A arte que transforma
O livro “A Paixão de Cristo” mostra o resultado do trabalho voluntário desenvolvido por Magno Bucci na Penitenciária de Serra Azul I, onde o teatro é utilizado como ferramenta de reabilitação
No final de 2005, o mestre e doutor em Artes Cênicas, Magno Bucci, estava assistindo a um telejornal quando uma matéria despertou sua atenção. “Era sobre um concurso de Miss Penitenciária em São Paulo. As moças estavam bonitas, todas bem maquiadas, com os cabelos arrumados e vestindo figurinos elegantes. Havia mestre de cerimônias, jurados e torcida. Notei que aquele evento tinha uma produção elaborada, feita com profissionalismo. Ver o envolvimento daquelas pessoas me instigou. Depois de pensar sobre o assunto por quase um mês, cheguei à conclusão de que seria interessante levar o teatro para dentro desse universo, como uma maneira de dignificar a vida por trás das grades”, lembra Magno.
A ideia apresentada para a diretoria da Penitenciária Feminina de Ribeirão Preto logo recebeu aprovação. O diretor escreveu um estudo acadêmico bem fundamentado, com introdução, justificativa, metodologia, conteúdo, avaliação e bibliografia, para embasar a ação, denominada Teatro no Presídio. “Depois de uma conversa com as meninas, rasguei esse roteiro em mil pedaços. A realidade delas exigia um método de trabalho diferente. Teríamos que descobrir, juntos, como fazer a proposta funcionar”, explica. As atividades começaram em fevereiro de 2006. Em três meses, a primeira montagem, em homenagem ao Dia das Mães, foi exibida. Os resultados foram tão positivos que Magno foi convidado para executar o mesmo trabalho na Penitenciária Masculina de Serra Azul I. A partir daí, o diretor passou a atuar, semanalmente, nos dois espaços.
O projeto ganhou solidez e o grupo estava preparado para tarefas mais complexas. A encenação de “A Paixão de Cristo” se revelou como a opção perfeita para coroar essa nova fase. “Dirigi esse texto em 2003, em Barretos, na arena da Festa do Peão. Sempre ficou no meu horizonte remontá-lo, não como apelo religioso ou divino, mas enfocando o lado humano, de angústia e de sofrimento”, comenta. A representação seria feita pelas meninas. A peça exigia mais dedicação, uma equipe coesa, que memorizasse um texto não tão coloquial, que ensaiasse, que cuidasse dos cenários e dos figurinos. Mas foram os detentos de Serra Azul que conseguiram reunir todos esses pré-requisitos e, em 2012, eles subiram ao palco improvisado da detenção.
Para não deixar que o esforço ficasse restrito a apenas uma apresentação e logo caísse no esquecimento, as cenas foram fotografadas. O registro pode ser conferido no livro “A Paixão de Cristo”. “Entre tantas dificuldades, sem nenhum apoio financeiro ou qualquer tipo de colaboração, utilizando apenas sucata e adereços velhos como matéria-prima, eles conseguiram fazer algo extremamente significativo. Por isso, o elenco merecia que essa obra fosse vista pelo grande público, que saísse dos muros da prisão. Para eles, é muito importante ser mais do que um número de matrícula. Eles querem ser reconhecidos pelo nome e ter esse nome ligado à cultura e não mais às páginas policiais, e isso é imensamente gratificante para mim”, ressalta Magno. Ainda segundo ele, fazer parte do projeto deixa os envolvidos orgulhosos diante da família e permite que eles sonhem com um futuro melhor.
Com recursos próprios, o diretor conseguiu imprimir 300 exemplares, que estão sendo distribuídos, gratuitamente, para formadores de opinião, agentes públicos, bibliotecas e outros profissionais que possam repercutir o tema e refletir sobre alternativas culturais e pedagógicas, colaborando para a construção de processos de reintegração da população carcerária. “Espero que o livro possa sensibilizar as pessoas diante dessa causa e conscientizá-las sobre a importância do teatro, e das artes em geral, no processo de ressocialização dos presos. Também torço para que essa divulgação seja um estímulo para que novas iniciativas aconteçam”, conclui o diretor.
O fotógrafo Cesar Mulati foi o responsável por capturar as imagens. “Há vários anos, trabalho com o Magno na documentação das peças teatrais que ele realiza nas penitenciarias. A cada encenação, temos a oportunidade de vivenciar momentos especiais, assim como aconteceu nessa produção específica. Isso porque a fotografia é um universo fascinante que envolve todos aqueles que, de alguma forma, relacionam-se com ela. Os detentos se sentem valorizados e respeitados quando estão diante da lente. Ao final da seção, todos correm para checar suas expressões na tela e ficam admirados com o que veem. Do outro lado, nós ficamos satisfeitos por poder, com o nosso trabalho, ajudar esses personagens da vida real a serem protagonistas de uma história mais feliz”, finaliza Cesar.