A Dor do Silêncio

A Dor do Silêncio

Considerado problema de saúde pública, suicídio ainda é visto como tabu social, no entanto, estima-se que, no mundo, cerca de 800 mil pessoas tirem a própria vida todos os anos;

Enquanto uma pessoa enche um copo de água e toma, outra se suicida no planeta. A cada 40 segundos, alguém põe fim à vida, segundos dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Cercado de julgamentos e pouco discutido na sociedade, o tema causa estranheza, desperta sentimentos de vergonha e tristeza e acende diversos debates, especialmente no Setembro Amarelo, considerado o mês de prevenção ao suicídio. Para especialistas, discutir o assunto de forma clara e objetiva pode ser uma ferramenta poderosa para amenizar os casos.

A OMS afirma que são 800 mil mortes por suicídio todos os anos, sendo a segunda principal causa de óbito entre jovens com idade entre 15 e 29 anos, e destaca que cerca de 90% dos casos poderiam ser evitados se a vítima tivesse recebido ajuda de qualquer pessoa. No Brasil, a cada 45 minutos alguém morre por suicídio. Uma das maiores questões colocadas a profissionais da saúde e comunicadores está na dúvida sobre como abordar o tema sem induzir ao ato.

O auxiliar de enfermagem Daniel Magrini trabalha no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) III de Ribeirão Preto e atua como psicólogo voluntário de um grupo de psicoeducação voltado a dois aspectos: o suicídio e a valorização da vida. Não é de hoje que o graduado em Filosofia estuda o tema a fim de tentar entender esse fenômeno tão complexo.  “A literatura mostra que falar é a melhor solução. Expor o que sente traz alívio. Talvez, conversar com alguém em crise suicida pode não resolver tanto, mas dialogar com indivíduos que apresentam pensamentos de morte ou que estejam perdendo o sentido da vida pode ser mais viável”, destaca o profissional. 
“A literatura mostra que falar é a melhor solução. Expor o que sente traz alívio”, destaca Daniel
Depois de anos de estudos na área, apresentando-se em diversos congressos nacionais e internacionais, o especialista chega à conclusão de que agir é mais simples do que entender. “Dessa forma, eu ajo com o nível de conhecimento e humanidade que tenho sobre o assunto. As pessoas têm medo de quem apresenta um comportamento estranho, mas, indiretamente, você pode falar, seja perguntando se está bem ou oferecendo uma água. Talvez seja essa abertura que o indivíduo está esperando para desabafar”, conclui Daniel. 

Não apenas um fator pode levar ao suicídio, mas uma série de situações complexas, sendo muitas, ainda, desconhecidas. Problemas financeiros ou familiares, fim de relações amorosas, bullying, depressão, ansiedade, uso de drogas ou álcool podem ser fatores que, em algumas situações, levam o indivíduo a pensar em se matar. Quando se trata de depressão, considerado o mal do século, estima-se, de acordo com a OMS, que mais de 300 milhões de pessoas sofram com o transtorno no mundo. A doença psiquiátrica crônica produz alteração de humor que se caracteriza por uma tristeza profunda, ligada a sentimentos de dor, baixa autoestima, desesperança e culpa. 

Uma nuvem de interrogações
Como não percebi? Será que eu podia ter feito algo? Onde foi que eu errei? Se quem se foi levou consigo o motivo de ter tirado a própria vida, como responder a questões tão complexas às famílias que sofrem por uma resposta? O processo de luto frente ao suicídio é uma tarefa árdua, que leva muitos profissionais da saúde a se empenharem em fazer com que famílias passem por esse período de maneira consciente e integrada. Segundo a psicóloga Juliana Vendruscolo, há um peso nesse processo de questionamentos, que conduz, em muitos casos, a um sentimento de culpa. 
“Falar sobre suicídio não significa de forma alguma incentivar a prática, contudo, retirá-la do campo obscuro do segredo”, afirma Juliana
Outro aspecto relevante é a discriminação da família diante de perdas assim. Às vezes, o suicídio desperta vergonha, o que leva as famílias a pensarem que esconder o assunto causa menos dor. “Inicia-se, assim, um duplo sofrimento: o luto e a luta para manter uma mentira. Falar sobre suicídio não significa, de forma alguma, incentivar a prática, contudo, retirá-la do campo obscuro do segredo, da negação, para os campos da possibilidade, ainda que marcada pela dor. Penso que o caminho é abordar o tema de forma clara, sem a ideia de que haverá uma forma de combater a situação. É possível acolher as pessoas, sem recriminá-las”, completa a profissional, ressaltando que nem todo processo de luto precisa ser acompanhado por um profissional especializado, uma vez que se trata de um processo natural da vida. “Porém, se o modo como ele estiver sendo vivenciado for restritivo e ficar apenas voltado para os aspectos do luto sem oscilar para retomada dos aspectos da vida, é preciso de ajuda profissional”, observa. O luto, de acordo com Juliana, não ocorre em sucessão de fases que levarão ao término, mas é considerado um movimento contínuo, constituído pela oscilação entre as vivências dolorosas, a saudade, o recolhimento e o direcionamento para a vida. Nesse sentido, não há como apressar ou suprimir o momento.

Partilhando a dor
A simplicidade e simpatia da musicista Meire Genaro, companheira musical de Gilda Montans, escondem uma dor que por anos ronda a vida da acordeonista. A alegria dela, hoje com 74 anos, foi abalada, em 2007, com a notícia de que a filha havia tirado a própria vida. Essencial nesse processo, segundo ela, foi o apoio da psicóloga, que, desde o princípio, esteve ao seu lado, além, claro, de uma boa rede de amigos e familiares. “Sempre toquei e, então, comecei a fazer comida para vender aos amigos mais próximos. Ficava o dia todo na cozinha e me sentia bem”, lembra. Porém, o escape que provavelmente fez efeito na vida da acordeonista foi a religião. Há 28 anos, ela faz parte de um grupo de estudo bíblico que se encontra uma vez por mês para compartilhar experiências e falar sobre a vida, ferramenta que, na visão dela, é essencial para superar momentos de dor. “A música foi minha companheira, eu me esquecia dos problemas. Em primeiro lugar, é preciso ter fé, pois ela leva à aceitação. A espiritualidade nos faz vencer muitas barreiras”, destaca Meire, que deu força às três filhas, que, pouco a pouco, retomaram a rotina. 
“Em primeiro lugar, é preciso ter fé, pois ela leva à aceitação. A espiritualidade nos faz vencer muitas barreiras”, destaca Meire
Meire acompanhou de perto o sofrimento que insistia em encontrar morada na filha e, sempre que possível, estava aberta ao diálogo e a dar conselhos a ela, que convivia com a depressão. A musicista observa que se a pessoa começa a se retrair e colocar obstáculos para executar atividades do dia a dia, aí está o alerta. “É preciso falar sobre suicídio. Conversar sempre é um aprendizado muito grande, traz alívio. Partilhar a dor é importante nesse momento”, ressalta Meire, que não hesitou em declarar a vontade de ajudar outras famílias que padecem do mesmo problema.

Atenção aos jovens
Para Denise Dias, terapeuta e psicopedagoga, o suicídio requer atenção redobrada quando se trata de jovens. Um fator que os pais devem estar atentos é para as relações familiares, que, muitas vezes, são permeadas por liberdade em excesso. “Digo que há a síndrome do super-homem e da mulher maravilha: os filhos esbravejam que podem tudo e os pais não sabem falar não. É preciso mudar a situação para dizer sim. Crianças querem saber o porquê de tudo. Há um excesso de justificativa e, como consequência, jovens que não sabem lidar com as frustrações e rejeições”, pontua.
Denise afirma que é importante que pais revejam a convivência com os filhos
Além dos transtornos mentais, responsáveis por boa parte dos casos de suicídio, o bullying é um problema recorrente que pode estimular o ato. Segundo Denise, casos de isolamento, agressividade, permanência prolongada no celular, preocupação com a selfie perfeita ou com número de curtidas em postagens merecem ser observados. “Os pais não pegam o celular do filho porque se sentem invasores. Isso é culpa de uma distorção da educação que me incomoda muito, de que pai não pode falar não ou dar castigo. Importante é que pais também revejam a convivência com filhos, que sejam mais chatos. O não faz parte da vida”, finaliza a terapeuta.

Efeito devastador
A tecnologia, cada vez mais, faz parte do cotidiano de milhões de pessoas e está mudando as formas de relacionamento. Hoje, é quase impensável uma vida sem esse poderoso dispositivo. O hábito enraizado traz diversos danos à saúde e pode levar a complicações mais sérias, quando não tratado devidamente. Segundo Letícia Viana Sales, neurologista especialista em neurofisiologia clínica e doutora em psicobiologia, há três aspectos importantes a serem considerados quando se fala do celular. 
Passar mais de duas horas no smartphone já é um risco para desenvolver depressão, alerta Letícia
Primeiro, o uso excessivo de smartphones está associado a uma compulsão nem sempre percebida por quem utiliza. Essa atitude viciante está relacionada com o aumento de ansiedade, depressão e suicídio, bem como a qualidade e quantidade de sono da noite de cada indivíduo. Já desatenção para tarefas cotidianas e redução do convívio social são os outros sintomas que requerem atenção. A especialista afirma que passar mais de duas horas no smartphone já é um risco para desenvolver depressão, maior fator de risco para o suicídio. “Os excessos no celular reduzem a quantidade e a qualidade de sono. Estudos demonstram que adolescentes privados de sono, que dormem menos de sete horas por noite, apresentam um aumento de 68% de suicídio”, alerta a médica. 

O monge incentiva a prática da meditação, que leva ao autoconhecimento
À procura de Conhecimento
Segundo o monge Kojun Sensei, fundador da Comunidade Zen Budista de Ribeirão Preto, é imprescindível que as pessoas não sejam escravas umas das outras para situações básicas da vida. O que ele tem percebido, ultimamente, ao lidar com jovens, é justamente esse despreparo. “Precisamos nos conhecer. Se não fazemos isso, de que forma vamos responder às questões do mundo? Incentivo muito a prática da meditação, porque isso também leva ao autoconhecimento, que é a chave para que operemos no mundo”, observa.

O monge explica que há três venenos na mente humana: a ganância, a raiva e a ignorância. A prática do autoconhecimento é transformar esses venenos em três antídotos, como a generosidade, a compaixão e a sabedoria. “Não conseguimos lidar com nossos desejos. O problema não é tê-los e sim saber se são realizáveis ou não. Quando criamos uma fantasia de que podemos tudo, de que o mundo está para nos servir e que os pais devem continuar sempre oferecendo o melhor, temos um problema sério”, elucida o monge, que já pensou em suicídio e viu na meditação a saída para uma vida mais prazerosa.

“A escola precisa ser mediadora e intervir sempre em casos de bullying”, frisa Luciana
Combate ao bullying
A prática de atos violentos, intencionais e repetidos contra um indivíduo pode ser um dos motivos que leva uma pessoa a pensar em suicídio, causando danos físicos e psicológicos. Há 21 anos na área da educação, a diretora de uma escola de Serrana, Luciana Selegatto Leite, comenta que dentro do espaço é preciso trabalhar com muita transparência e o professor deve ser vigilante no momento de detectar um aluno cabisbaixo ou que pratica bullying. Quando o problema persiste, a conversa é com os pais. “A escola precisa ser mediadora e intervir sempre em casos de bullying para que isso não cresça e se torne algo maior. Trabalhar com as frustrações dos adolescentes também é muito importante”, ressalta a neuropsicopedagoga. 

Em março, quando dois adolescentes entraram na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP), mataram alunos e deixaram outros feridos, a instituição onde Luciana trabalha ficou agitada. Alunos estavam assustados e perguntavam constantemente sobre o ocorrido. Foi feita, então, uma palestra para alertar os pais. “Muitas vezes, eles não sabem o que acontece com os filhos. Conversando com os alunos, percebemos que existem aqueles que nunca foram ao cinema com os pais. Penso que falta mais companheirismo, solidariedade. É preciso ter mais diálogo e deixar de pensar no que gosto ou quero. Na escola, trabalhamos com a ideia de que cada um compartilhe sempre o que pensa”, destaca a diretora. 

“Se em toda sua existência uma vida for salva, o trabalho se justifica”, afirma Francisco
Ouvir também é a solução 
“Se em toda sua existência uma vida for salva, o trabalho se justifica”. É assim que Francisco Carlos Basílio Cardoso, coordenador do CVV de Ribeirão Preto, detalha o trabalho do espaço, com unidades espalhadas pelo Brasil, que realiza apoio emocional e prevenção ao suicídio. O CVV atende de maneira voluntária pessoas que querem conversar, sob sigilo, por telefone, e-mail e chat 24 horas, diariamente. “Trabalhamos no sentido de dar espaço a pessoas que querem falar e serem ouvidas. Na sociedade, quando alguém quer dizer sobre determinada situação que passa, sempre há uma interferência, não há espaço para se fazer um desabafo completo. Aqui, ela encontra essa abertura”, explica. 

O serviço conta com 35 voluntários, número que, segundo ele, é insuficiente para tanta demanda. Recebem, em média, no posto da cidade, 100 ligações por dia de todo o Brasil. “É preciso supervalorizar o que é bom, pois momentos ruins todos nós vamos passar. O CVV é mágico. Viemos doar, mas recebemos bem mais do que doamos. Temos até cursos em que aprendemos a nos conhecer. Temos pessoas que nos ligam há cerca de 30 anos. Talvez se não tivesse essa atitude, o desfecho poderia ser diferente”, reforça. Durante o mês de setembro, várias ações de conscientização ocorrem em pontos espalhados pela cidade. Quem não estiver bem e quer conversar, basta ligar 188.

Texto: Bruna Romão || Fotos: Ibraim Leão, Júlio Sian e Luan Porto

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