A cor da esperança
O Outubro Rosa foi criado para chamar a atenção para o tipo de câncer que mais vitimiza mulheres no mundo: o de mama
O mês que marca a esperança de milhares de mulheres que sofrem com o câncer de mama chegou. A campanha Outubro Rosa foi criada para alertar a população sobre a importância da prevenção, do tratamento e do diagnóstico precoce da doença. A ação, que estimula milhares de mulheres a darem atenção ao próprio corpo e realizarem o exame de mamografia foi criada em 1990, em Nova Iorque, onde aconteceu a 1ª Corrida pela Cura e foi popularizado o laço rosa como símbolo da luta. Primeiro, a ação se espalhou pelos Estados Unidos. Após alguns anos, ganhou o mundo, inclusive o Brasil.
No país, a primeira iniciativa aconteceu em São Paulo, com a iluminação em tons de rosa do Obelisco do Ibirapuera — Mausoléu do Soldado Constitucionalista. Somente em 2008, a cor tomou prédios e monumentos em diversos cantos do país, popularizando a campanha no Brasil. Até hoje, o Outubro Rosa ganha força, forma e novos eventos. Em Ribeirão Preto, não é diferente. Durante a campanha, a cidade se mobiliza e incentiva milhares de mulheres a se conscientizarem sobre a prevenção ao câncer de mama. Segundo a presidente do Hospital de Câncer de Ribeirão Preto — Fundação SOBECCan —, Rosemeire Marques, a Rose, é de extrema importância que o município incentive as pessoas a buscarem informações sobre a doença e a realizarem o exame de mamografia. “É importante que haja um incentivo para que todos participem da campanha. Nesta época do ano, sentimos que a procura pelo exame aumenta muito. É nítido o crescimento, não só no nosso hospital, mas também nos postos de saúde. Como atendemos mulheres que são encaminhadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), notamos que as pessoas ficam mais atentas durante a campanha”, explica a presidente.
Para Rose, o Outubro Rosa estimula a preocupação e o cuidado que as mulheres devem ter com a saúde. “Pela minha vivência no hospital e em eventos durante este mês, percebo que a preocupação aumenta neste período, já que, muitas vezes, devido à correria do dia a dia, muitas mulheres acabam deixando de se cuidar. Em outubro, com a campanha, elas se envolvem mais com a causa”, conclui Rose, ressaltando que isso não acontece só com as mulheres. Os homens também se conscientizam e se sensibilizam mais com a doença através da campanha.
Segundo o médico Guilherme Luna Martinez, diretor clínico e técnico do Hospital de Câncer de Ribeirão Preto, a campanha é de extrema importância, já que direciona os olhos do sistema
de saúde para a principal causa do câncer feminino no Brasil. “Como o movimento é extremamente conhecido e forte, as mulheres e os serviços de saúde de todo país se unem para exames clínicos e de imagem. Com isso, conseguimos uma detecção maior de casos iniciais neste mês. Essa ação traz, consequentemente, uma chance de cura maior para as mulheres”, conta o diretor. Além disso, alguns serviços de saúde filantrópicos conseguem mais doações que possibilitam ampliar o atendimento aos pacientes. O Hospital de Câncer de Ribeirão Preto, por exemplo, fez parceria com uma cervejaria e uma academia que farão eventos com a renda revertida para a instituição.
Por mais que o diagnóstico seja difícil para as vítimas, Martinez explica que a verdade deve prevalecer, mas vir acompanhada de otimismo. “Quando uma paciente recebe o diagnóstico de câncer de mama, ela fica extremamente fragilizada. Nesse contexto, acredito que falar a verdade seja importante, porém sempre com otimismo, uma vez que há cura em mais de 95% dos casos em estágios iniciais. A atuação de uma equipe multidisciplinar também é importantíssima: assistentes sociais, psicólogos, fisioterapeutas, enfermeiros, dentistas, oncologistas e radioterapeutas fazem parte da vida da paciente durante algum tempo. Por isso, acaba acontecendo um vínculo muito forte entre pacientes e a equipe de atendimento. Como mastologista e oncologista, acredito que o acolhimento e a atenção a essas pacientes são fundamentais. Convivemos diariamente com o câncer de mama, porém, para a paciente, é uma vivência nova e única, por isso, o acolhimento é fundamental”, diz o médico.
Autoexame da mama
Por mais contundente que seja o incentivo ao autoexame, Martinez explica que, atualmente, a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) acredita no conceito de autoconhecimento da mama. Já o Instituto Nacional de Câncer (Inca), segundo o médico, manifestou-se contrariamente à realização rotineira da palpação da mama pela própria paciente, pois o ato não aumenta a detecção da doença. Além disso, ele explica que existe também outro problema relacionado ao autoexame: muitas vezes, quando a paciente se palpa e não encontra nódulos, acredita estar em boas condições de saúde e não procura um médico para realizar a mamografia. “Diante disso, acreditamos mais no conceito de autoconhecimento da mama, que consiste, basicamente, em saber como é sua mama. Por exemplo, a paciente sabe que naquele ponto do seio é um pouco mais amolecido e em outro é mais endurecido. Se o ponto amolecido mudar de aspecto, vale a pena procurar o profissional antes dos exames rotineiros”, explica o especialista.
Segundo o médico, ao encontrar algo suspeito, as mulheres devem se dirigir o mais rápido possível ao profissional de saúde de sua confiança. O profissional avaliará a necessidade de solicitar e até de adiantar os exames de imagem. Vale ressaltar que queixas mamárias são prioridade no Sistema Único de Saúde, em Ribeirão Preto, e as pacientes facilmente conseguem avaliação mais rapidamente com os profissionais de saúde. Na medicina privada, o fluxo também funciona adequadamente, de acordo com Martinez.
Estimulo à vida
A advogada e professora universitária Eva Haig Adourian Arnoldi, de 44 anos, realizava as mamografias anualmente, mas ainda assim vivenciou um câncer de mama. Antes de ter o diagnóstico, só se recordava de fazer os exames clínicos durante a campanha Outubro Rosa. Hoje, busca incentivar as mulheres a fazerem o autoexame e defende a campanha que, segundo a advogada, ajuda na prevenção e na conscientização da doença. “Minha estratégia foi sair da condição de olhar só para mim e olhar para as outras pessoas que estavam nas mesmas condições que eu. Resolvi ajudar e isso me fortaleceu, saindo da condição de vítima e me colocando em uma nova história, repleta de vitórias e de amor ao próximo. Creio que isso não partiu de mim, mas de um coração grato a Deus, inclusive, como coordenadora da Comissão em Defesa dos Direitos das Pessoas com Câncer, incentivo a realização de eventos em comemoração ao tema na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)”, comenta Eva.
Atualmente, a advogada ajuda na luta pelos direitos das pessoas com câncer, mas nem sempre foi assim. Ao receber o diagnóstico da doença, sentiu que havia sido condenada à morte. Tudo que tinha conquistado até aquele momento, como a carreira profissional, o reconhecimento e o sucesso, perdeu o valor. Eva conta que se viu diante de uma escolha: entregar-se ao sentimento de comiseração, ficando com pena de si mesma, ou deixar de se colocar no centro das atenções para olhar o próximo. Neste momento, percebeu que, quanto mais pensava no outro, mais conseguia se desvencilhar da tristeza e da dor causada pela doença.
Com essa decisão, conseguiu mudar a realidade, dedicar-se mais às pessoas e escrever uma nova história. “Pela preocupação com a minha família, escolhi manter a alegria. Comecei a utilizar perucas coloridas para agir de forma lúdica com meus filhos, que eram crianças na época. Também procurava ajudar outras pessoas com a doença, que sequer sabiam como exercer seus direitos. Chegava até mesmo a esquecer que estava doente e em tratamento. Descobri que o câncer não é contagioso, mas a alegria e o amor são”, afirma Eva.
Foi a partir dessa perspectiva, que a professora universitária pôde superar a doença e se concentrar na luta pelas pessoas que passam por tudo que ela vivenciou. Hoje, ensina os alunos que, ao se depararem com uma pessoa em tratamento, em vez de não saberem o que dizer, eles devem falar que ela tem direitos. “Tirar o foco da doença e focar nos direitos, dando nova perspectiva e esperança a essas pessoas, faz um grande diferencial no tratamento, pois isso as tira da condição de vítimas e as coloca como cidadãs”, reforça a advogada.
Mês de alerta

Para Diocésio Andrade, oncologista do InORP/Grupo Oncoclínicas, apesar da iniciativa ser positiva, doenças como o câncer de mama deveriam ser tratadas durante todo o ano. “Deveríamos sempre tratar de problemas de saúde da magnitude do câncer de mama durante todo o ano, porém é de extrema importância e com um apelo essencial das mídias que o Outubro Rosa se perpetue como uma campanha de alerta. Através dela, conseguimos difundir com alto impacto de penetração medidas de prevenção que podem ajudar no desfecho do câncer de mama”, fala o especialista.
É de extrema importância que o mês cause impacto na população. Com a prevenção, pode-se mudar o desfecho de muitas histórias. Segundo Diocésio, é comprovado por sociedades relacionadas ao tema, como a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e a Americana de Oncologia Clínica (Asco), que a mamografia deve ser realizada, anualmente, a partir dos 40 anos. O oncologista reforça que não há uma data de interrupção para a realização deste exame. Alguns estudos sugerem oito anos, em média, abaixo da expectativa de vida do indivíduo. O SUS orienta a mamografia a cada dois anos, entre 50 e 69 anos, porém não é o que o médico acredita ser o mais indicado.

Perspectiva e tratamento
As perspectivas atuais dos tratamentos contra o câncer de mama são muito boas. Cada vez mais, tecnologias têm sido disponibilizadas nas diversas áreas, como técnicas cirúrgicas menos agressivas e mutiladoras, terapias alvos que bloqueiam diretamente um biomarcador importante no desenvolvimento do tumor, e técnicas de radioterapia em que os efeitos colaterais são minimizados. Além disso, sem perder a eficácia do tratamento, são possíveis, hoje, métodos com o intuito de minimizar os efeitos colaterais como, por exemplo, o uso de crioterapia, que diminui a chance de queda do cabelo da paciente em vigência de quimioterapia.
A campanha em Ribeirão Preto
No município, as ações se intensificam no mês de outubro. Segundo a Secretaria da Saúde de Ribeirão Preto, durante a campanha, acontecerão eventos educativos nas salas de espera das unidades de saúde para lembrar às mulheres a importância da realização regular dos exames de mamografia, além dos cuidados com a alimentação.
Programação
Novo Shopping
O empreendimento receberá, nos dias 5 e 6 de outubro, das 10h às 17h, o Mamamóvel, do Hospital de Câncer de Ribeirão Preto.
RibeirãoShopping
O RibeirãoShopping, no dia 8 de outubro, às 19h30, promoverá o desfile de moda com mulheres que se submeteram à cirurgia de retirada da mama. Com o tema “A beleza e a força da mulher no controle do Câncer de Mama”, o evento, que contará com a presença de 20 mulheres atendidas elo Núcleo de Reabilitação de Mulheres Mastectomizadas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (REMA – EERP) da USP, marcará o mês de conscientização da prevenção ao câncer de mama.
Shopping Santa Úrsula
No dia 16 de outubro, o centro de compras receberá o evento “Câncer de Mama: o que preciso saber”, no Espaço Feliz Idade, no piso térreo. A ação contará com a participação das médicas Paola Candido Rodrigues, falando sobre prevenção, e Viviane Fernandes Schiavon, que abordará sobre diagnóstico e tratamento da doença.
Prefeitura de Ribeirão Preto
A Secretaria Municipal da Saúde estará, no dia 20 de outubro, na esplanada do Theatro Pedro II, para orientar a população e falar sobre a importância da mamografia.
Corrida Outubro Rosa
No dia 21 de outubro, às 8h, haverá a 5ª edição da Corrida Outubro Rosa de Ribeirão Preto. O evento, que terá a largada no estacionamento do Shopping Iguatemi, está com inscrições abertas pelo site www.outubrorosa.net.br, com duas opções de categoria: 3 Km de caminhada ou 5 Km de corrida.
Outback
No dia 24 de outubro, o restaurante realizará um almoço com parte da renda revertida ao Hospital de Câncer de Ribeirão Preto.
Point SP330
No dia 25 de outubro, haverá um show em que a banda reverterá o cachê ao Hospital de Câncer de Ribeirão Preto, além das arrecadações obtidas com a venda de um drinque do local.
Shopping Iguatemi
Durante o mês, o empreendimento promoverá uma campanha de conscientização sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama, com o objetivo de engajar os clientes e dar ainda mais luz ao movimento do Outubro Rosa. A cor rosa tomará conta do ambiente. Além das flores que compõem o paisagismo, as peças de comunicação do shopping também foram preparadas para o mês especial.
Hospital das Clínicas
A equipe médica e de enfermagem de mastologia e oncologia do Hospital das Clínicas promoverá, durante o mês todo, diversas atividades voltadas para conscientização do câncer de mama. O objetivo é chamar atenção para a importância do apoio de familiares e amigos na prevenção, tratamento do câncer e também na recuperação da autoestima. Além das atividades, o hospital receberá, até o dia 31 de outubro, a exposição fotográfica “Espelho, espelho meu, existe alguém mais heroína do que eu?”, na portaria principal.
Texto: Gabriela Maulim