A caminho da mediunidade

A caminho da mediunidade

Envolta pelo misticismo ou pelo ceticismo, a capacidade de se comunicar com espíritos desperta emoções divergentes no ser humano

Léon Denis, no livro “No Invisível”, oferece aos leigos, senão a mais simples, uma das mais bonitas respostas ao questionamento sobre o que é mediunidade. Afirma se tratar de uma delicada flor que, para desabrochar, necessita acuradas precauções e assíduos cuidados. “Exige método, paciência, altas aspirações, sentimentos nobres e, sobretudo, a terna solicitude do bom Espírito que a envolve em seu amor, em seus fluidos vivificantes”. Alerta o autor, porém, aos que queiram produzir frutos prematuros, que desta forma “se estiola e fana ao contato dos Espíritos atrasados”.

O autor aborda em sua definição três pontos fundamentais à compreensão da mediunidade: a certeza da imortalidade da alma, sem a qual a comunicação se esgota; a necessidade do estudo, sem o qual o objetivo se perde; e como qualquer outra faculdade humana, o bom uso que se faz dela. Esse uso, aliás, muitas vezes é responsável pelas incontáveis especulações que a cercam. Associada, não raras vezes, à ação do diabo, à magia ou ao sobrenatural, a mediunidade permanece vista por muitos de forma pejorativa ou cética. Apesar disso, em função de resultados positivos alcançados por meio dela no tratamento de doenças consideradas incuráveis pela Medicina, o tema tem conquistado espaço cada vez maior na mídia, tornando-se mais vezes objeto de estudo científico e sido mais recorrente no cotidiano das pessoas.

Essa popularização, no entanto, não contribui para o esclarecimento, conforme apontam médiuns como Merhy Seba, gerente de marketing que trabalha no Centro Espírita Meimei, e Otávio Serra, empresário que atua no Centro Sincretista Legião Branca Luz e Caridade. A desinformação e a mistificação, segundo eles, ainda prevalece. Para o espírita Merhy Seba, a mediunidade, assim como descrita por Alan Kardec, em 1861, no Livro dos Médiuns, é uma faculdade humana, normal e orgânica. “Na atualidade, ela tem sido interpretada de maneira preconceituosa — e aqui cabe diferenciar o que é mediunidade de mediunismo, sendo esse último uma prática sem estudo prévio, sem preparação adequada, não só teórica, mas principalmente moral do candidato ao exercício da mediunidade —, mas somos todos mais ou menos médiuns. Alguns expressam de forma mais ostensiva, outros menos, mas todos têm a faculdade”, afirma. Ocorre, diz Merhy, que enquanto faculdade humana, assim como cantar, pintar ou falar, a mediunidade é neutra, podendo, portanto, ser direcionada como seu portador determinar.
Didático, Otávio Serra, explica que o médium atua como uma antena, captando mensagens e as retransmitindo. “Mediunidade nada mais é do que um canal de comunicação que permite ao médium decodificar a mensagem de um espírito. Todos têm capacidade para desenvolver a mediunidade, mas este é um caminho que precisa ser descoberto e trilhado individualmente. Não pode ser imposto”, destaca.

Para aqueles que não conseguem considerar a mediunidade como um dos sentidos humanos — assim como degustar, sentir, ver, ouvir e falar — e são enfáticos ao afirmar que não acreditam, Otávio responde: “Eu não acredito no Big Bang. Não acredito que alguma coisa partiu do nada simplesmente e virou bilhões de estrelas e galáxias. Cheguei à conclusão de que é impossível não existir o mundo espiritual. E não é porque não se consegue colocar um espírito num tubo de ensaio que ele não existe. A matéria não encerra a vida. Para quem me pede para provar que Deus existe, eu peço para me provar que ele não existe”, pontua.

Merhy salienta o benefício que a difusão da mediunidade, desenvolvida de maneira responsável, poderia representar para a humanidade. “Há um livro intitulado ‘Sessões Espíritas na Casa Branca’, editado por um não espírita, que narra sobre as consultas feitas aos espíritos, pelo ex-presidente Abraham Lincon, para resolver a problemática da Guerra Civil. Não que existissem espíritos aliados ao norte ou ao sul, mas sim aliados ao bem. Lincon recebia orientações e era levado a ponderar sobre suas decisões”, explica o médium.

Além deste auxílio, Merhy descreve a possibilidade de evolução moral dos indivíduos, em função da mediunidade. “Conscientizando-se que além dos sentidos físicos, possui os sentidos espirituais, o ‘sexto sentido’ vamos dizer assim, a pessoa se autopolicia e se torna mais equilibrada. Porque não basta ser médium, é preciso atuar no bem, não ser uma pessoa egoísta, orgulhosa, que não reconhece os valores humanos. O médium tem um vasto campo de trabalho para sua transformação moral”, enfatiza.

A mediunidade e as religiões

Não são raras as referências que podem ser atribuídas à mediunidade. Do ponto de vista religioso, passagens de Moisés e os profetas hebreus recebendo mensagens de Jeová ou dos anjos, a conversão de Paulo às portas de Damasco ou os ditados do anjo Gabriel para Maomé, que compõem o Corão, são exemplos. Douglas Home, que produzia fenômenos de levitação, Emanuel Swenderborg, que experimentou premonições e comunicações, assim como Joana d´Arc, são nomes que a história relaciona, muito antes de Allan Kardec classificar os fenômenos e codificá-los na Doutrina Espírita, diferenciando os médiuns em intelectuais (os que atuam na linha da psicografia, produzindo livros, palestras, oratórias) e de efeitos físicos (os que realizam curas, materializações, transporte de objetos, levitação).

Também as religiões que podem ser relacionadas à mediunidade variam. Não apenas o Espiritismo, embora ocupe o terceiro lugar entre as religiões professadas pelos brasileiros, segundo o Censo 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), mas também a Umbanda (que ocupa o quinto lugar) e o Candomblé (que está na sétima posição), cada qual a seu modo, baseiam suas ações em função da comunicação com espíritos.

De modo geral, o Espiritismo, nascido na França, aceita a existência dos espíritos, a reencarnação, a lei do retorno e a possessão como um meio de comunicação. A Umbanda, religião fundada no Brasil, em 1908, pelo médium Zélio de Moraes, une elementos do Catolicismo (Cristianismo e santos sincretizados pelos negros africanos), de religiões afro-brasileiras (orixás e culto aos antepassados), de indígenas (elementos da natureza) e do Espiritismo (reencarnação, lei do “karma”, progresso espiritual, entre outros). Por fim, o Candomblé, de origem africana, trazido para o Brasil no século XVI, destaca-se das demais por utilizar a mediunidade como canal de comunicação apenas com divindades da natureza (Orixás) e não espíritos que podem ter vivido na terra, como consideram as religiões anteriores.

A mediunidade e a ciência

Justamente essa associação da faculdade, dita hoje como inerente ao homem, às religiões, de certa forma, contribui para seu distanciamento de outros campos do conhecimento, entre os quais a ciência, dificultando estudos e relegando-a a um plano de subutilização. Tanto que, entre as décadas de 1920 e 1930, a Liga de Higiene Mental chegou a considerar o Espiritismo como um problema de saúde mental, relacionando a mediunidade a um sintoma psicopatológico e levando, nesse período, ao fechamento de muitos centros espíritas.

Conforme mencionado por Merhy, o aprofundamento teórico e prático da capacidade, relacionado ao aprimoramento moral do indivíduo, talvez oferecesse novas possibilidades na solução para problemáticas da atualidade, como a violência, as drogas ou enfermidades como o câncer, a AIDS e a depressão. Os psicólogos Wellington Zangari e Everton de Oliveira Maraldi, concluem, nesse sentido, o artigo intitulado “Psicologia da mediunidade: do intrapsíquico ao psicossocial”, afirmando que uma perspectiva psicossocial da mediunidade teria muito a contribuir em outros contextos sociais. “Para isso, será necessário partir de uma compreensão de indivíduo bastante distinta daquela comumente adotada nas investigações efetuadas até agora sobre essas experiências, expressão de uma herança teórica muitas vezes biologizante e redutora do social ao biológico. É preciso que essas duas dimensões de análise, a biológica e a psicossocial, se interpenetrem e se complementem de modo a originar hipóteses mais amplas e completas acerca da mediunidade”, finalizam.

A mediunidade na prática

Não só nos meios espiritualistas como também nos centros avançados de estudos da mente a reencarnação tem sido aceita. Os resultados da Terapia de Vidas Passadas (TVP) comprovam seu potencial para o desenvolvimento humano. Essa é uma premissa da mediunidade. Outra está na compreensão de que o indivíduo possui três corpos — o físico, o astral e o mental —, todos interligados por uma espécie de cordão, que permite se afastarem do corpo material, utilizado na encarnação na Terra.

No material apostilado desenvolvido por Luiz Antonio Brasil, para o estudo da mediunidade, e disponível na internet no endereço www.vivenciasespiritualismo.net, o autor propõe a reflexão de que apenas o corpo físico separa a interação das mentes. “O espírito desencarnado não consegue chegar ao nível do encarnado por lhe faltar o corpo físico. O corpo astral e o mental, por sua vez, são ponto comum, permitindo a comunicação entre ambos. O encarnado comum, no entanto, não sabe como deixar seu corpo físico para que a comunicação aconteça”, descreve.

O desenvolvimento da mediunidade, segundo o autor, permite, justamente, ultrapassar os limites do contato físico, abrindo as portas para o contato extrafísico. “É perfeitamente possível a qualquer pessoa desenvolver sua mediunidade. Há estudos específicos para a orientação e em todo o Brasil já existe uma popularização de cursos nesse sentido”, afirma o médium Mehry. Tanto o Centro onde trabalha, quanto o de Otávio, oferecem curso nesse sentido, com suas características diferenciações religiosas. Àqueles que sentem o despertar dessa necessidade, há muito material de leitura e filmes que podem contribuir com o estudo e a orientação do melhor caminho a ser trilhado, rumo ao desenvolvimento da mediunidade.

A existência e o espírito

Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (FFCL-RP), Delma Fernandes Muniz utiliza no tratamento de seus pacientes a técnica sustentada na ideia da existência do espírito e da reencarnação, a Terapia de Vidas Passadas (TVP). Nesse trabalho, diz ser preciso conhecer um pouco de todas as religiões, entre elas, o Budismo, o Indianismo, o Espiritismo, o Umbandismo e o Catoliscismo. “Não existe uma melhor do que a outra. Deus não tem religião. Deus é energia. As religiões são, na verdade, instrumentos e formas para entendermos o que somos”, afirma. Energia, aliás, é o ponto de partida da atividade. “Quando se fala de vidas passadas, está se falando de energia e esta não se esgota. Falar de vidas passadas é falar da alma”, frisa a psicóloga, associando também à física quântica, aos átomos e aos chakras a possibilidade da regressão. “Emprestamos um pouco de cada filosofia, de diferentes técnicas como shiatsu, heiki, imposição de mãos. Hoje, temos uma gama de recursos, de diferentes nomes, mas que enfocam o mesmo objetivo: o amor, a saúde, a vida. Todos têm surtido bons resultados”, avalia a psicóloga. Questionada acerca da mediunidade, Delma é enfática: “Todo ser humano é médium. A mediunidade não é uma faculdade apenas daquele que está num centro espírita ou de umbanda. Todos somos energia. Apenas uns desenvolveram mais a sensibilidade extrafísica do que o materialismo. Precisamos deixar essa necessidade de perceber tudo apenas pelos olhos físicos”, pondera.

Texto: Yara Racy
Fotos: Júlio Sian

Compartilhar: