A arte nos bairros
Novos teatros, construídos fora do eixo central da cidade, promovem a popularização da cultura
Após décadas de disputa pelos espaços culturais em Ribeirão Preto — Theatro Pedro II, Teatro Municipal e Teatro de Arena —, os artistas da cidade começaram a vislumbrar um novo circuito artístico no município. A nova rota das artes teve início há nove anos com a inauguração o Espaço Cênico Débora Duboc, que reforçou a proposta de popularização do teatro, iniciada pela ONG Ribeirão em Cena. Esse novo espaço de propagação da cultura disponibilizou mais 100 lugares para o público.
Durante seis anos, o cenário permaneceu estático, até que a Cia. Minaz inaugurou, em 3 de setembro de 2009, o Teatro Minaz, no Jardim Paulista. Com 266 lugares, o teatro é uma alternativa para espetáculos que anteriormente só poderiam ser realizados no Theatro Pedro II, devido à existência de um fosso para orquestra, tornando-se mais um palco de ópera. Desde então, o Teatro serviu de cenário para a formação de profissionais e de público para ópera, musicais, música erudita e teatro, com uma série de oficinas, cursos e apresentações de espetáculos de ópera-estúdio, de grupos e artistas conceituados nacional e internacionalmente, como Adélia Issa, Grupo Primavera (Holanda), Ricardo Ballistero, Denise Tavares, Mauro Chantal, Grupo Parangolé (Minaz Gerais), Contadores de Histórias de Parati, Companhia de Ópera São Paulo entre outros, muitos em parceria com o SESC Ribeirão Preto.
Como afirma Gisele Ganade, diretora musical da Companhia, o Teatro Minaz é um espaço para desenvolver o aprendizado e o crescimento dos cantores e do público. “O Minaz oferece uma grande oportunidade para o desenvolvimento desse tipo de repertório em Ribeirão Preto. A continuidade das apresentações é muito importante para a formação e a informação do público”, completa Gisele.
As atividades do Teatro não são restritas ao universo erudito. Neste ano, a programação inclui as séries “Ópera e Outros Cantos” em parceria com o SESC Ribeirão, com a presença de cantores e instrumentistas nacionais e internacionais, a “Sala Lírica”, com dois concertos mensais de cantores diversos, o “Movimento Violão” com violonistas nacionais e internacionais, a “Temporada Minaz de Teatro” (TMT), Encontros de corais, além das óperas “Pagliacci”, “La Serva Padrona” e “O Telefone”. Também os musicais “Os Saltimbancos” com o Coral Juvenil e “Minaz Rock” com jovens solistas da companhia. Serão realizadas palestras e aulas abertas à população. No teatro também são preparados concertos que serão exibidos em outros espaços: “Stabat Mater” de Rossini que será apresentado com a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto e a cantata “Carmina Burana” que será reapresentada pelos corais da companhia no segundo semestre, além do concerto de Natal dos Meninos Cantores nas Janelas do Pinguim.
O mesmo rigor que a Companhia tem em relação aos espetáculos que apresenta, exige dos grupos interessados em utilizar o espaço, sempre visando, por parte da plateia, ao desenvolvimento do senso crítico. “Quanto mais espaços destinados à arte que visem à qualidade, melhor para todos, pois aumentam as opções, e o público começa a ter discernimento sobre o que é bom ou ruim”, ressalta Ivo Rinhel D’Acol, produtor da Cia. Minaz. Daí a importância, segundo ele, do constante aprimoramento. “Temos que oferecer espetáculos de boa qualidade. Os artistas têm que entender que arte não é hobby. Todas as nossas atividades são possíveis, pois realizamos projetos mantidos pela lei de incentivo fiscal estadual (ProAC) e pela Lei Rouanet, o que aumenta a responsabilidade de uma realização de trabalhos com resultados relevantes por se tratar de dinheiro público destinado à cultura”, acrescenta.
Outro palco que tem fomentado a cultura em Ribeirão Preto é o Teatro Santarosa. Inaugurado em dezembro de 2010, o espaço tem portas abertas para diversos grupos nativos e de outras regiões do Estado. Inspirado nos teatros de bairro dos Estados Unidos, da Europa e de São Paulo, construído em plena City Ribeirão, o Teatro nasce com as vocações de aproximar o público da arte, deslocando-a do eixo central, e de proporcionar uma vivência mais intimista da plateia em relação aos espetáculos. Características das vivências culturais de seus idealizadores — os artistas Leonardo e Lucas Santarosa — acabaram sendo incorporadas à casa de espetáculos. Com capacidade para 200 lugares, desde que foi fundado, o Teatro tem sido palco de apresentações e eventos, sejam de interesse comunitário, particular ou corporativo.
Visando à popularização da arte, os artistas, auxiliados pela irmã da dupla, Camila, responsável pela administração do Santarosa, inscreveram projetos na Lei Rouanet para contratar grupos teatrais, oferecendo espetáculos gratuitos ou a preços simbólicos à comunidade. “Este projeto facilitará o acesso popular por um ano e abrirá as portas a patrocinadores que queriam ter seu nome associado à cultura na cidade”, ressalta Camila. Após os espetáculos, o local proporciona, ainda, a integração entre público e artistas, com um bistrô disponível para shows musicais.
De acordo com Leonardo, há grupos locais de grande qualidade. Atenta a este fator, a família Santarosa tem investido em cursos de formação de plateia e de atores. “Há espaços que, ao invés de formarem público, o destrói. Se uma pessoa vem ao teatro e assiste a uma peça de má qualidade, demora um ano para retornar. Temos que ter certeza da qualidade dos espetáculos que oferecemos, senão, trabalhamos para a desconstrução do público”, afirma o artista.
O recém-inaugurado Teatro SESI aumenta a oferta de bons espetáculos, com uma programação totalmente gratuita, subsidiada pela indústria paulista, que promove a popularização da cultura. Com 388 lugares, sendo oito para portadores de necessidades especiais, o Teatro fica no bairro Castelo Branco Novo, alterando drasticamente o eixo cultural da cidade.
Por meio de uma seleção rigorosa realizada através de edital, espetáculos culturais das mais variadas modalidades passaram a fazer parte da agenda do ribeirãopretano. Conforme a orientadora de artes cênicas, Priscilla Altran, a diversidade proporcionada pela programação do Teatro beneficia não somente a comunidade, mas também os artistas que têm acesso a espetáculos de qualidade. “Como essas seleções priorizam a pesquisa de linguagem, englobam grupos que estão participando de grandes festivais de teatro em todo o país. Esse intercâmbio artístico tende a ser bastante rico para os artistas de fora e para os locais”, explica.
Os cursos de iniciação teatral que compreendem todas as faixas etárias têm como finalidade a formação de plateia e o despertar de novos talentos e olhares. Como enfatiza Priscilla, o objetivo é “fazer com que a comunidade se aproprie da cultura”. Da mesma forma, a administração do Teatro espera atrair os atores locais para que possam pensar a cultura conjuntamente.
Segundo Carlos Antônio Ferreira — o Sula —, diretor do Centro de Atividades do Teatro, além de proporcionar momentos de lazer e de cultura, o Teatro permite que os artistas apresentem seus projetos de forma integrada com o SESI. “Hoje, se você quiser ver um bom espetáculo, tem que se locomover para as capitais. Quando esses espetáculos vêm para Ribeirão Preto, nem sempre a população pode pagar. Por tanto, a maioria das pessoas tem pouquíssimo acesso à cultura. Nossa finalidade é popularizar a arte no município, promovendo a qualidade de vida aos usuários e à comunidade”, conclui.
Texto: Carla Mimessi
Fotos: Júlio Sian e Ibraim Leão
Produção: Pamella Tutatti e Marcela Versiani