A era do atalho

A era do atalho

Espalhadas pela internet, as informações estão acessíveis a um simples clique. É nesse contexto que as hashtags ganham destaque, encurtando caminhos, filtrando e direcionando conteúdos

Se antes os millennials ou  a Geração Y formavam a nomenclatura mais moderna para definir a nova linhagem, nascida entre 1980 e 1990, os centennials ou Zs, nascidos a partir dos anos 2000, atualizaram esse conceito, chegando para revolucionar, principalmente, as linguagens e estabelecer novas maneiras de comunicação. Eles consomem a informação apenas com um clique. Se esse clique demorar muito para carregar, mudam de tela, de notícia, de objetivo. Enfim, a comunicação deve ser rápida e direta. Nesse cenário, a hashtag — palavra-chave antecedida pelo símbolo #, identificando um determinado tema — é uma forte aliada, pois encurta os caminhos nas redes sociais e vai direto ao ponto.

Os centennials já chegaram ao mundo conectados e não largam o celular. Para muitos especialistas, são eles que definirão o futuro dos negócios e estabelecerão as novas profissões no futuro. A Geração Z  está bem interessada em manifestar indignação por problemas sociais, criando expectativas e análises reais sobre tudo. Para isso, em muitos casos, apropriam-se das hashtags como filtro para busca do assunto ou mesmo como aglutinador de ideais. O hábito, no entanto, não fica restrito apenas aos centennials. Como importante ferramenta das redes sociais, expandiu-se como mecanismo para todo e qualquer usuário, independente da geração a qual pertence.
Para Rafael, o uso das hashtags, funciona como uma tatuagem na linguagem, na qual o  sujeito digital se articula para se expressar
A adesão das hashtags se tornou popular, primeiramente, no Twitter e, depois, disseminou-se para o Facebook e o Instagram. Elas viram hiperlinks dentro da rede e, assim, outros usuários podem ter acesso às demais publicações relacionadas ao tema. Do ponto de vista antropológico, para Rafael Cardoso, coordenador de graduação e pós-graduação em História no Centro Universitário Barão de Mauá e professor de Filosofia e Sociologia do Liceu Albert Sabin, a sociedade está sendo ressignificada pela internet e, neste sentido, é preciso pensar que o processo comunicativo também faz parte dessa transformação. 

O uso das hashtags, para o professor, funciona como uma tatuagem na linguagem, na qual o  sujeito digital se articula nesse meio para se expressar mediante o grupo social a que pertence. Segundo Rafael, é como se fosse uma forma de chamar a atenção e, ao mesmo tempo, fazer-se presente na coletividade e ganhar identidade na relação entre o “eu” e o outro. “Tanto para a filosofia quanto para as ciências sociais, em geral, a internet se trata apenas de mais um avanço e evolução que, de certa forma, gera novas formas de compreensão e, assim, novos comportamentos. Talvez em consequência disso, a geração digital estabeleça relação com outros tipos de hierarquia que transformam a comunicação entre eles”, explica Rafael. 

Bombou nas redes

As hashtags são tão difundidas que seu uso já extrapolou o universo on-line. Elas não funcionam apenas como marcadores de tópicos e agregadores, mas também marcam a chamada de um post, agregam informação sobre um tópico, socializam e compartilham experiências, fornecem informação adicional e/ou metadados, fazem marketing e/ou branding pessoal, expressam atitudes, opiniões, emoções e avaliações, iniciam movimentos e difundem pontos de vistas e filosofia. Algumas delas lideram rankings no Twitter, no Facebook e no Instagram.  

Um exemplo de grande repercussão nas redes sociais foi a greve dos caminhoneiros, em 2018, apoiada pelos internautas por meio das marcações #GrevedosCaminhoneiros e #EuApoioaGrevedosCaminhoneiros, que estiveram 406 mil vezes no trending topics do Twitter do Brasil e do mundo. Afora um evento ou movimento específico, as hashtags mais populares são: #love, #instagood, #me, #cute, #tbt, #photooftheday #instamood, #iphonesia, #tweegram e #picoftheday.

Patrícia comenta que o uso das hashtags em campanhas sociais é benéficoPara Patrícia Cristina de Lima, publicitária e professora no Centro Universitário Moura Lacerda, o uso das hashtags objetiva a integração. Quem as usa marca presença no grupo de pessoas ao qual pertence. “Usar a hashtag mostra que o sujeito está inteirado e é capaz de pertencer à demanda que aquele universo da rede está solicitando em um determinado momento”, explica a publicitária.

Todo cuidado é pouco 

Assim como qualquer item da internet, de acordo com a professora, o bom uso deve ser cauteloso e os riscos começam quando há uma necessidade constante de citar os assuntos apenas com as hashtags, independente do contexto. Para Patrícia, a linguagem da internet permite adaptações, no entanto, o que se vê em muitos casos é o uso desses termos como substituição à construção completa da frase. “Quando o usuário consegue separar as situações, não há problemas, entretanto, o que se vê é a aplicação disso em ambientes impróprios, como no trabalho, por exemplo”, alerta. 

A diferença, de acordo com a especialista, é que, hoje, não há mais migração de uma rede social para outra e, sim, a concepção de novas redes que se formam para questões e por pessoas que antes não poderiam acessá-las, por razões geográficas ou por ideais. Entretanto, muitas vezes, essa facilidade de acesso gera grupos de pessoas que interagem apenas on-line e se esquecem da “vida off-line”. 

A tela do computador ou smartphone, para Patrícia, nestas situações, torna-se uma espécie de máscara, que oculta defeitos e valoriza a felicidade. “Se a ideia é integrar ou chamar atenção para algo necessário, como campanhas sociais, por exemplo, seu uso é sempre benéfico.  O que não podemos ter é a hashtag como forma de exclusão ou ofensa. As eleições de 2018 mostraram isso: lados opostos se atacavam usando termos chulos e aproveitando a leitura dos algoritmos para propagação de fake news”, acrescenta Patrícia. 

O poder transformador de uma hashtag

Quando Alissa estava com dois meses, a mãe, Priscila Furlanetto Augusto, de 34 anos, percebeu que a filha não sustentava o pescoço como a maioria dos bebês nessa idade. Foram muitas idas a especialistas que diagnosticavam outras doenças, entre elas, o torcicolo congênito. Depois de muita busca, alguns exames e muitos tratamentos sem sucesso, Alissa continuava sem o desenvolvimento motor adequado. Com um ano e cinco meses, foi encaminhada para o geneticista e, então, comprovada a Atrofia Muscular Espinhal ou Amiotrofia Espinhal (AME), uma doença degenerativa de origem genética. “Apesar de ter sido um momento triste, víamos uma luz no fim do túnel, porque tínhamos a confirmação do que a minha filha tinha, de fato”, relembra Priscila. 

Confirmado o diagnóstico, era preciso encontrar uma forma de aderir ao tratamento. Cada dose do único remédio indicado para frear a doença, o Spinraza, custa R$ 364 mil e, em média, os bebês devem tomar seis doses para estabilizar a AME. Além do medicamento, Alissa precisou de um andador específico para auxiliar a locomoção, sessões de hidroterapia e hipoterapia. Para conseguir o valor, tanto da medicação, quanto dos demais equipamentos, a mãe criou a campanha #AmeAlissa nas redes sociais e, periodicamente, faz bingos, venda de pizzas e galinhada. “As pessoas acham que a campanha é apenas para comprar o remédio, mas não é só isso. É um atendimento multidisciplinar que auxilia na qualidade de vida da Alissa e, normalmente, é caro”, comenta a mãe. 
Priscila encontrou na #AmeAlissa uma forma de angariar recursos para o tratamento da filha
O #AmeAlissa, para Priscila, tem um objetivo ainda maior: levar informação e inclusão sobre a doença para mais pessoas. Assim como as redes sociais a ajuda a esclarecer dúvidas sobre a AME, Priscila está criando um grupo de mães de filhos com doenças raras para trocar experiência, tirar dúvidas e se ajudarem na caminhada rumo à cura da doença. “Pretendemos nos encontrar semanalmente e a tecnologia é uma grande aliada que atua como uma facilitadora também para promover encontros com uma rede de mães com a mesma rotina que a minha”, acrescenta Priscila. 

Para informar e esclarecer

Uma equipe multidisciplinar composta por técnicos de enfermagem, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, nutricionista, terapeuta ocupacional e médicos de diversas especialidades: esses são os profissionais que fazem parte da rotina de Gabriel Freitas Roberto, de dois anos. A mãe Sabrina Matthes, fisioterapeuta, descobriu ainda na gestação a Síndrome de Pfeiffer do tipo 2, doença que provoca deformidades no crânio e na face, além de alterações neurológicas, surdez e problemas na visão. Além do acompanhamento no Hospital das Clínicas, em Ribeirão Preto, o tratamento domiciliar ultrapassa os R$ 25 mil mensais. Parte dele é custeada pelo convênio médico, depois de uma liminar na justiça e, o restante, pelos próprios pais. 
Para Sabrina, o uso das hashtags se tornou um canal de troca de experiência e de disseminação de informações sobre a rotina de Gabriel
A página no Instagram @diarioespecialsabrinamattes, com 21,3 mil seguidores, é abastecida com informações sobre a rotina do pequeno Gabriel. “A intenção, em princípio, era que as pessoas conhecessem a história, sentissem empatia e não estranhassem a aparência física dele”, explica a mãe. Com o passar do tempo, a página ganhou repercussão mundial e passou a ser uma ferramenta que funciona como um diário e, de certa forma, ajuda outras mães que têm filhos especiais. “Hoje, recebo mensagens de pessoas de várias partes do mundo, seja para saber o que o Gabriel tem, para me oferecer uma palavra de conforto ou para trocar experiência. O Instagram se tornou um diário especial onde eu posso mostrar todo o amor que tenho por ele e pelo meu outro filho”, acrescenta Sabrina. 

Precedidas por #amorpelosraros, #esefosseseufilho, #euempurroessacausa, #pfeiffersyndrome e  #bbespecial, as postagens sempre são acompanhas por uma palavra de motivação, estímulo e fé em Deus. “Gabriel transpira amor, não tem como não se apaixonar por essa riqueza. Cada detalhe dele é uma pintura do amor de Deus por nós. Milagre vivo, minha esperança e minha fé se tornam fortalecidas em cada sorriso esboçado por ele. Forte, ama a vida e me mostra a cada instante, que tudo pode ser superado”, finaliza. 

Sem exageros

As amigas Marcela Ferreira e Melina Cais agrupam nas redes sociais informações sobre moda, gastronomia, viagens e compartilham momentos da vida, sempre com um post especial direcionado para os quase 13 mil seguidores do Universo de Saia no Instagram ou os 10 mil membros do grupo que mantêm no Facebook. Além das duas mídias, elas também têm um blog hospedado no Portal Revide. As amigas exploram o uso das hashtags em publicações com promoções, serviços, produtos, eventos culturais, atualidades, entre outros. Para elas, o interessante é criar as próprias hashtags, pois, desta forma, o conteúdo tem garantia de maiores visualizações. “É interessante criar as próprias hashtags para melhorar a imagem do conteúdo e/ou marca”, conta Marcela.
Marcela e Melina apostam em hastags específicas e não apenas nas genéricas
Ela ainda afirma que o uso desse recurso proporciona visibilidade para o conteúdo, bem como fortalece campanhas e promove conversas integradas com o público interessado nos segmentos que abordam. Melina acrescenta que o uso das hashtags nas redes sociais é útil para encontrar o conteúdo publicado e, assim, poder replicá-lo. Toda comunicação compartilhada pelo Universo de Saia têm as mesmas hashtags, com o intuito de popularizá-las. Para surtir os efeitos desejados, Marcela e Melina utilizam algumas técnicas: não escrevem muitas palavras em uma única hashtag e não exageram na quantidade delas em cada post. “Apostamos em hastags específicas e não apenas nas genéricas. Para cada conteúdo, fazemos uma pesquisa sobre as que mais se relacionam com o nosso negócio e, assim, conseguimos atingir o nosso objetivo”, concluem as amigas. 

Use com moderação! 

Para tornar a postagem mais popular, as hashtags são fortes aliadas, mas o Instagram, por exemplo, permite apenas 30 delas via comentários em cada foto. Para dosar, conheça as mais populares e seus significados:

#tbt ou #throwbackthursday: quinta é o dia para postar uma foto antiga para relembrar um momento legal.
#regram: repostar uma imagem já publicada no Instagram.
#instamood: a foto em questão deve refletir seu humor.
#lol: rindo alto, para marcar algo muito engraçado.
#nofilter: quando a foto não tem nenhum tipo de filtro.
#instagood: quando a pessoa se orgulha da foto que tirou.
#photooftheday ou #picoftheday:  foto do dia.
#repost: uma foto que já foi postada anteriormente, mas está sendo repostada. 

Texto: Cristiane Araujo | Fotos: Luan Porto

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