A diplomacia em Letras

A diplomacia em Letras

Lauro Moreira, presidente do Conselho da Biblioteca Padre Euclides, utilizará sua experiência para dinamizar a Instituição centenária

Quem passa os olhos pelo currículo de Lauro Moreira não pode deixar de imaginar que ele é, no mínimo, um arquivo vivo de muitas histórias: como diplomata, serviu em Buenos Aires, Genebra, Washington, Barcelona, Marrocos e Lisboa. Este brasileiro também presidiu a Comissão Nacional para as Comemorações do “V Centenário do Descobrimento do Brasil”, de 1997 a 1999, foi diretor-geral da Agência Brasileira de Cooperação, de 2003 a 2006, e se tornou o primeiro embaixador do Brasil junto à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em Lisboa, entre 2006 e 2010. Acumulou experiências, culturas e registrou paisagens bem diferentes de Goiás, sua terra natal, ou do Rio de Janeiro e de Brasília, onde passou a maior parte de seu tempo no país.

Mas a trajetória que o remete, hoje, à presidência do Conselho da Biblioteca Padre Euclides começou bem antes da carreira diplomática: como militante da causa cultural e artística, dedicou-se às artes cênicas como diretor, ator e autor; ao cinema como documentarista, e recebeu inúmeros prêmios em fotografia, no âmbito nacional.

Em todos os postos que ocupou, investiu de forma especial na promoção das artes e da cultura brasileira, sobretudo em relação à música e à literatura em língua portuguesa: proferiu palestras, publicou textos e organizou recitais poéticos e musicais. Em 1998, lançou o CD duplo “Mãos dadas”, em que recita obras de poetas da língua portuguesa; em 2005, gravou o álbum “Manuel Bandeira: o poeta em Botafogo”, com interpretações próprias e do poeta, ilustradas com a música de Camargo Guarnieri; três anos depois, dedicou-se a outro CD duplo, com poemas de Marly de Oliveira. Criou, ainda, o grupo “Solo Brasil”, que já percorreu 20 países em quatro continentes e inúmeras cidades brasileiras, inclusive Ribeirão Preto, onde se apresentou em 2003, e recentemente na Feira Nacional do Livro, proporcionando ao público uma “viagem através da música do Brasil”, como ele define, com a apresentação de um painel com o que há de mais representativo na MPB do século XX.

Lauro é um apaixonado pelas artes. Aposentou-se da carreira diplomática, em 2010, depois de 45 anos de atividades. “Sempre acreditei no poder da cultura para estabelecer diálogos com todos os países, um pensamento que procurei transformar em realidade. Como sempre fui muito ligado à cultura, ao ingressar no Itamaraty, procurei projetar a cultura brasileira nos países por onde andei”, explica.

Em suas andanças em função da diplomacia, teve oportunidade de conhecer intimamente nações ainda jovens e bem próximas à sua pátria e percebeu que o Brasil tem muito a aprender com seus vizinhos. “No final da década de 60 e no começo da década de 70, Buenos Aires tinha mais livrarias e galerias de arte do que o Brasil inteiro”, ressalta Lauro. Mesmo considerando que o país sofreu inúmeras mudanças culturais de lá para cá, acredita que ainda há muito a fazer. O diplomata acrescenta que, apesar de o brasileiro ser extremamente criativo e produzir mais arte, perde dos argentinos na circulação dessa criação.  É na mudança desse contexto que o comprometimento, tanto dos representantes quanto da população, faz toda a diferença, conforme Lauro. “É preciso haver mais coordenação por parte das autoridades e mais empenho, interesse e iniciativa por parte da sociedade civil”, destaca.

A receita que ele aponta para alterar esse contexto cultural retrógado não é desconhecida e nem inovadora. Ao contrário, faz parte da retórica unânime dos estudiosos sobre o assunto: a educação. “Enquanto o Brasil não investir maciçamente, fazendo da educação a prioridade das prioridades, não conseguiremos transformar esse país”, assegura o diplomata. Para comprovar sua tese, resgata o contexto desolador da Coreia do Sul, no pós-guerra dos anos 50, quando foi dividida em duas partes. “Hoje, a Coreia está dominando o mundo porque investiu na educação, na formação e na capacitação do seu povo”, defende Lauro. Sem esse paradigma, de nada adiantam as portas abertas ao conhecimento pela internet já que, na concepção do diplomata, o saber ofertado na rede carece de filtro e, às vezes, é equivocado.

Apesar de todo o fascínio que a net exerce, sobretudo, nas crianças, o presidente do Conselho ressalta que o deslumbre é natural, mas não ofusca o interesse que os pequenos têm quando manuseiam um livro. “São atividades complementares. Esse contato físico com o papel tem que ser proporcionado desde a primeira infância se quisermos que o livro não concorra com a internet. Temos que fazer o que faz a Feira do Livro de Ribeirão Preto: levar crianças, criar salões especiais para elas, instigá-las a ter esse contato físico com o livro de papel, que é sempre encantador”, sugere Lauro.

Para que isso ocorra, no entanto, é preciso um local adequado. Um passo importante já foi dado: há dois anos, a Oficina Cultural Cândido Portinari passou a desenvolver atividades no auditório da Biblioteca Padre Euclides e a assumir obras fundamentais à Instituição centenária. Graças à parceria, a Padre Euclides está recebendo apoio da Secretaria Estadual de Cultura e pode resolver velhos problemas que colocam em risco seu precioso acervo, como cupins e infiltrações, o que dá um novo fôlego à Instituição. “A Biblioteca funciona normalmente. O problema é que a Padre Euclides não deveria ser somente uma biblioteca, mas um centro de atração, difusão e promoção cultural”, afirma o diplomata. Em outras palavras, Lauro pretende resgatar o projeto sonhado e posto em prática por Padre Euclides, em 1903, com a fundação da Instituição. 

A mentalidade do fundador justifica o fato da Biblioteca ter recebido, em mais de 100 anos, personalidades como Olavo Bilac, Coelho Neto, Santos Dumont, Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida e Júlia Lopes de Almeida. “Esse espaço representa uma grande riqueza cultural para Ribeirão Preto. Se ele foi criado há 103 anos e mantido naquele tempo, em que Ribeirão Preto era uma cidade tão pequena, como a cidade de hoje, uma das mais ricas do Brasil, não vai ajudar, apoiar e usufruir dessa biblioteca centenária?”, questiona o presidente do Conselho que, agora, pretende dinamizar a Instituição com a realização de promoções culturais, eventos, conferências, seminários, cinema e concertos, com o apoio do empresariado local. “Nossa luta, agora, é levantar empresas que possam ser inseridas num quadro de sócios beneméritos, contribuindo por um período inicial de três anos, para que a Biblioteca tenha recursos e cumpra a finalidade pela qual o Padre Euclides tanto lutou, assim como seus sucessores”, destaca.

Para deixar a Instituição com uma programação regular e consolidar a campanha de recursos para a manutenção da Biblioteca por um longo período, já foi finalizado o estatuto para o Quadro do Sócio Benemérito, que garantirá a manutenção do espaço, a contratação de funcionários para prolongar o funcionamento até as 21h, entre outras ações.
A contrapartida que Lauro pretende oferecer é trabalhar com afinco para conseguir levar para o auditório personalidades de peso em todas as áreas.

“Quero trazer artistas, literatos e poetas que poderão dar um grande apoio, o que acho mais importante, ainda, que as próprias verbas”, assegura o presidente do Conselho. Para isso, pretende usar os contatos que fez durante a carreira diplomática, como Denise Stoklos, Antônio Nóbrega e Roberto Correa, artistas que já participaram de vários projetos dele no exterior. “Temos que mostrar às novas gerações que existe essa Biblioteca e que se trata de uma Instituição centenária. Para fazer isso, nada melhor do que atrairmos esse público por meio de concertos, espetáculos, música, poesia, recitais e conferências”, finaliza Lauro.


Um reduto no centro nervoso da cidade
A Biblioteca Padre Euclides disponibiliza para o público aproximadamente 15 mil obras dos mais variados gêneros, de autores nacionais e internacionais, um acervo que é visitado por 50 pessoas ao dia, em média. Como um reduto no centro nervoso da cidade, a Biblioteca proporciona um lugar sossegado para a leitura de livros e jornais e proporciona a consulta à Internet, através de dois computadores. “Depois de adquirir a carteirinha, as pessoas podem retirar livros e filmes sem nenhum custo, destaca a bibliotecária Sônia Suely Barradas. Em breve, a Padre Euclides inaugurará o “Cantinho da leitura”, voltado especialmente ao público infantil. “Raramente somos visitados por crianças, e esperamos, com esse ambiente, atrair a atenção delas”, esclarece Suely. Nos dias 21 e 22 de setembro, das 10h às 14h a Biblioteca promoverá a 3ª Feira do Livro, evento em que obras repetidas do acervo são vendidas por preços que variam de R$ 2,00 a R$ 5,00.

Texto: Carla Mimesse
Fotos: Júlio Sian

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