A cultura entra em campo
a diversidade é uma das marcas dos eventos culturais que marcarão a cena ribeirãopretana
Enquanto jogadores das mais diversas regiões do planeta se espalham pelo Brasil para defender a camisa e conquistar a Copa do Mundo, um time de artistas da terra se prepara para levar cultura e entretenimento para o público que pretende visitar Ribeirão Preto no período em que a cidade recebe a equipe francesa, de 10 de junho a 13 de julho. Trata-se do projeto “Copa Cultural”, que presenteará o município com 107 apresentações, em locais variados, entre elas, 86 gratuitas no Palco Esplanada, erguido em frente ao Theatro Pedro II, segundo a Fundação Dom Pedro II.
Assim como a própria Copa evidencia a riqueza cultural e a diversidade, o projeto “Copa Cultural” tem como marca o ecletismo, reunindo nos palcos apresentações de dança, teatro, música, projeções em 3D, intervenções artísticas e exposições. Essas modalidades estarão expressas em seus mais diversos gêneros: da música erudita ao sertanejo universitário, da dança de rua ao balé, de instalações a demonstrações de capoeira; de seresta especial, na Praça Sete de Setembro, a um roteiro de museus que integrará instituições públicas e particulares.
Segundo Dulce Neves, presidente da Fundação Dom Pedro II, o projeto abre espaço para todos os tipos de manifestação artístico-cultural. “O objetivo da Fundação e da Secretaria Municipal da Cultura é atender à diversidade de público, atrair a população e os visitantes para o Theatro Pedro II, a Esplanada, o Teatro de Arena e o Teatro Municipal de Ribeirão Preto”, afirma Dulce, observando que o “Copa Cultural” também foi criado para comemorar o aniversário de Ribeirão Preto. Este ano, o 19 de junho coincide com o período do Mundial de futebol, o que se tornou um incentivo para tornar o evento mais grandioso e multicultural.
A presidente da Fundação explica que a organização viu no projeto uma oportunidade de valorizar os artistas da terra e, como as festividades do período também incluem os 158 anos de Ribeirão Preto, preocupou-se em dar liberdade criativa aos artistas, de forma que a temática abordada pelas produções não foi limitada à Copa do Mundo ou mesmo à relação existente entre o visitante, França, e o anfitrião, Brasil. Portanto, os grupos ficaram à vontade para definir o que poderiam apresentar de melhor para o turista, seja ele estrangeiro, nativo ou da região.
O fato de Ribeirão Preto ser uma cidade reconhecida pelo turismo de negócios e eventos também motivou a criação do projeto. “Este será um momento em que a cidade receberá a imprensa e turistas de outros cantos do país e do mundo. O Theatro Pedro II terá grande visibilidade nacional e internacional, por isso, aproveitamos para mostrar a produção cultural da cidade”, ressalta Dulce, destacando que a programação foi feita para toda a população da cidade e para os turistas, com o intuito de revelar sua diversidade cultural e criar mais palcos para o artista local.
O secretário municipal de Cultura, Alessandro Maraca, afirma que a organização ficou surpresa com a adesão maciça dos artistas ribeirãopretanos ao projeto “Copa Cultural”: foram quase 200 inscrições. A banca responsável pela seleção dos trabalhos foi composta por um representante de cada segmento: Centro Cultural Palace, Secretaria Municipal de Cultura, Fundação Dom Pedro II, Conselho Municipal de Cultura e sociedade civil. Para definir a programação, essa comissão ficou reunida por três dias. “Este não é um dinheiro gasto com a Copa do Mundo, mas com a comemoração do aniversário de Ribeirão Preto, que calhou de estar no mesmo período, o que nos agrada muito e nos dá uma condição maior de trabalho. Não poderíamos atender tantos artistas se o evento fosse somente voltado à Copa do Mundo. Assim, unimos o útil ao agradável”, observa o secretário.
Inicialmente, pensou-se em estabelecer no projeto uma única apresentação por dia, fato que foi alterado devido ao grande número de inscritos. “Mais do que ter mais artistas participando, queremos construir o evento com eles. Uma das mudanças foi a ampliação do número de atendimento de produções no ‘Copa Cultural’: teremos até quatro eventos por dia”, conta Maraca. Para oferecer mais atrações ao público, a Prefeitura e os artistas fizeram um acordo para reduzir os cachês. A temática dos eventos escolhidos evidencia a preocupação dos artistas ribeirãopretanos em mostrar ao público as riquezas da cultura brasileira.
A atriz independente Fabiana Martins faz parte desse grupo. No período da Copa do Mundo, ela apresenta no dia 18 de junho, às 18h30, no Palco Esplanada, a peça infantil “Alexandre entre Xique-xique e Mandacaru”, dramaturgia própria inspirada na obra “Histórias de Alexandre”, de Graciliano Ramos. “Optei por apresentar este trabalho no ‘Copa Cultural’ por ser mais maduro como produto artístico, ter técnicas mais elaboradas e por fazer referência à obra de um dos grandes autores brasileiros”, conta, acrescentando que o espetáculo se baseia em mascaramento e em manipulação robótica, sendo a última uma técnica pouco utilizada em Ribeirão Preto. Ela sobe ao palco acompanhada por Caroline Lopes, responsável pela execução musical do monólogo.
A famosa dupla de bailarinos ribeirão-pretanos, Elydio e Marisol, também promete um show de brasilidade com a coreografia “Sabiá”, feita pela carioca Silvana Shuwarts, com música de Chico Buarque e Tom Jobim. “A coreografia foi produzida há dois anos e remodelada pensando na Copa”, destaca Elydio. O espetáculo de dança será apresentado do dia 20 de junho, às 18h10, no mesmo espaço.
Alguns minutos depois, às 18h30, a cantora Eula Hallak se apresenta e novamente empresta ao evento um sotaque bem brasileiro, com o show “Eu lá no Samba”, em que resgata canções de Cartola, Noel Rosa, Chico Buarque, Dorival Caymmi, entre outros grandes compositores. Conforme ela, os inscritos no Projeto aceitaram reduzir seus cachês para dar oportunidade de participação a mais artistas. “Vai ser bom porque a Feira do Livro acabou de ser encerrada. Agora, com o ‘Copa Cultural’, a cultura ganha ainda mais força na cidade. A população que não pode frequentar teatros e é carente de cultura terá mais uma chance de assistir a bons espetáculos, gratuitamente”, ressalta a cantora.
Ao contrário de Eula, André Perim apostou em músicas autorais, com levada de samba, samba-rock, funk, baião e reggae, e inscreveu o show “É das Mumunhas do Futebol”, que ocupa o Palco Esplanada no dia 15 de junho, às 11h, para interpretar músicas que começaram a ser compostas há um ano, voltadas ao tema “Copa do Mundo”, nas quais o artista mescla o cotidiano do brasileiro à malandragem do futebol. “O mais importante é levar cultura não para os estrangeiros, mas para o próprio brasileiro. A projeção dos artistas regionais em Ribeirão Preto também é fundamental”, ressalta o músico que se apresenta acompanhado pelo baterista Enio José, pelo percussionista Rudah Felipe, pelo contrabaixista João Naccarato e pelo saxofonista Márcio Bá.
Reafirmando a diversidade do projeto e fazendo uma homenagem aos ilustres visitantes, entra em cena a Cia. Minaz, com o concerto “Três tenores”, estrelado por Rafael Stein, Ozório Christovam e Sasha Ganade, com a participação de Lucas de Paula ao piano. “Serão interpretadas famosas árias de óperas, como ‘Nessun Dorma’, da ópera ‘Turandot’, de Puccini, e canções italianas, como ‘O Sole Mio’, além de obras espanholas e americanas, de compositores como Verdi e Di Capua. As cancionetas e trechos de ópera serão apresentados com muito humor, para que o público possa ter acesso”, explica a diretora artística da companhia, Gisele Ganade.
Pela diversidade dos projetos contemplados, o secretário da Cultura acredita que o evento dará ao público uma visão geral do que Ribeirão Preto tem produzido em termos culturais. “Temos projetos de capoeira e de outras expressões artísticas que foram influenciadas por outros países, e não pela cultura afro ou pela cultura brasileira”, afirma Maraca.
A diversidade, segundo a presidente da Fundação Dom Pedro II, será a principal característica do evento. “Pensamos em um festival democrático que agrade a todo mundo, que mostre a riqueza da produção ribeirãopretana de arte e de cultura, que apresente Ribeirão Preto aos turistas. O projeto Copa Cultural será um cartão de visitas para quem vem ao Município como turista e uma agenda positiva para quem mora na cidade”, conclui Dulce Neves.
Um mês cultural
Junho e julho prometem muita animação aos ribeirãopretanos. Além do “Copa Cultural”, o município contará com as festividades do aniversário da cidade e com a versão local da Virada Cultural: o “Ribeirão 24 horas de Arte”, que acontecerá nos dias 21 e 22 de junho e promete mais do que a prata da casa: contará com a presença das bandas “Cachorro Grande” e“Raimundos”, segundo Alessandro Maraca.
A pedido da Polícia Militar, por questões de segurança, o evento, que também ocuparia o Palco Esplanada, será realizado no Teatro de Arena e no Teatro Municipal. Ao invés de 24h ininterruptas de música, a programação terá aproximadamente 40h, mas com intervalo. “Na Virada Cultural, as atrações da madrugada não tiveram público. Para garantir a plateia, vamos parar às 3h e retomar às 10h”, explica o secretário de Cultura, destacando, ainda, que a Comissão Organizadora está fechando uma parceria com a Aliança Francesa para que artistas dessa nacionalidade façam parte tanto da programação.
Maraca também afirma que, apesar da presença das duas bandas, a organização optou por assegurar a participação dos artistas da terra. Por conta da grande demanda para o Copa Cultural, nem todas as produções foram contempladas. “Neste segundo edital, levamos em consideração se o artista já foi atendido na seleção do primeiro evento. Assim, satisfazemos os artistas ribeirãopretanos e o público. Podemos dizer que nossas expectativas estão sendo alcançadas”, enfatiza Maraca.
A programação completa do Copa Cultural pode ser conferida no site www.ribeiraopreto.sp.gov.br.
Texto: Carla Mimessi