A educação pela arte
Unindo o desenho à escrita em uma forma lúdica de ensinar, Arnaldo Martinez de Bacco Júnior coloca suas grandes paixões em uma metodologia que tem rendido frutos para além das salas de aula
Se uma pessoa atira uma pedra no rio, formam-se ondas em todas as direções, atingindo proporções bem maiores do que a pedra em si. É desta forma que Arnaldo Martinez de Bacco Júnior define o trabalho que desenvolve: uma pequena atitude se alastra por diversos outros campos e forma uma grande rede que integra educação e arte, nas suas mais diferentes frentes de atuação. A pedra, no caso, é seu trabalho — escrito e desenhado em fazines, quadrinhos, cartilhas e livros — que resultou em uma nova metodologia de ensino que foi além das salas de aula.
Graduado em História e em Pedagogia, mestre em Educação pela Unesp e doutorando em Educação pela Universidad Nacional de Rosário, na Argentina, Arnaldo é professor, poeta, escritor, zineiro, quadrinista e ilustrador. Desde os anos 80, esses papéis se revezam e se complementam resultando em um acervo riquíssimo e um legado que já está estabelecido. Seu filho, Arnaldo Martinez de Bacco Neto, partilha da mesma metodologia e produz os próprios conteúdos, seja sozinho, na companhia do pai ou com outras parcerias. Agora, mais uma geração está sendo tocada e a neta, Ana Júlia, de dez anos, destaca seus primeiros traços no universo dos fanzines. Na entrevista a seguir, Arnaldo conta dos primeiros rabiscos às formas que seu trabalho foi delineando e as ondas que tem provocado nesse percurso.
A partir de que momento o desenho e o texto começaram a conviver no seu trabalho?
Eu desenho desde sempre e desenhava em sala de aula, inclusive. Em 1975, um professor disse que eu deveria procurar um jornal para publicar o meu trabalho. Comecei a fazer umas tirinhas, umas charges políticas. Não ganhava nenhum dinheiro, mas fazia o que sabia e gostava. Eu tinha uns 14 anos e essas foram as minhas primeiras publicações. Nesse período, passei a frequentar um grupo de jovens da Igreja São Pedro Apóstolo, no Ipiranga, onde eu morava. Embora não fosse católico, aquela experiência me deu mais consciência política. Foi aí que produzi o que considero meu primeiro fanzine, o “Já Saiu”, junto com o Vladimir Lage, hoje advogado.
Qual era o conteúdo que publicava, naquela época?
Éramos meninos e pegávamos as principais notícias de interesse da classe dos trabalhadores e fazíamos charges. Era o embrionário de um fanzine, na verdade. Fazíamos cartilhas também. Alguns trabalhos eram impressos em mimeógrafo elétrico, desenhados com a ponta seca do compasso, e rodávamos o material na pastoral. A ideia era usar a linguagem de fanzine para chegar ao trabalhador.
Quando decidiu levar essa linguagem para a sala de aula?
Quando entrei na faculdade de História, parei um pouco de desenhar. Em 1986, comecei a lecionar. A ditadura tinha recém-acabado, havia ainda certo temor no ar e os livros didáticos não contemplavam todos os conteúdos. Eu comecei a fazer apostilas. A primeira foi sobre a história do Dia do Trabalho, abordando a Revolução Industrial, as greves e diversos outros aspectos para os meus alunos. Foi uma produção interna. Depois, fiz uma adaptação da carta do Cacique Seattle. Como não se falava em ensino étnico-racial, fiz, também, um trabalho sobre a história do povo negro no Brasil. Assim foi acontecendo: desde um conteúdo mais livre até as adaptações.
Como foi a aceitação dos dirigentes de ensino?
Por incrível que pareça, antes era mais tranquilo, tínhamos mais liberdade para trabalhar. Como sempre me embasei academicamente, a aceitação mais fácil. Quando os alunos começam a produzir, a situação fica um pouco mais difícil porque envolve trabalho em grupo, o que mexe, de certo modo, com a rotina da escola. Isso nem sempre é bem visto, mas, quando vem o resultado, todos elogiam, querem enviar para a Secretaria da Educação, para a Diretoria de Ensino. Enfim, esse ainda não é um espaço conquistado, mas está sendo. Por outro lado, estamos vivendo um momento muito complicado, falando em conjuntura nacional. A Base Curricular Nacional Comum, com as novas medidas do governo e a reforma do Ensino Médio, pretende um retrocesso imenso. Acho que agora vou ter que produzir cada vez mais material, pois as novas diretrizes limitam, inibem e retiram muito conteúdo. Minha preocupação é mostrar que a história é feita pelas pessoas comuns. Esse é o norte do meu trabalho professoral.
Você enfrentou resistência?
O aluno é protagonista, participante do conteúdo. A secretária de Educação de São Simão, Ana Paula Bonagamba, conheceu o trabalho do meu filho numa escola, na qual ele era coordenador, e nos convidou para realizarmos uma oficina em outra escola, que atende a crianças com necessidades especiais, algumas com comprometimentos severos. O resultado foi positivamente surpreendente, provando que toda criança tem direito a aprender e que toda criança tem direito a ser feliz. O Neto também levou essa metodologia para o sistema prisional, com 200 detentos, em Serra Azul, num projeto de literatura e criação de fanzines. Agora, a Diretoria de Ensino pediu para que eu fizesse a capacitação com professores da rede, começando pelos de História, Língua Portuguesa e Artes. Até o pessoal de Matemática se interessou pela linguagem. Enfim, a rendição é maior do que a resistência.
Seu filho usa da mesma metodologia. Como é essa experiência, ou melhor, troca de experiências?
O Neto nasceu nisso e começou num momento em que essa metodologia já era bem aceita. Sua primeira formação é em Administração, área em que atuou por um tempo. Depois, começou a lecionar História, sua segunda formação, em 2013, na periferia. Ele foi para uma escola que não tinha material nem acesso à internet e a filmes. Começou, também, a desenhar na lousa. Quando o aluno aprende de forma lúdica, ele se interessa. Aliás, um dos pilares da UNESCO para o século XXI é o aprender a fazer. Estamos condizentes com isso. O aluno produz o quadrinho, pesquisa e faz a própria produção. Nós trocamos muitas ideias e trabalhamos bastante juntos. Temos, inclusive, um zine em parceria, chamado “Arnaldos”.
Quais aspectos de aprendizagem são trabalhados, além dos conteúdos das disciplinas?
Quando o aluno trabalha produzindo o fanzine, o conteúdo entra pela parte onírica do cérebro, a parte de encantamento, então, ele acredita que esteja se divertindo. O resultado é muito grande. Antes de fazer um fanzine, o aluno tem que pesquisar, buscar informações em livros, em uma fonte segura. Ele tem que entender de matemática para fazer as margens, medir os quadrinhos com a régua. Esse envolvimento gera menos indisciplina em sala de aula porque os alunos não estão só ouvindo, eles estão produzindo, são protagonistas. O que o adolescente quer é um canal de comunicação, quer ser ouvido. Quando ele está desenhando, está criando o mundo dele. Quando o trabalho é concluído, os zines são trocados, não só na sala de aula, mas em toda a escola. Isso promove a socialização.
Você tem uma técnica de desenho mais apurada, mas isso não é um pré-requisito para os alunos. De que forma eles se expressam?
O importante não é o saber desenhar, mas expor a ideia. Isso é produzido em conjunto: um faz o roteiro, o outro a colagem, o outro a montagem, mas a pesquisa é feita por todos. É um trabalho coletivo. Muita gente diz que os alunos são muito digitais. Na verdade, o adolescente gosta de qualquer coisa que o divirta. A partir do momento que esse acesso é recuperado, eles se interessam. Uma prova disso é o Japão, um país extremamente tecnológico, com tiragem de gibis de um ou dois milhões semanais.
Como você tem contribuído para expandir esse acesso?
Além de todo esse trabalho de produção nas escolas, estou organizando uma gibiteca em sala de aula, uma sala ambiente na rede pública. Isso abrange desde o quinto ano até a faculdade. O quadrinho é uma linguagem universal, sem delimitação de faixa etária. O Estado é o maior comprador de quadrinhos do Brasil, porém os professores não trabalham isso. Os conteúdos de clássicos da literatura nacional, como Aluísio de Azevedo e Machado de Assis, já estão quadrinizados, mas os professores não trabalham com essa linguagem. Existe um preconceito muito grande em relação aos quadrinhos porque muitas pessoas pensam que é só para criança, algo infantil e infantilizado, mas essa linguagem atinge todo mundo.
Os adultos assimilam com facilidade o conteúdo dos fanzines no aprendizado?
Hoje, eu trabalho em um projeto muito interessante, da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto, que é o Ensino de Jovens e Adultos por meio de plataformas digitais, Eja On Line. Como não poderia deixar de ser, meus quadrinhos estão lá também. É um trabalho narrado pelo texto, mas outra história, paralela, narrada pela imagem. Não tem barreira de informações para a história em quadrinhos, pois a imagem ajuda a compreensão. Eu uso traços que estejam bem próximos do universo do público. Geralmente, os alunos do EJA são adultos que estão se alfabetizando fora do tempo e o material que chega é direcionado para crianças, tanto texto quanto imagens. O quadrinho é universal, engloba a todos. A minha lousa é uma página de quadrinhos. A imagem contribui demais no aprendizado, ela fica na cabeça e nunca mais sai.
Em determinado momento, você parou de desenhar. Como foi a retomada?
Em 2013, quando o Cordeiro de Sá lançou o RPHQ, eu fui ao Salão de Ideias, o pessoal me reconheceu e me resgatou para as histórias em quadrinhos novamente. Passei a publicar minhas criações no Facebook e fiz o livro “Garota Perigo”, que marca, praticamente, meu retorno ao desenho. Depois, lancei com o Sá, através de um projeto de investimento coletivo, o “Cospe Fogo”, em que escrevemos cordéis e ilustramos em quadrinhos. Eu ilustrei os cordéis do Sá e ele os meus. Foi um baião de dois mesmo. Esse texto foi adaptado como peça de teatro em uma escola municipal na qual eu não atuo. A professora comprou o livro e se encantou tanto que decidiu adaptar para o teatro.
Que outros livros são de sua autoria?
Sozinho, eu fiz alguns livros: “Algumas palavrinhas”, de poesia, que fiz para os meus netos; “O palhaço que era triste”, usando uma plataforma de livro virtual; e “A panela amarela”. Por meio do Facebook, conheci o André Oliveira, também escritor de livros infantis, e firmamos uma parceria. O primeiro resultado foram os “Poemas siderais”, publicados pela editora Franco, meu primeiro livro com editora. Nessa obra, estamos eu, o André, o Marciano Vasques, que idealizou o projeto, mas faleceu antes da conclusão, e o Alexandre Azevedo. As ilustrações são do Renato Andrade. A nossa conversa com a literatura foi se afinando de tal forma que — eu já tinha feito “O menino que falava com as mãos”, sobre um menino com deficiência auditiva — surgiu o “Dani Down”, que trata de maneira poética sobre um menino com síndrome de down. Vamos reescrever e fazer adaptações no “O menino que falava com as mãos” e estamos terminando “A menina mais veloz do mundo”, uma cadeirante, e montar uma coleção.
As artes promovem grande interação entre cada uma das suas frentes. Que outras áreas a sua produção alcançou?
A Mirian Fontana, contadora de histórias, fez adaptação do “Dani Down” num projeto do Sesc e o sucesso foi tão grande que ela repetiu a dose na Feira do Livro deste ano. Este é um ciclo que se desenvolve: um texto de quadrinhos vira uma peça de teatro, um livro vira uma contação de história, que vira um teatro, que vira um musical. Tudo gera conteúdo. Tudo está ligado à escola, à educação, à educação pela arte, à educação pelo lúdico, à educação de baixo para cima e não de cima para baixo.
A partir de que momento você percebeu que seu trabalho estava ganhando grandes proporções?
Nós temos um grupo que se reúne para desenhar. Fazendo os fanzines, sentíamos a necessidade de trabalhar isso de uma forma mais contundente, que as pessoas tomassem conhecimento, não só os alunos. Por intermédio de uma amiga, a Maris Ester Souza, presidente da Casa do Poeta, conseguimos fazer um Salão de Ideias, na 15ª Feira do Livro, que teve uma repercussão muito grande. Paralelo a isso, fizemos uma série de oficinas, algumas com crianças de acampamentos Sem Terra, outras com crianças especiais. Isso nos levou a dar uma palestra no Espaço Continuum e, a partir daí, surgiu a ideia de levar essa experiência para o Salão de Ideias de novo, na Feira do Livro de 2017. Outro aspecto muito importante —também relacionado à Feira do Livro — é a nossa parceria com o Ignácio de Loyola Brandão. No nosso Salão de Ideias deste ano, ele escreveu alguns textos e nós desenvolvemos quadrinhos.
A parceira com o Loyola Brandão rendeu novos projetos. Quais são eles?
A parceria com Ignácio de Loyola Brandão no salão deste ano, no qual fizemos a releitura de suas obras na linguagem dos quadrinhos e zines, vai se transformar num projeto permanente da Feira do Livro, o Recortando Palavras, e envolverá escolas públicas e particulares de Ribeirão Preto e região, além de entidades de assistência a crianças e idosos, numa ação que incluirá zines, quadrinhos, educação e inclusão social, formando novos leitores/autores. Zines, quadrinhos e educação abrem, enfim, um diálogo possível e necessário.
Quais são seus projetos futuros?
André e eu estamos preparando o lançamento, em Ribeirão Preto, do “O maior campeonato de todos os tempos”. Além disso, levaremos em frente esse projeto de literatura voltada para crianças com necessidades especiais. Tenho também um projeto de educação ambiental, “Um canto e meio”, junto com o Evandro Navarro, o Véio, que inclui música e poesia. Tem, ainda, o projeto Versos em Brasa, sobre cordel, que já estou fazendo com o professor Marcio Fabiano, envolvendo várias mídias diferentes em torno dos versos. Por fim, estamos conseguindo levar os quadrinhos e os zines para vários espaços, para além dos muros das escolas