A dor que não fala
São apenas três letras que compõem uma palavra muito forte
Melhorar o modo de enfrentar e oferecer o máximo de qualidade de vida às pessoas que a sentem dor devem ser as principais preocupações das pessoas e dos profissionais da saúde. “A dor é algo natural do homem, como comer, dormir, respirar. Essa sensação é incomparável, porém, temos que aprender a lidar com ela”. Foi assim que Marília Castelo Branco descreveu o sentimento que enfrentou, várias vezes, em sua vida. Essa mãe e guerreira perdeu o pequeno Thales, com um ano e cinco meses de vida, que nasceu com a Síndrome de Edwards ou Trissomia do Cromossomo 18, considerada uma doença rara e severa, ligada à má formação genética. Mais do que isso, Marília transformou esse sentimento em algo solidário: criou a ONG Síndrome do Amor, que apoia famílias de crianças com síndromes genéticas severas.
A dor é uma condição inerente à existência humana, parte integrante do ciclo vital. Essa sensação é um fenômeno multidimensional, que envolve aspectos sensoriais e emocionais. Também é responsável por desencadear eventos para a defesa da vida do indivíduo, exercendo função protetora e perpetuando a espécie humana. Entretanto, diversas vezes, pessoas a sentem, mas têm dificuldade de descrever ou identificar. Mais do que isso, é tratada como se fosse outro problema ou uma doença física. Toda dor física tem um componente psíquico. “Quando percorro caminhos da avaliação de dor, compreendo sua função como comunicação importante da avaliação da pessoa com base em seu comportamento ou sinais de expressão“, explica Fátima Faleiros Sousa (foto à direita), professora titular da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP e líder do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Avaliação de Dor. Acrescenta, ainda, que essa sensação é sempre subjetiva, sendo que, cada indivíduo aprende o significado para o uso da palavra dor por meio de experiências desde o inicio da vida. “Entristeço-me ao passar em uma avenida perto de casa e observar uma cena repetida tantas vezes: a mãe abraçada com ‘apego’ a um animal de estimação e seu afeto maternal terceirizado para outro ser que empurra o carrinho de seu filho! A tendência dos bebês humanos a tornarem-se emocionalmente apegados é imprescindível para que eles adquiram recursos internos para elaboração do manejo da dor e do estresse”, observa a professora.
De acordo com Fátima, a empatia, o interesse, o acolhimento, a sensibilidade de escuta qualitativa são imprescindíveis na hora de conversar com uma pessoa que sente dor. “Sua função é alertar sobre nosso estado, nossa possibilidade de dano até sua efetividade. Acredito que haja uma linha tênue entre a possibilidade de loucura e a incapacidade de suportar dor, frustrações, enfim, a dor de existir em um mundo ambivalente, de paradoxos”, complementa a estudiosa. A fundadora da ONG, Marília, acrescenta que o difícil é sentir dor sozinho. “Ao lado da minha família, busquei uma referência. Afinal, eu tinha um compromisso com a alegria. Não foi fácil, fui ao fundo do poço, mas um dia coloquei na minha cabeça que tenho que viver alegremente, pois a vida é feita de dor e temos que aprender a lidar com ela”, recorda a responsável pela ONG Síndrome do Amor, que passou por uma depressão muito forte quando perdeu o filho.
O médico José Geraldo Speciali (foto à esquerda), responsável pelo ambulatório, de dor neuropática do Hospital das Clinicas e docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, concorda com Fátima e acrescenta que a avaliação de dor não deve ser função exclusiva dos médicos, mas de todos os profissionais ligados à saúde. É o que acontece nos países desenvolvidos, que dispõem de hospitais, com programas denominados “sem dor” em todas as alas, ou seja, os ambientes são humanizados. “O paciente hospitalizado sente-se longe e desambientado. Com um trabalho bem realizado, os profissionais da saúde possibilitam que essa pessoa que sente dor sinta-se melhor com o acolhimento recebido. O papel de todos os profissionais da saúde e demais cidadãos é melhorar o modo de enfrentar essa sensação e buscar qualidade de vida”, explica Fátima.
Foi o que, sem saber, Marília fez com seu filho. Logo que foi transferido para casa, a mãe fez questão de tirar as características de hospital do quarto. “Era muito triste entrar lá. Não tinha cor, víamos a cama especial, o respirador e todos os aparelhos. Devagar fui colocando cor, texturas, música e o ambiente ganhou vida. Junto com ele, Thales e toda a família passaram a sentir menos dor”, recorda a mãe, que humanizou não somente o espaço. “A grande dificuldade no tratamento é não estar atento à subjetividade, pois, mesmo depois de medicada, a dor continua no pensamento, na perspectiva das emoções, da memória, do homem inteiro. Por isso, a importância de um atendimento multidisciplinar, com o objetivo fundamental de abordar os aspectos emocionais”, explica a estudiosa. Segundo Fátima, no decorrer da vida, as pessoas enfrentam muitas situações que são consideradas difíceis, que envolvem a dor moral, a dor ética, a dor da perda e, principalmente, o lidar com a morte. “Por isso, é importante buscar os significados dessa sensação e torná-la o mais consciente possível. As pessoas necessitam aprender a enfrentar a dor”, complementa a professora. Speciali acrescenta que essa batalha deve ser enfrentada passo a passo, mas sempre com estímulo para vencer.
Para Marília, a superação foi difícil, mas não impossível. “Não me conformava com a perda de meu filho. Hoje, tenho isso bem resolvido, mas foi um processo lento e de muita insistência. Sentia-me culpada por ter sido causadora de uma doença genética. Acredito que a dor é um sentimento incomparável, por isso racionalizei essa sensação, construindo um grupo para ajudar, auxiliar e aproximar todos que passaram pela mesma tristeza da perda”, conta a líder da Síndrome do Amor. Com a experiência, a mãe só reafirmou que qualquer pessoa pode resistir à dor. “É a ambivalência do ser humano: somos e não somos ao mesmo tempo frágeis. Ela tem a sua função, mas precisamos enfrentar sem se acomodar com essa sensação, sem perder o desejo de mudar”, complementa a mãe.
Sinal Vital
A dor é um sintoma e uma das causas mais frequentes da procura por auxílio médico. O seu reconhecimento como o quinto sinal vital foi citado pela primeira vez em 1996, por James Campbell, então presidente da Sociedade Americana de Dor. O objetivo foi elevar a conscientização entre os profissionais de saúde sobre a necessidade da avaliação para eficácia do tratamento. Campbell afirma que se a dor fosse avaliada com o mesmo zelo de outros sinais vitais, haveria uma chance melhor de promover tratamento adequado. A pesquisadora Fátima Faleiros Sousa e sua equipe elaboraram um inventário que inseriu o Brasil no cenário mundial de avaliação e de mensuração da dor. O estudo foi aceito pela Sociedade Portuguesa de Dor como referência para implantação do quinto sinal vital nas instituições de saúde, junto com as já preconizadas avaliações da temperatura, pulso, respiração e pressão arterial. “O somatório desses indicadores, objetivos e subjetivos, propicia uma análise mais precisa da dor de cada indivíduo, considerando-a como descrita por quem sente o sintoma. Importante destacar que, não só precisamos avaliar se o paciente tem dor ou não, mas também o quanto de dor e que características e significados são obtidos por meio da tão necessária escuta”, afirma Fátima.
O conceito de dor é algo antigo e, muitas vezes, distorcido. Conforme explica José Geraldo Speciali, algumas persistem, mesmo após a cura da doença. “Esse tipo tem um fundamento neurológico: a chamada dor neuropática, causada por lesões no sistema nervoso. Pouco divulgada, aparece nos exames clínicos. Muitas vezes, esses pacientes são encaminhados para médicos, psicólogos e psiquiatras e as dores são tratadas como se fossem somáticas ou psicológicas. A dor somática é um tipo provocado por lesões, originada nos ossos, articulações, músculos e tendões”, afirma o médico, enquanto que a dor neuropática é ocasionada por lesões do sistema nervoso central ou periférico. Por causa desses vários tipos de dor e pelo envolvimento emocional que ela traz, sua compreensão não deve ser vista como uma especialidade médica, mas sim como um problema a ser estudado por todos os profissionais da saúde.
A dor neuropática, apesar de ser crônica, é pouco diagnosticada e insuficientemente tratada. De acordo com o médico, o tratamento é muito diferente dos demais tipos, pois em vez de analgésicos e anti-inflamatórios, prescrevem-se antidepressivos, antiepilépticos, estabilizadores de membranas neuronais, entre outros medicamentos. “Além disso, a prevalência da dor neuropática é alta. Ela atinge 10% dos adultos jovens e 30% após os 65 anos. As mais conhecidas estão relacionadas ao diabetes e à dor ciática”, explica Speciali. O professor destaca também a Síndrome da Ardência Bucal e a Síndrome das Pernas Inquietas. Ambas são, provavelmente, de origem encefálica e consequência de uma desmodulação do neurotransmissor dopamina.
Obras que retratam a dor
A obra de arte para um artista moderno como Picasso cumpre sempre uma função social. Quem observa a tela de Guernica se depara com figuras que expressam aflição, dor, insegurança, sofrimento, como a mulher com a criança no colo e o cavalo. As cores usadas pelo pintor em tons cinza e nas cores preta e branca remetem à morte, ao horror, ao desumano, à guerra e à destruição. São figuras que, no conjunto da obra dão a ideia da luta, da violência acontecida no vilarejo espanhol e ao mesmo tempo representam o recomeço, a esperança de um povo inocente que se viu massacrado pela ambição de outros. De acordo com Fátima, são formas de expressar a dor. “O quadro de Picasso simboliza, no horror destrutivo da guerra, principalmente a dor da perda do filho, a mais severa das dores do existir. A obra ‘O Grito’, pintado por Munch, simboliza a angústia, o filme ‘Os Miseráveis’, inspirado em clássica obra do escritor Victor Hugo e as inúmeras músicas e poesias expressam o sofrimento”, explica a estudiosa.