A desconstrução dos 30

A desconstrução dos 30

Durante um descontraído bate-papo com a jornalista Analídia Ferri, as autoras do livro “Enfim 30 – um livro para não entrar em crise”, revelam como entrar nessa faixa etária com leveza

Independentemente da idade, todo aniversário representa o encerramento de um ciclo para o início do próximo. No entanto, sob diversas óticas, algumas datas chegam carregadas de uma importância ainda maior. Este é o caso dos 30 anos que, à luz da Astrologia, é o momento de planejar efetivamente a vida adulta. O tema é abordado pelas escritoras Camila Fremder e Jana Rosa, na segunda obra da dupla, “Enfim, 30 – um ano para não entrar em crise”. No livro, as duas, que acabaram de ingressar na terceira década de vida — Camila tem 33 anos e Jana, completou 30 em 2015 —, desmistificam a crise típica da idade e alegam que não é preciso se preocupar. Pelo contrário, “trintar” pode, e deve, ser divertido. 

Assim como as autoras, a jornalista, gestora de conteúdo do Grupo SEB e idealizadora do portal cultural Varal Diverso, Analídia Ferri viu-se frente a frente com a crise dos 30 bem na chegada de 2016: ela completou a idade no 1º de janeiro deste ano. Sendo assim, o livro da dupla, que ela entrevista a seguir, foi um grande aliado nesse momento de virada e, segundo ela, ajudou a tornar os questionamentos característicos do período mais leves e saudáveis. 

Camila é formada em Propaganda e Marketing e pós-graduada em roteiro para TV e cinema. Em 2007, começou um blog de crônicas, “Parece filme, mas é vida mesmo...”. Em 2009, teve seis textos publicados no livro Prólogo#1, que lançava novos autores. Dois anos depois, o conteúdo do blog virou livro. Atualmente, Camila é colunista da revista Glamour, na seção GCrônica, e cursa Astrologia. Com formação em Desenho de Moda, Jana trabalhou com Erika Palomino e Gloria Kalil, foi repórter do It MTV entre 2010 e 2011 e apresentou o programa Perua MTV entre 2012 e 2013. Atuou, ainda, como colunista das revistas Gloss e TPM. 
No final de 2013, as amigas lançaram seu primeiro livro, “Como ter uma vida normal sendo louca”. A parceria deu tão certo que, em 2015, as autoras se reencontraram para lançar a segunda obra, “Enfim, 30”, que foi tema da entrevista concedida a Analídia e também da primeira palestra de um ciclo de eventos do gênero que faz parte das comemorações dos 30 anos da Revide. Relacionamento, maternidade, carreira, saúde, vida social, tecnologia e numerologia são algumas das questões discutidas pelo trio, durante o bate-papo acompanhado pelo jornalista Pâmela Silva. 

Analídia: Esse é o segundo livro de vocês juntas. Como surgiu a ideia de escrever para falar, com humor, sobre os 30 anos?
Jana: Justamente no momento que estávamos vivendo essa transição, precisávamos encontrar o tema central para um novo livro. Na nossa primeira publicação, “Como ter uma vida normal sendo louca”, essa mistura entre os temas abordados e os nossos conflitos pessoais também estava presente, era a fase que estávamos vivendo. Assim, a definição do assunto que seria discutido na segunda obra aconteceu naturalmente: resolvemos falar dos 30 anos porque era exatamente esses questionamentos que a gente estava vivendo — eu, com 29 anos, e a Cami, com 33. Nossas amigas também enfrentavam as mudanças dessa idade e o verbo “trintar” estava sempre presente na pauta em nossos encontros. 

Analídia: O livro aborda vários temas comuns a essa passagem pelos 30 anos. Vocês se basearam nas próprias vivências para escrever os capítulos? 
Camila:
Fizemos várias pesquisas, lemos alguns livros sobre os 30 anos, consultamos muitas reportagens por meio da internet, selecionamos as informações mais relevantes e escrevemos o principal, sob nosso ponto de vista, em alguns post its. Com tudo isso em mãos, organizamos o “esqueleto” da obra e decidimos o que era mais pertinente. Na verdade, todos os assuntos tratados acontecem com a maioria das pessoas, não há nada muito imprevisível. 

Analídia: Para dar mais legitimidade aos assuntos do livro, vocês contaram com a ajuda de especialistas para escrever sobre certos temas. Como foi essa escolha e qual a importância dessas fontes no livro?
Camila
: Entrevistamos várias pessoas, tanto para compor o livro quanto por curiosidade pessoal. Além disso, queríamos que o resultado final fosse diferente de uma publicação de autoajuda, só não sei se deu certo. 
Jana: Durante a pesquisa, trocamos muitas ideias com o Sidnei Oliveira, especialista na Geração Y, e constatamos que a nossa crise é completamente diferente da crise dos nossos pais. Afinal, para as nossas mães, a maternidade era assunto mais do que obrigatório aos 30 anos, quando não ultrapassado. Nossa geração, na busca pela felicidade, parece querer fazer de tudo um pouco, não há uma receita certa a seguir. Na minha visão, as crises existenciais comuns para quem está chegando aos 30 anos são consequência dessa busca incessante.

Analídia: No livro, há um capítulo cheios de conselhos, como aquele que recomenda deixar certas atitudes imaturas para trás. Quais recomendações dão para essa fase?
Camila:
Mais uma vez, não acredito que haja conselhos certos ou errados. Esse é um exercício diário que nós também praticamos constantemente. Não é porque escrevemos o livro que não passamos por esses questionamentos. No “Enfim, 30, falamos sobre os “surtos” mais comuns, mas vale ressaltar que cada idade tem suas questões implícitas e essas, por sua vez, chegam em momentos diferentes. No caso das mulheres, há aquelas que têm uma crise por mês. 

Analídia: Aos 30 anos, costumamos nos perguntar se estamos no caminho certo. Isso aconteceu com vocês?
Camila:
A minha crise dos 30 foi totalmente relacionada ao aspecto profissional. Eu trabalhava numa agência de publicidade, com planejamento de mídia, e deixei tudo de lado para escrever. Entrei em uma pós-graduação de roteiro e, agora, estou fazendo astrologia. Acredito que a crise pode chegar em diferentes idades e em outras áreas da vida. Temos apenas que saber passar por ela com certa maturidade e com uma pitada de leveza. A transformação da Jana também ocorreu na área profissional, mas foi bem mais intensa do que a minha, acredito. 

Analídia: As mulheres se apegam muito a determinadas imposições da sociedade, especialmente no que pode ou não fazer aos 30. Esse livro desconstrói alguns paradigmas de forma didática e divertida. Quais conselhos não devemos seguir em nenhuma idade?
Jana:
Acredito que a sociedade impõe muitos padrões às mulheres, e isso acaba ficando preso no inconsciente. Para se livrar disso, não basta mudar de atitude ou falar, “chega, não vou mais fazer o que a sociedade espera”. É preciso ter pulso firme e realmente acreditar que, se você não quiser, não precisa casar ou ter filhos. Também não há necessidade nenhuma de termos o corpo da Gabriela Pugliesi. Você tem que ser o que você quiser, e nem por isso a sociedade vai deixar de cobrar a conta. Sempre haverá aquele “diabinho” falando que você precisa, sim, seguir os padrões. Muitas vezes, eu mesma me pego pensando, “nossa, tenho 30 anos e não tenho previsão de quando terei um marido; e se eu não conseguir ter um filho?”. Mas depois vejo que não preciso disso para ser feliz. Essa cobrança também está dentro de nós e cada um deve saber exatamente o que vale a pena vivenciar. 
Camila: Dentro dessas questões, ainda temos que conviver com as mudanças no corpo e não dá para ignorar que, no caso das mulheres, há um tempo biológico do qual depende a maternidade. É importante lembrar que, diariamente, vemos reportagens de mulheres que conseguiram engravidar aos 40 ou 50 anos. Mas a verdade é que a natureza começa a mandar recadinhos, enquanto o corpo da mulher vai se preparando para o que ele irá viver. Aos 30 anos, já descobrimos nossas vontades e a sexualidade em si não é como costumava ser aos 20 e poucos anos, quando, geralmente, tem muita insegurança envolvida.

Analídia: Qual é o melhor e o pior de se fazer 30 anos? 
Jana:
Tudo depende da experiência de cada um. No livro, abordamos várias, permitindo que cada um se identifique mais com uma parte. Meu medo está mais relacionado à possibilidade de não ter dinheiro para viajar e viver bem, por exemplo. Outras pessoas podem estar mais interessadas em casar e em ter filhos ou em ser musa fitness. O mesmo vale para as autossabotagens, que são experiências individuais. 
Camila: Assim como muitas mulheres, meu medo é não encontrar o momento certo para ter filhos. Por isso, fico feliz quando leio notícias de pessoas que deram à luz aos 45 anos. Logo vem à minha cabeça, “dá para esperar mais um pouco”.

Analídia: Por que as pessoas devem ler “Enfim, 30”?
Jana e Camila:
O livro reúne diferentes perspectivas sobre essa idade e cada pessoa pode se identificar com um capítulo diferente. É um texto alegre e descontraído, adequado tanto para quem ainda não chegou aos 30 anos quanto para aqueles que já passaram por ele. Acreditamos que, quanto mais velha vamos ficando, menos importância damos a determinados assuntos. Por isso, o livro se torna uma leitura agradável com o passar dos anos. Aprendemos bastante escrevendo essa obra, que poderemos reler em alguns anos e analisar o que aconteceu ou não, dentro do que planejávamos. Avaliaremos se acertamos ou não nas previsões que fizemos. Além disso, essa capa é linda! 

Trintei!

“Ainda não surtei por ter chegado aos 30, mas a crise da mulher balzaquiana chegou para mim de outras formas. O que mais aprendi até agora foi que não se deve guiar pelo senso comum e que não vale a pena se preocupar com que os outros vão achar, pois, fazendo isso, paramos de sonhar e vivemos uma vida que é mais dos outros do que nossa. Com certeza, os 30 anos chegaram com uma vontade ainda maior de ser mais independente, criativa e sonhadora. O encontro com Jana Rosa e Camila Fremder não poderia ter acontecido em um momento melhor. O livro da dupla é o presente do ano, pois calhou com tantas coisas que passavam pela minha cabeça nos últimos tempos que parecia ter sido escrito para mim. Entrevistá-las foi ainda melhor, porque, além de extremamente bem-humoradas, elas não têm medo de dividir suas vivências, inclusive, as mais inusitadas. Agradeço à Revide pela oportunidade desse encontro e recomendo a leitura a todas as mulheres e homens, de qualquer idade, que precisam rir mais de si mesmos e aprender a desconstruir aqueles paradigmas que nos perseguem a vida toda. Boa leitura”. Analídia Ferri, jornalista.

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