marcas no papel, queimava o papel torto. A segunda é que meu olho me salvava do outro problema. Relaxei, mas fui correndo aprender melhor as técnicas de laboratório! Fotografar é isso: técnica aliada ao contexto da imagem ou um objeto e prazer em juntar as duas coisas. É um trabalho como outro qualquer.
- O que você sente quando vê um trabalho seu publicado ou exposto?
Carla: Sempre que me perguntam isso, a resposta está sempre pronta: Quero muito que as pessoas olhem para as fotos e sintam algum prazer ou um quase prazer. Que se divirtam e se questionem sobre o lugar, o objeto, a pessoa. Quero que gostem da fotografia.
- Para você o que vale a pena clicar?
Carla: Nem tudo. Acho que o fotógrafo tem que exercitar a paciência: dar mais um passo pra trás ou pro lado; esperar cinco minutos até o sol baixar. Tem que ser invisível: a cena e a foto são mais importantes que alguém dando pinta de fotógrafo para outras pessoas! Levantar, subir numa cadeira, rastejar, esperar... Tudo para uma única foto se for o caso. Também tem que pensar se vale ou não a pena fazer aquela foto. Hoje em dia, com tudo digital, se não gostar de uma foto é só deletar. Mas antigamente uma chapa de negativo custava revelar e ampliar, era melhor não errar porque doía no bolso. Para a minha geração isso valeu como um bom treino. Um amigo, Frank Horvat, diz que fotografar é a arte de não apertar o botão, justamente por conta do que acontecia antes da máquina digital. Acho que algumas coisas que vemos nem devem ser fotografadas. Às vezes a imagem pode ficar só na cabeça de quem a viu.
- Em que você costuma inspirar-se?
Carla: No que estiver na minha frente, nem tudo me toca e algumas coisas exigem que eu faça alguma coisa. Gosto de gente, lugares, cores, luz e o resto todo!
- Você considera a fotografia também como um hobby. Por quê?
Carla: Acho que temos que nos divertir com o que fazemos, mas isso não acontece com todo mundo. Qualquer coisa pode ser hobby. Com os celulares de hoje em dia, a fotografia perdeu um pouco do “momento da foto”, todo mundo junto alinhadinho, mas trouxe outra coisa boa: todos podem fotografar e qualquer lugar e qualquer hora. A fotografia deixou de ser coisa de momento único e pode e deve ser diferente do que se considera “fotografia artística”. Os parâmetros divulgados são parte de outra época. Sebastiões Salgados, Cartie-Bresson... São maravilhosos, mas não estão por aí em grande número e tiveram cada um sua linguagem. Hoje, a linguagem da fotografia digital e com celular tem mais adeptos porque os equipamentos são bem mais baratos e todos podem comprar. Então, que todos fotografem!
- Durante os anos de sua carreira, você conseguiu realizar boa parte do que idealizava quando começou?
Carla: Acho que quando temos 17, 20 anos sentimos que temos todo o poder do universo e confiamos a essa força todos os objetivos que temos nessa idade. Faço quarenta anos o ano que vem. Não sei mais quais eram exatamente meus objetivos ou desejos. Acho que queria fotografar e se foi isso, continuo realizando.
- O que motiva você a se manter fiel à fotografia?
Carla: Total identificação com ela. Nos entendemos bem e tenho enorme prazer em fotografar e olhar a foto depois. Todo dia ou quase, nos deparamos com um motivo “fotografável”: filhos, cachorro, festa de aniversário. A relação que temos com a fotografia é basicamente a da felicidade. Sou historiadora e vejo a fotografia também como um documento. Já pensou se em 200 anos alguém encontrar o álbum da sua família? Poderá ver nas fotos tudo o que sua família pretendeu deixar como memória sobre ela. Poderão pesquisar sobre todo o contexto da foto, vestuários, costumes.
- Estamos vivendo na nova era da fotografia, a “era da imagem digital”. Como foi a sua adaptação neste momento de transição?
Carla: Devo confessar que demorei um pouco para me adaptar. Primeiro porque andava muito dura e acabei vendendo minhas máquinas, foi triste. Fiquei uns quatro anos assim. Quando pude comprar outra máquina, já era digital. Como eu ainda estava um tanto dura, achei ótimo poder deletar o que não estava bom ou eu não gostasse e acabei exagerando no número de fotos que fazia. Fotografei o casamento de uma amiga, como presente em 2008 aqui em Ribeirão, alguns meses depois de mudar pra cá. Acho que fiz umas 3000 fotos do casório dela! Puro exagero. Não carrego a máquina o tempo todo. Acho que a qualidade é diferente, principalmente quando imprimo alguma foto. Sou saudosista dos papeis da Illford e um bom tri-x. Agora estou mais tranquila com tudo o que as digitais podem oferecer e te digo que não uso nem metade.
- Com esse avanço da tecnologia várias pessoas dizem que o romantismo da fotografia esta acabando. Qual a sua opinião sobre isso?
Carla: Se considerarmos que o romantismo sobre o qual você falou seja fazer algo parecido com os tais grandes mestres, sim, concordo. Mas não acho isso ruim, acho que as linguagens mudam se adaptam aos tempos, aos equipamentos e aos costumes. Coisas diferentes para diferentes épocas. Quem não tem um momento clássico? Todos temos, mas hoje isso tudo é mais livre. Dia desses vi fotos do celular de um amigo e as achei incríveis porque são diferentes de tudo o que se considera clássico. Elege-se clássicos, cada um tem os seus. É como dizer que a música está ruim. Acho que são coisas diferentes e que há lugar para todos.
Serviço
Exposição: O Fundo e a Forma
Quando: até 23/10
Onde: Museu da Imagem e do Som de Ribeirão Preto
Revide On-line
Texto: Pâmela Silva
Fotos: Carolina Alves