A doença da moda

A doença da moda

Ao combinarem bebidas alcoólicas com má alimentação, jovens mulheres contribuem para o aumento da drunkorexic ou anorexia alcoólica

A nova mania entre as jovens adolescentes tem um nome estranho: drunkorexic. E não é uma mania saudável, pelo contrário, é motivo de extrema preocupação para os pais e profissionais de saúde. O termo, bastante utilizado nos Estados Unidos, passou a ser conhecido no Brasil como anorexia alcoólica e se refere a uma doença onde o paciente substitui alimentos por bebida alcoólica.

O consumo de álcool tem crescido rapidamente e significativamente entre as mulheres. Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Políticas Públicas de Álcool e Drogas da Universidade de São Paulo (USP) mostra que, na última década, houve um crescimento de 50% no número de mulheres que deram entrada em hospitais por causa da bebida. Entre os homens, o aumento foi menor, de 30%. O estudo traz outra informação que torna o problema ainda mais alarmante. oito milhões de mulheres brasileiras bebem excessivamente e cinco milhões já são consideradas alcoólatras. A pesquisa ainda comprova que o álcool, ingerido com o estômago vazio, é absorvido com mais facilidade pelo organismo.

Com a disseminação do consumo de bebidas alcoólicas entre as mulheres, o transtorno alimentar associado ao álcool, a drunkorexic, tornou-se mais comum e também mais conhecido. Recentemente o problema foi abordado em uma novela escrita por Manoel Carlos. Na ficção, a personagem Renata, interpretada pela atriz Bárbara Paz, reproduziu o cotidiano de muitas mulheres que deixam de se alimentar adequadamente e consomem bebidas alcóolicas de maneira exagerada.

A abordagem do folhetim televisivo serviu de alerta para os riscos da anorexia alcoólica, que pode levar à morte se o doente não buscar tratamento a tempo. Jovens e especialistas passaram a tratar a doença como um mal que precisa ser melhor e mais esclarecido, já que tem atingido muitas pessoas com pouca ou nenhuma informação sobre o problema.

"A novela abriu portas que até então se encontravam encostadas. A drunkorexic ainda era mito no nosso país, mas já contava com muitas pessoas que passavam por esse tipo de transtorno. A mídia fez o seu papel da melhor forma possível, mas não se pode parar por aí", afirma a psicóloga Monique Tobace Rampin.

Segundo ela, a doença atinge, principalmente, mulheres na faixa dos 20 aos 30 anos de idade. "O alcoolismo feminino está relacionado a transtornos psicológicos, muitas vezes ligados à anorexia, bulimia, depressão e ansiedade. O álcool diminui emoções ruins e, na anorexia alcoólica, inibe o apetite", explica a psicóloga.

A estudante Mariah Silva, de 25 anos, começou a fazer uso de bebidas alcoólicas quando entrou na faculdade e passou a frequentar festas. O hábito de beber virou vício e trouxe sérias consequências. "Após dois anos de faculdade, minha família notou que eu havia perdido muito peso. Eu acreditava que era pelo fato de me ocupar muito com a faculdade ou com as festas. Mas, após alguns comentários sobre a personagem da Bárbara Paz, tive uma pequena noção de que poderia estar desenvolvendo a nova doença e, a partir daí, comecei a maneirar um pouco", conta a estudante.

A estudante M.D., de 23 anos, está em tratamento no Alcoólicos Anônimos e afirma que ainda faz uso de bebidas alcoólicas para inibir o apetite. "Quando bebo, não tenho fome e a sensação de estar cheia é rápida. Então, como a bebida já alivia outros problemas, sempre que posso ou sinto fome procuro beber alguma dose forte", admite.

Outra estudante, Viviane Mendonça, revela seus medos com relação à doença. "Moro com meninas desde o início do ano e percebi que a alimentação delas é praticamente à base de álcool. Quase não há comida em casa e tudo é motivo para festa e bebida. Eu sei que isso não é normal, mas muitas se recusam a admitir que isso é uma doença e a tendência é piorar".

Os efeitos da bebida para o sexo feminino são mais perigosos. Pesquisas feitas em todo o mundo mostram que as doenças causadas pelo alcoolismo matam duas vezes mais mulheres do que homens. E para elas, as consequências do uso prolongado do álcool na saúde costumam aparecer dez anos antes.

Isso acontece porque o organismo feminino não consegue processar a bebida de forma tão eficiente quanto o masculino, causando o aparecimento de doenças graves, como distúrbios cardiovasculares, doenças hepáticas, câncer, osteoporose, anemia, distúrbios menstruais, perda excessiva de peso, além de alterações endócrinas. "Como os tecidos do corpo da mulher são formados com menos água e mais gordura que o dos homens, ela se torna mais frágil e, mesmo consumindo a mesma dose de bebida, a quantidade de álcool na corrente sanguínea da mulher é maior", explica a ginecologista Eliane de Freitas.

Além dos fatores emocionais, a preocupação exagerada com a estética também contribui para que as mulheres consumam mais bebidas alcoólicas.
A própria mídia, vendendo padrões de beleza e valorizando celebridades que sofrem com a anorexia alcoólica como as artistas internacionais Britney Spears e Amy Winehouse contribui para o aumento do transtorno.
"As mulheres estão bebendo com mais frequência para não comer ou parecer mais sociáveis. Infelizmente, a maioria não tem consciência do tamanho do problema que estão causando a si próprias", afirma a psicóloga Monique Tobace Rampin.

O tratamento é baseado em terapias comportamentais e acompanhamento nutricional. Em alguns casos, é recomendável que a paciente participe de reuniões do AA (Alcoólicos Anônimos) e outros trabalhos em grupo que minimizem os estragos causados pela doença. "Os jovens têm que deixar de apenas falar e seguir o slogan ‘beba com moderação’. O primeiro passo tem que ser deles. Nós, profissionais da saúde, claro, estamos aqui para auxiliá-los. Mas a cura de deve partir deles", enfatiza Monique.

O que é
Anorexia alcoólica é o alcoolismo associado a distúrbios alimentares, como anorexia e bulimia.

Principais sintomas
- Preocupação excessiva com o peso
- Evitar situações onde haverá alimentos
- Grande perda de peso
- Desnutrição
- Sinais de depressão, tristeza ou isolamento
- Sinais freqüentes de embriaguez
- Mostrar certa irritação, agitação e confusão mental
- Dificuldade de raciocínio

Tratamento
Acompanhamento multidisciplinar com nutricionistas, psicólogos, psiquiátricas, endocrinologistas e grupos de auto-ajuda.


Revide Online: Pâmela Silva
Fotos: Carolina Alves e Ibraim Leão

Publicada em 25/02/2011

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