A escalada da violência
Em uma conversa franca, duas psicólogas — Myrna Coelho Matos e Marina Rezende Bazon — mostram como o engajamento criminal se constrói em crianças e adolescentes
Em um momento social em que a violência salta aos olhos e, em tom escandaloso, ocupa as manchetes jornalísticas, duas mulheres se propõem a desvendar os caminhos através dos quais ela, lenta e gradativamente, ocupa, em crianças e adolescentes, o lugar que deveria ser o das expectativas, o da esperança e o dos sonhos.
A entrevistadora, Myrna Coelho Matos, atua há 18 anos como psicóloga clínica comportamental, é mestre em Psicologia da Infância e da Adolescência e especialista em Psicoterapia na Análise do Comportamento. A entrevistada, Marina Rezende Bazon, é professora da Universidade de São Paulo, com pesquisa e intervenção voltadas a grupos em situação de risco psicossocial, especialmente crianças e adolescentes vitimizados e família, e adolescentes em conflito com a lei. A conversa entre as colegas de profissão foi acompanhada pela jornalista Carla Mimessi.
Myrna: Você tem muita experiência em pesquisa e intervenção junto a grupos considerados em situação de risco psicossocial. Quando e como iniciou seu interesse por esses estudos?
Marina: Há muitos anos, antes mesmo da graduação. Nunca tive dúvidas sobre a área na qual gostaria de trabalhar. Desde a adolescência, tenho interesse pela questão social, tanto que, em Sertãozinho, minha terra natal, sempre tentava me inserir em entidades de assistência, como o orfanato. Na época, as crianças nessas condições eram designadas como “abandonadas”, “delinquentes” e, no linguajar mais popular, “trombadinhas”, devido à modalidade de furto que estava em voga — a trombada que davam por trás para furtar a carteira das pessoas. Movida por esse interesse, escolhi a Psicologia. Cursei a USP de Ribeirão Preto e tive a sorte de ter Ruth Estevão como minha professora de Psicologia Criminal. Ocupo, hoje, o cargo que era dela. Há vinte e poucos anos, não era comum ter essa disciplina na grade. Era uma peculiaridade do nosso curso. Isso foi decisivo para que me mantivesse fiel ao que queria.
Myrna: Você considera a condição social que vivemos no Brasil como parte determinante da violência juvenil?
Marina: Para a análise macrossocial, o contraste é um ingrediente importante, mas não único, porque temos países com grandes disparidades nesse sentido, como a Índia, onde as taxas de criminalidade, em geral, são mais baixas. A diferença socioeconômica é, em si, uma violência. Talvez, a maior de todas. Mas, pensando enquanto causa sociológica da criminalidade e da delinquência juvenil, o contraste conta para criar um contexto que é mais propício à instalação de problemas de natureza microssocial. Desse ponto de vista, ser privado dos direitos básicos não é um determinante do engajamento criminal. Pertencer a uma família de baixo status socioeconômico é uma variável relevante? É uma delas, porém não tem ligação intrínseca com o fenômeno. É uma variável de contexto que para surtir efeito precisa de diversos mediadores que são de natureza humana e relacional.
Myrna: Por que as crianças e jovens estão tão violentos?
Marina: O Brasil tem taxas que são alarmantes. Quando analisamos essas estatísticas, temos que apelar para as variáveis macrossociais. A desigualdade fomenta uma cultura que caracteriza um segmento humano como de menos valor e o outro como tendo mais valor e poder. Essas tensões são muito fortes. Por mais que a gente diga que é contra a violência, ela ganha certa legitimidade em nossa cultura e nas relações sociais. O consumismo também aparece dentro desse contexto macrossocial no Brasil, porque a criminalidade está implicando pessoas cada vez mais novas e os valores que prevalecem indicam a elas que aceitação e a identidade social são atreladas à posse de objetos que dão status.
Myrna: Quais seriam as justificativas para a violência no âmbito microssocial?
Marina: A macro e a microanálise são interdependentes. Em termos de Psicologia, nossa ação é mais no âmbito microssocial, no qual criamos programas de intervenção comunitários e de acompanhamento individualizado dos adolescentes. Nesse contexto, a variável crucial no processo de engajamento criminal de jovens é a força da ligação dessas crianças e adolescentes com as instituições sociais, representadas pelas figuras da família, da escola e do grupo de pares. Quanto mais frágil é o vínculo, quanto menos se internaliza o valor dessas instituições, mais esses meninos se desprendem de um padrão de comportamento convencional em relação às regras de convivência. E a situação se torna ainda mais grave se adicionarmos a esse quadro, que geralmente resulta em crianças complicadas e deprimidas, a exposição a modelos criminalizados ou divergentes. Quanto mais variáveis negativas houver, mais o engajamento é sério. E quanto antes o comportamento se manifesta, mais tende a durar e a ser frequente.
Myrna: Como ocorre essa escalada da violência? Que fatores estão implicados no caso de crianças que se tornam cada vez mais violentas?
Marina: Há um subgrupo menor que comete delitos que implicam, gradativamente, em mais violência. É um subgrupo complicado porque foi e continua sendo exposto a uma gama muito grande de variáveis. É uma somatória. Uma das variáveis é ser rejeitado pelos pares que não apresentam problemas de comportamento. É um processo dramático na vida de crianças em idade escolar. Ao ser rejeitada, a criança tende a se aproximar de outras mais parecidas com ela, e começa a existir a associação de pares que têm problemas semelhantes de funcionamento social. Esses tendem a ser taxados com rótulos negativos, o que aumentará sua dificuldade de integração em ambientes convencionais. Outro fator que contribui para o engajamento criminal maior é ter um histórico de vitimização ou de negligência severa na primeira infância. Os infratores não são iguais e há infratores que nunca cometerão crimes de violência.
Myrna: A criança dá sinais quando está em risco de desenvolver esse comportamento? Em caso afirmativo, como podemos identificar?
Marina: Os fatores de risco para um engajamento criminal grave estão presentes muito precocemente. Sou contra a ideia decorrente da Psiquiatria de um psicopata, de uma pessoa com uma condição mental de insensibilidade ou frieza extrema como algo, às vezes, inato. Acredito que sejam características construídas, decorrentes de práticas parentais inadequadas, severas, frias ou inconsistentes. A ausência da supervisão também é extremamente importante, e há aspectos do desenvolvimento emocional que acompanham essas situações ambientais tão adversas. Podemos, por consequência, ter crianças com baixo autocontrole. Há meios que tornam esse autocontrole inalcançável, fazendo com que tenham problemas de domínio da raiva e de autoregulação emocional. As pessoas que convivem com tais crianças tendem a achar que essas características são atributos delas, mas, na verdade, é uma construção que se dá nas interações, desde muito cedo, e em vários ambientes. A atividade infracional precisa depois de ser modelada. A partir dos oito, nove anos, a criança já sabe o que está fazendo, tem noção de certo e de errado. Há aquelas que começam fazendo pequenos furtos sem, necessariamente, ter modelos, mas na hora que se junta com novos pares também envolvidos em infrações, há muito reforço desse comportamento.
Myrna: Algum fator se destaca na comparação entre adolescentes infratores e não infratores?
Marina: Em uma pesquisa, comparamos grupos de adolescentes dos mesmos contextos que não tinham um histórico de infração a adolescentes que tinham. Uma coisa que discriminou muito foi a presença, nos grupos de pares dos meninos infratores, de pessoas mais velhas com envolvimento criminal. Com esse ingrediente, um problema que já existe ganha sofisticação. Para cometer um crime violento, é preciso ter aprendizagens não só de técnica, mas de um raciocínio, uma cognição de natureza criminal que se instala e se desenvolve por aprendizagem, por reforço, por modelagem. Essa questão da associação entre eles é muito séria. O que oferecemos aos jovens: uma sociedade atraente, que os vincula a atividades produtivas e de lazer ou os largamos à própria sorte? Se o largamos à própria sorte, eles se socializam criminalmente. E que respostas damos a eles? A do meio judicial. Graças a Deus que pela Lei, ela não é punitiva, mas a sociedade clama para que ela o seja.
Myrna: Quais os possíveis efeitos do uso da punição como estratégia de controle nesses casos?
Marina: A sociedade acredita no poder da punição como meio para a modificação do comportamento. Eu não. Quem trabalha com modificação de comportamento sabe que, para a punição ter algum efeito positivo, precisa ser muito bem pensada. Ela geralmente cria efeitos colaterais, sentimentos de raiva e de humilhação, que fomentam ainda mais a violência.
Myrna: Em termos gerais, como caracterizaria a trajetória dos adolescentes infratores?
Marina: O infrator grave tem uma trajetória de enormes dificuldades interacionais, de relações truncadas, de estigmatizações fortíssimas no ambiente escolar, de exposição à violência e a modelos criminalizados. As pessoas têm uma tendência a pensar que eles são dessa forma porque nasceram com esses atributos. E como os atos são repulsivos e não há uma análise longitudinal nem retrospectiva, a nossa resposta tem sido de punição e de quase vingança. O que a sociedade quer não é um pagamento mais asséptico, mas judiar. Se o preso tiver comida de qualidade é um absurdo. A nossa sociedade clama por vingança contra os criminosos.
Myrna: Teria que ter, então, um trabalho preventivo?
Marina: O trabalho preventivo é fundamental porque nosso sistema é falho. Quando capturam os infratores, por volta dos 16 anos, os tratam igualitariamente. Se o menino está tendo engajamento criminal, está cometendo infrações há muito tempo. Em determinados casos, a história de vida foi tão perversa, que a intervenção é difícil. Tem jeito, mas teríamos que dispor de uma sofisticação no atendimento que não condiz com o que é oferecido por nossas instituições. Com a prevenção, teríamos condições de interromper trajetórias que podem se agravar significativamente. Há adolescentes que cometeram um ato infracional por um comportamento exploratório, que não representa um problema em curso. Enquanto a pessoa está viva, seu comportamento é passível de modificação, mas quanto mais tardia, mais complexa fica a intervenção.
Myrna: De que maneira os meios de comunicação colaboram para a intensificação da violência?
Marina: A mídia faz, ao mesmo tempo, o papel de Deus e o do Diabo. Em relação à sensibilização da sociedade, no que diz respeito à vitimizações que as crianças sofrem, a mídia tem desempenhado um papel importante, de tornar visível o que, até então, ocorria no âmbito privado. Os meios de comunicação tornaram a vitimização doméstica um problema social significativo, embora goste muito dos casos extremos. Aí entra o papel do Diabo. Sempre associa a violência sofrida ou impingida a casos com altos índices de crueldade. Isso contamina a sociedade, que passa a acreditar que vitimar criança é só amarrar, cortar, estuprar, quando, na verdade, há uma gama muito mais ampla e sutil de agressão que a população não enxerga como tal. Essa postura influencia o imaginário no sentido de que todos os adolescentes infratores são perigosos, e a população começa a temer esses jovens. Se alguém cruza com um menino de bermuda e boné, a certa altura da noite, sente um frio na espinha. Dessa maneira, são criados estereótipos que colam no grupo de uma maneira geral. Isso reforça, no gestor público, demandas por políticas de segurança e não por políticas para a juventude. Portanto, a imprensa tem um impacto na geração de violência e da raiva, tornando as condições menos propícias à socialização dos que têm mais problemas. Em relação aos modelos, esses meios, novamente, desempenham o papel de Deus e do Diabo. No discurso, defendem que é preciso deter a escalada da violência e, paralelamente, vivem da venda de produtos atrelados à violência: minisséries, filmes, desenhos animados com conteúdos violentos e nocivos em relação ao comportamento, à resolução de conflitos, entre outros aspectos.
Myrna: Em sua pesquisa, buscou descrever o percurso e caracterizar as trajetórias escolares de adolescentes envolvidos com a Lei. Fracasso escolar tem uma relação com comportamento divergente?
Marina: Um dos fatores que tem uma associação com o engajamento criminal na adolescência é a desvinculação escolar. Os meninos infratores têm um histórico escolar problemático, de baixo desempenho, de dificuldades de aprendizagem, de ter permanecido por anos na escola sem ter conseguido absorver o conteúdo apresentado. O mais triste é que eles têm noção de que não está dando certo, mas, nada vem ao encontro no sentido de modificar o que está errado. O compromisso deles com a educação diminui pela sensação de incompetência, e, na medida em que isso ocorre, esses meninos não legitimam mais as regras escolares. A consequência é a evasão escolar e problemas de comportamento na instituição, alguns de caráter delituosos, como agressão a professores e danos ao patrimônio. Este não é um problema que nasce do dia para a noite, é um processo que se constrói: nos meninos infratores que são aprendidos por volta dos 16 anos, o problema vem se construindo há mais ou menos 16 anos.
Myrna: A saída seria uma mobilização dos diferentes setores sociais, já que a violência é um problema de todos?
Marina: A sociedade brasileira tem, numericamente, um segmento de jovens considerados perigosos e violentos, e precisa entender que a socialização desse segmento acaba produzindo-os. Todos nós, de certa forma, estamos participando da construção desse subgrupo.
Myrna: As ações conjuntas das instituições são as mais efetivas nesse caso?
Marina: Sim, é preciso haver intervenções de natureza macro, relacionadas à tomada de decisões políticas, como melhor garantia de acesso aos direitos básicos e fundamentais, acesso à educação de qualidade, que identifique crianças que estão em dificuldades, e consiga promover a aprendizagem. Hoje, não há desculpa para que uma criança não seja alfabetizada. Esses adolescentes são analfabetos, evadiram da escola por volta do sexto ano. Eles ficaram sete anos na escola e ninguém criou condições para que aprendessem. Tem uma falha terrível nas instituições sociais e em suas práticas.
COMPROMETIDA COM AS MUDANÇAS
“Formas graves de violência são observadas em todas as esferas sociais, em um processo de desumanização que faz o homem se distanciar cada vez mais das virtudes que o protegeriam da autodestruição. Neste contexto, é confortante saber que ainda há pessoas que não se conformam com os rumos que nossa sociedade está tomando. Uma delas é a Professora Dra. Marina Bazon. Seus estudos são a expressão do seu comprometimento com questões de grande importância social, extrapolando os muros acadêmicos e refletindo um coração sincero, comovido e mobilizado para que alguma mudança efetivamente aconteça”
Myrna Coelho Matos, psicóloga clínica
Texto: Carla Mimessi
Fotos: Julio Sian