A ciência do metabolismo

A ciência do metabolismo

A ciência ajuda a entender os motivos que levam algumas pessoas a sentirem mais fome do que outras


Bruno Silva
REVIDE ONLINE
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A busca pelo corpo perfeito e pelo bom funcionamento do metabolismo ganha uma nova aliada: a ciência. O fato de algumas pessoas continuarem famintas pouco tempo depois de comerem ou, ainda, não conseguirem seguir nenhuma dieta à risca pode ter uma explicação científica.

Alguns indícios estão na University of Southern, nos Estados Unidos, onde pesquisadores constataram que uma simples mutação nos genes associados ao metabolismo pode modificar a capacidade do corpo de metabolizar uma dieta específica. Outra pesquisa, realizada pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, promete responder algumas dúvidas bastante frequentes: “Por que eu, que não como exageradamente, continuo engordando?” ou o inverso “Apesar de comer muito, continuo magra. Por quê?”. A resposta pode estar no gene KSR2, responsável pelo metabolismo lento e pelo excesso de fome. Depois de observarem mais de dois mil pacientes com obesidade severa, estudiosos encontraram mutações nesse gene, que retarda a quebra da glicose e dos ácidos graxos.

A criação de testes genéticos foi influenciada pelas descobertas que identificam essas mutações e permitem aos profissionais de saúde a aplicação de dietas e exercícios físicos efetivos. Contribuir para o tratamento da obesidade infantil e auxiliar na produção de novos medicamentos em pesquisas de diabetes tipo 2 também estão entre os desdobramentos possíveis da pesquisa.

No Canadá, outro estudo, realizado pela Université Laval, aponta os benefícios de probióticos — bactérias presentes em iogurtes —como principais produtores de substâncias que interferem no funcionamento do metabolismo, auxiliando, assim, a perda de peso. Por fim, fruto de outra pesquisa realizada pelo Instituto de Biotecnologia, da Escola de Ciências da Computação da Universidade de Manchester, na Inglaterra, resultou no Recon 2, mapa que promete a reconstrução da complexidade do genoma humano através de todas as reações metabólicas do organismo. No estudo, a descobertas vão além do funcionamento do metabolismo. No futuro, será possível contribuir para o desenvolvimento da medicina personalizada, ou seja, determinar individualmente o tratamento mais adequando e, assim, uma forma sistemática para atacar certas doenças. Poderá, também, ajudar a perceber porque algumas pessoas expostas a determinados fatores ambientais são afetadas mais do que outras e qual é o mecanismo com que esses químicos atuam no corpo humano. Entre tantos estudos, o fato é que descobertas científicas surgem a todo o momento, e saber usá-las para aprimorar a qualidade de vida depende de cada um.

FUNCIONAMENTO NA PRÁTICA

Em um dia, uma pessoa gasta cerca de 70% da energia total para manter as funções vitais, como respirar, controlar a temperatura corporal e os batimentos cardíacos — é o chamado metabolismo basal. A porcentagem restante é utilizada no gasto termogênico, ou seja, no processamento dos alimentos consumidos — da mastigação até a absorção pelo organismo.

Porém, o cálculo do gasto energético, bem como o gasto calórico, é diferente em atletas de alta performance e em amantes de esporte que praticam atividades físicas regularmente. “O atleta de alto nível tem na atividade física sua profissão, o que exige capacidade máxima do seu organismo. A pessoa ativa treina para para viver com qualidade de vida”, compara Alex Nobasco, fisiologista e diretor do Formonn Personal Studio.

O profissional explica que o metabolismo é um conjunto de reações químicas e transformações no processo de síntese ou degradação das células, dividido em dois grupos:  catabolismo e anabolismo. Enquanto o anabolismo é o responsável por construir moléculas a partir de outras, no catabolismo acontece o inverso, a quebra de substância orgânica, um mecanismo de segurança para não faltar energia para o corpo.

Tecnicamente, o atleta tem o metabolismo mais acelerado. Por conta da rotina de atividades e pela oxidação mitocondrial elevada, consegue queimar mais gordura. Uma pessoa que mantém uma rotina de treinamento quer aumentar esse ritmo metabólico. Segundo Nobasco, o ideal é analisar o metabolismo de cada indivíduo e trabalhar o balanço energético para obter a perda ou o ganho de peso. “Se o objetivo for a perda de peso, deve-se subtrair o gasto calórico proporcionado pelos exercícios físicos do consumo de calorias por ingestão de alimentos. Ao final, se a conta ficou positiva, o peso irá aumentar; quando o resultado for negativo, a pessoa perderá peso”, explica.

A American College of Sports Medicine (ACSM) recomenda que adultos pratiquem, pelo menos, 150 minutos de atividade física por semana, o que garante a prevenção do aumento de peso e a redução de riscos de doenças associadas ao sedentarismo. No caso de sobrepeso ou de obesidade, a recomendação é de mais de 250 minutos de atividades físicas semanais, de intensidade moderada. Além disso, a musculação é recomendada como parte integrante de um programa de exercícios físicos que aumenta a massa magra e ainda reduz os riscos à saúde.

Para o fisiologista, bebidas alcoólicas em excesso, cigarro e dietas muito restritivas tendem a comprometer o desenvolvimento do metabolismo. Além disso, a alimentação é uma grande aliada da função metabólica. “O metabolismo sempre procura o equilíbrio do corpo humano, denominado homeostase. O pâncreas, por exemplo, produz insulina e glucagon para regular a concentração de açúcar no sangue. O ideal é se alimentar de três em três horas para evitar o catabolismo — processo de reações químicas destrutivas no organismo — em espaços prolongados entre as refeições. Quanto maior o tempo entre as refeições, mais o corpo entende que deve armazenar os substratos ingeridos para fornecer energia em longo prazo. Esse processo é um dispositivo de segurança do organismo para não faltar energia durante o dia”, completa o profissional.

O mecanismo utilizado pelo organismo para processar os alimentos também varia de uma pessoa para outra. A dieta deve ser equilibrada e individualizada, tanto em relação à quantidade quanto à qualidade. Um profissional de alto desempenho pode chegar a consumir o dobro de calorias do que uma pessoa normal.

A prática de exercícios físicos também pode sofrer alterações de acordo com o resultado desejado.  “Os músculos desenvolvidos demandam mais energia, mesmo em repouso. Por isso, exercícios musculares são mais indicados. É possível, através da intensidade, melhorar ou aumentar a massa muscular, deixando o corpo mais rígido e o metabolismo, mais rápido”, conclui Alex. O profissional ainda relata que o peso, a idade e o gênero são fatores importantes e devem ser observados na hora de regular o metabolismo. “Aqueles que apresentam peso elevado necessitam de um valor calórico maior. Já a idade avançada torna o metabolismo mais lento. Os homens, que possuem mais massa muscular em relação às mulheres, também tendem a ter um metabolismo mais rápido”, finaliza.

O atleta e personal trainer Rodrigo Carvalho tem claro o seu objetivo atual: completar a maratona de Buenos Aires em 2h48. Por isso, mantém a disciplina nos treinos e nos hábitos. O professor da Formonn concilia a agenda dos alunos com seus treinos diários: corre, em média, 120 km e faz musculação três vezes toda semana. “Às vezes, chego a treinar duas vezes ao dia, completando volumes de corrida com 30 km de manhã e treinamento muscular à tarde. Como meu corpo é sempre exigido ao máximo, o risco de uma lesão e de baixa no sistema imunológico é grande”, explica Rodrigo, que mantém uma dieta equilibrada e hipercalórica, garantindo condições ideais para sua recuperação muscular.

O atleta tem o apoio de uma equipe multidisciplinar composta por técnico, fisiologista, personal trainer, nutricionista e psicólogo. “Tenho uma avaliação criteriosa da minha massa muscular. A nutricionista me auxilia com a alimentação — devido ao grau de esforço, gasto cerca de 2000 kcal por treino. Esse valor deve ser compensado pela ingestão dos alimentos”, pontua. Para ele, é necessário que as pessoas se conscientizem de que cada organismo é diferente e de que é possível se apoiar em estudos, como cálculos de percentual de gordura ideal, aptidão cardiorrespiratória, força muscular e controles metabólicos, como níveis de colesterol, glicemia, pressão, hormônio, entre outros. “Os cuidados mais importantes são quanto ao excesso de exercícios físicos, que pode aumentar o catabolismo, ocasionando um overtraining (perda de rendimento). O importante é deixar o corpo ativo para acelerar o nosso metabolismo e, consequentemente, manter o organismo equilibrado, mais saudável e funcional. Os resultados dependem da disciplina, da alimentação e de um bom planejamento”, alerta.

Alimentação regrada, de três em três horas, pré e pós-treino, e uma dieta baseada em carboidratos de baixo índice glicêmico, vegetais, frutas, proteínas magras, muita água e suplementação é o cardápio de Carla Jardim Girioli. A cirurgiã-dentista treina seis vezes por semana e divide os exercícios físicos em quatro dias de musculação e dois de atividades aeróbicas e de abdômen, sob a orientação do professor Rodolfo Vieira. “Como tenho objetivos estéticos, meu treino é intenso, o que mantém meu metabolismo bem acelerado. Com uma dieta devidamente orientada e seguida à risca, consigo manter um corpo com baixo percentual de gordura”, comenta.

Para ela, o organismo depende da necessidade e do objetivo de cada pessoa. “A resposta do meu treino e da minha alimentação pode não ser a mesma para outra pessoa, mesmo se seguirmos rigorosamente a mesma rotina. É um erro comum usar as mesmas estratégias de outras pessoas. Os cuidados necessários para começar a praticar exercícios físicos são, primeiramente, uma avaliação médica. Depois, é sempre melhor seguir a orientação de um profissional de educação física, com treino individualizado e apoio de um nutricionista”, pontua.

Carla ainda frisa que o excesso de exercícios, muitas vezes, não é o correto. “No meu caso, aprendi por meio de pesquisas que ‘mais’ não é sempre ‘melhor’. Ou seja, não adianta ficar o dia todo na academia, mas aproveitar cada exercício praticado de forma intensa e bem dosada. Alimentação adequada e repouso também ajudam a garantir bons resultados”, finaliza.

O personal trainer e professor de musculação da Cia Athletica do RibeirãoShopping, Rodolfo Mingatos Vieira, explica que a diferença entre o metabolismo de um atleta de alto desempenho e um praticante de exercícios físicos está no hábito de vida e no objetivo. O atleta de alta performance sofre adaptações na capacidade de absorver e utilizar o oxigênio na manutenção das vias energéticas a que o corpo é submetido. “O esporte de alto rendimento não está, obrigatoriamente, relacionado à saúde. Muitas vezes, esses atletas levam seus corpos além dos limites saudáveis, ficando expostos a lesões e sintomas de excesso de treinamento. Já o indivíduo que busca o treinamento físico e a mudança de hábito alimentar pela qualidade de vida pode ser considerado saudável”, compara.

O profissional ainda explica que o organismo tem a capacidade de se adaptar aos estímulos. “Um atleta de alta performance, por exemplo, da modalidade endurance, tem seu metabolismo melhorado nas funções do absorção de nutrientes e do gasto energético em repouso, principalmente, se sua rotina atividades incluir a musculação, que tem grande capacidade de melhorar o perfil lipídico (diminuição do percentual de gordura corporal,  com aumento de massa muscular)”, explica.

Para o professor, existe uma diferença entre emagrecer e perder peso. A queda, a qualquer custo, dos ponteiros da balança não deve ser a principal meta. “Os treinamentos e as dietas devem ser indicados para diminuir o percentual de gordura do corpo, mantendo a massa muscular em alta, pois ela ajudará a acelerar o metabolismo durante e após o processo de emagrecimento”, frisa.

Outro fator importante é a alimentação. “A falta ou a distância entre as refeições podem levar à desaceleração do metabolismo, até por um mecanismo de defesa, bem como dietas com baixíssimas calorias podem influenciar o corpo negativamente. Em contrapartida, o metabolismo lento, que recebe várias pequenas refeições no dia, tem sua velocidade aumentada”, reforça.

NÃO DEIXE PARA DEPOIS

Para os iniciantes, é importante observar alguns detalhes que podem fazer a diferença. Segundo Vanessa Kurokawa e Ariela Borges, diretora e coordenadora da Lofty Sport, o ideal é fazer um check up clínico com um médico cardiologista para verificar as condições fisiológicas do coração em repouso e durante as atividades. “Esses exames são essenciais para liberar uma pessoa a praticar atividade física, identificando possíveis problemas congênitos e fisiológicos que possam causar danos à saúde. Após esta etapa, é recomendável consultar um nutricionista para adequar a alimentação aos objetivos. O terceiro passo é informar ao educador físico as metas, para que ele possa desenvolver o treinamento. Depois disso, serão necessários foco e muita vontade para treinar”, comentam.

Para as especialistas, é fundamental encontrar uma atividade que dê prazer ao praticante. Aos poucos, o ambiente da academia poderá proporcionar um leque variado de atividades, permitindo ao aluno conhecer outras modalidades. Algumas pessoas adoram musculação, enquanto outras preferem corrida, spinning, Pilates, entre outras atividades. “O que se sabe é que, independentemente da modalidade escolhida, a musculação será sempre base e contribuirá de forma significativa para a melhora dos resultados. Portanto, é sempre indicado associar musculação a outras atividades complementares. Faça atividades que proporcionem prazer e satisfação: essa é a única maneira da garantir uma prática constante”, completa Ariela.



Metabolismo, exercícios físicos e boa alimentação são alguns ingredientes que devem ser levados em conta por quem quer turbinar a saúde. Nesa receita, estão inclusos também os hormônios da tireoide, que participam do metabolismo, já que regulam a transformação de nutrientes em energia.A nutróloga cooperada da Unimed Ribeirão Preto,Valéria Moro (CRM 85656), indica exames que permitem medir, individualmente, a quantidade de energia gasta para a manutenção das funções vitais. “A taxa metabólica basal, principal componente do gasto energético diário, pode ser medida por bioimpedância e calorimetria. O gasto energético total leva em conta outros fatores, como a atividade física e o sexo, feminino ou masculino”, esclarece a nutróloga. A alimentação adequada e o estilo de vida também são fundamentais para contribuir para a saúde, especialmente, na prevenção de doenças. “Uma alimentação saudável pode ter como base o arroz e o feijão, verduras, legumes e frutas, leite e derivados, carne magras como os peixes, e cereais integrais. Até a ingestão, sem excesso, de sal, de açúcares e de gorduras contribuem para a manutenção do peso e a qualidade de vida”, acrescenta Valéria. “Não é necessário seguir modismos, mas avaliar, dentro das possibilidades, o que é mais prazeroso. Isso vale também para as atividades físicas”, afirma Valéria.Segundo ela, mais da metade da população está acima do peso por conta da alimentação incorreta, incluindo crianças, que já apresentam doenças antes vistas apenas em adultos. “Ter uma alimentação saudável, valorizar escolhas adequadas no dia a dia, ter tempo para as refeições, dando importância a este momento, praticar atividade física com equilíbrio, beber água, cuidar do estresse, ter bons relacionamentos, valorizar a família e os amigos, ter horas adequadas de sono, ser otimista, praticar o bem: tudo isso contribui para que a qualidade de vida venha de dentro para fora. Quem cuidar da essência, saberá apreciar a aparência saudável, mas sem perfeição”, destaca.


Vários fatores influenciam o metabolismo, como genética, idade, sexo, atividade física, dieta, clima, composição corporal, entre outros. Hábitos saudáveis contribuem para o bom desempenho do metabolismo. Para Gustavo Gironi, diretor da Clínica Corpore, cada pessoa deve ter seu programa de atividade física personalizado. “Inicialmente, deve-se avaliar o indivíduo e adequar os exercícios e suas intensidades às limitações, restrições e nível de condicionamento”, explica.Gironi ainda completa que a prática de atividade física aumenta, de fato, o gasto calórico. Porém, é importante escolher bem os alimentos, fracionar as refeições, manter uma hidratação adequada e dormir bem – oito horas por noite. “Tudo isso, conciliado aos exercícios, contribuirá para o bom funcionamento do metabolismo e, consequentemente, para uma vida mais saudável”, finaliza.

Texto: Cristiane Araujo
Fotos: Carolina Alves, Ibraim Leão e Julio Sian
Diagramação: Lucas Chaibub
Agradecimento: Winner Sport

 

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