A doença do século

A doença do século

A oneomania - ou loucura de comprar - atinge cerca de 3% da população brasileira de todas as classes sociais e pode ser considerada como a “doença do século”

Passado a euforia das festas de final de ano, algumas pessoas começam a contar os vestígios que as mesmas deixaram no bolso. Gastos com festas, presentes, por necessidade ou modismo, e gastos que proporcionam apenas o prazer da compra.  Mesmo com o acúmulo de dívidas, parte da população permanece gastando além da necessidade.

Esses são os chamados “compradores compulsivos” que, segundo o Ministério da Saúde, constituem  3% da população brasileira e sofrem de oneomania, doença relacionada a comprar em excesso.
Segundo a médica psiquiatra e psicoterapeuta de orientação psicanalítica Célia Bianco, a oneomania atinge todas as classes sociais e é predominante no sexo feminino. “A oneomania classifica-se como um transtorno não especificado no controle dos impulsos, onde a pessoa é chamada de consumidor compulsivo. Geralmente se inicia por volta dos 18 anos e se agrava por volta dos 35 anos de idade”, explica a médica.

O estudante Marcelo Pires, de 23 anos, percebeu que precisava de tratamento para sua compulsão quando usou os cartões dos familiares. “Demorei pra perceber que muitas coisas que eu comprava não eram necessárias para mim, tudo o que poderia durar um bom tempo se tornava descartável. Tive que fazer vários parcelamentos, que comprometeram não apenas a minha situação financeira, como também a dos meus pais,” conta o estudante.

Conhecida como a doença do século, a oneomania sofre variações de acordo com a personalidade de cada pessoa, porém a sociedade atual estimula o consumo, criando uma série de “armadilhas” que auxiliam na facilidade das compras: cartão de crédito, crédito pré-aprovado no banco, cheque especial, financiamentos, agiotagem, entre outros. “É claro que os mesmos estímulos não vão gerar os mesmos sintomas em todos os indivíduos, é necessário que fatores psicológicos se somem aos biológicos, aos culturais e ambientais para que uma patologia se desenvolva”, acrescenta Célia.

Para o economista Sérgio Nalini, a oneomania está ligada a velocidade com que os produtos de qualidade e caros chegam  ao Brasil. “Hoje estamos próximos de lançamentos simultâneos com o mundo todo. A onda consumista nacional é recente, entrada de novos consumidores no mercado, novos ricos”,  afirma.

Segundo pesquisadores a principal diferença entre o consumidor normal e o patológico é a ansiedade que surge quando o consumidor patológico não pode comprar e a impossibilidade de resistir ao impulso. Em sua maioria o comprar é indiscriminado, não importando o que será adquirido e sim o ato de comprar. Comprar se torna uma prioridade, importando pouco o orçamento e a utilidade do que se está comprando. “Sem motivos especiais às compras eram uma rotina, as roupas, especificamente, todo fim de semana era motivo para ir dar uma volta no shopping. Era obrigação sair de lá com alguma peça comprada, mesmo que eu soubesse que não iria usá-la,” admite o estudante.

Para Célia, a oneomania pode estar associada à dependência química, a sintomas depressivos, a transtornos alimentares e outros sintomas compulsivos. “A doença pode ser comparada a dependências químicas e a outras formas de compulsão. O prazer imediato e incomparável (êxtase) relacionado ao ato de comprar e o desaparecimento do mesmo pouco tempo depois da compra, com novos e compulsivos planos de comprar é a marca registrada da doença”, explica a psiquiatra.

A partir do momento que comprar vira uma condição quase normal para viver, surge o problema, a maioria das pessoas sabem que isso não deveria acontecer, mas a necessidade do ter fala mais alto e as pessoas passam a agir por impulso, comprando o que não podem. 

Uma pesquisa realizada pelo Serasa Experian, empresa especializada em análise de crédito, informou que a inadimplência do consumidor brasileiro cresceu 6,3%, na comparação com 2009, que por sua vez, havia sido registrado um crescimento de 5,9% da inadimplência na comparação com 2008.

Para a médica, a oneomania é um problema social, assim como o uso do álcool e das drogas, e precisa-se ampliar a discussão quanto aos cuidados a serem tomados em relação ao estímulo em direção ao consumo, pois a doença em seu estágio avançado, além de aumentar as dívidas pode causar prejuízo ao comércio e uma desestruturação social. “Cogita-se que em novas pesquisas a oneomania estará classificada à parte, devido ao aumento de sua incidência e pelas dimensões cada vez mais graves que acarretam na vida dos pacientes, tornando-se um problema social que preocupa inclusive as associações comerciais no mundo todo,” enfatiza.

Valdir Domeneghetti, mestre em administração de organizações e autor do livro Gestão Financeira de Fundos de Pensão, dá dicas para passar o ano todo sem grandes surpresas no orçamento. “Possuir primeiro os recursos para depois gastar, principalmente nos meses como dezembro e janeiro, que são carregados de compromissos (impostos, IPVA/IPTU, matrículas e material escolar, fatura de cartão de crédito, etc.). Veja, se você gasta mais do que recebeu de salário e décimo terceiro, com certeza irá levar o ano inteiro para equilibrar novamente as contas, gerando um ciclo vicioso, gastar antes, pagar juros caros, ficar estressado e repetir tudo novamente no final do ano, retroalimentando este ciclo”, explica.

O tratamento da oneomania é baseado em psicoterapias individuais, grupo de apoio semelhante aos Alcoólicos Anônimos (Devedores Anônimos),  acompanhamento psiquiátrico e outros trabalhos em grupo que minimizem os estragos causados pela doença. “A base do tratamento dos compradores compulsivos visa auxiliar o indivíduo a admitir para si mesmo, e para os demais, a sua oneomania. Vale lembrar que o melhor tratamento é a prevenção, dessa maneira, é muito importante ensinar desde a infância a ter uma relação saudável como o dinheiro e com o consumo”, explica a psiquiatra.

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Texto: Pâmela Silva
Fotos: Carolina Alves e Ibraim leão

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