A Escolha do Fim
No Brasil, cerca de 9% dos mortos são cremados; alternativa está disponível em Ribeirão Preto desde 2013
O último desejo antes do adeus é também um dos mais importantes de um ser humano. Além de optarem por tratamentos médicos aos quais gostariam ou não de serem submetidos, muitos estão escolhendo também modalidades de fim de vida — e a cremação, cada vez mais aceita no mundo ocidental, ganha cada vez mais adeptos no país. Dados do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep) apontam que cerca de 9% dos falecidos em território brasileiro são cremados.
Os motivos para preterir os tradicionais sepultamentos e preferir a cremação variam desde as questões religiosas às culturais — observam-se, também, preocupações quanto à preservação do meio ambiente. Apesar de ainda dividirem opiniões entre a sociedade, as cremações desmistificam preconceitos sobre a morte e alteram padrões estabelecidos pelos sepultamentos. A internet, que fornece informações claras e objetivas sobre o funcionamento dos processos, também ajuda a solucionar mitos e inverdades acerca dos procedimentos crematórios.
Alternativa viável
Com a falta de vagas nos cemitérios municipais, a realização de enterros encarece. Segundo informações da Secretaria de Infraestrutura da Prefeitura de Ribeirão Preto, o Cemitério Bom Pastor, o único que ainda dispõe de espaço na cidade, ainda tem capacidade para a construção de 4.032 jazigos. Entretanto, a licitação que previa a construção foi suspensa em 2018. “Estão sendo realizados estudos para a elaboração da licitação levando em consideração os aspectos legais e ambientais”, afirma a pasta, em nota.

A cremação, por outro lado, desponta como uma alternativa de fim de vida economicamente e ecologicamente viável. Inaugurado em junho de 2013, o Crematório Ecológico Metropolitano de Ribeirão Preto está disponível para indivíduos e familiares que escolhem a cremação na cidade e na região. “Identificamos a necessidade de oferecer mais essa opção para as famílias, e, por isso, inauguramos o Crematório”, diz Maria Isabel Devicaro, gestora de crematórios do Grupo UNIPREV - Prever Campos Elíseos, que administra o espaço, localizado na Rodovia Cândido Portinari, km 321.

Maria Isabel explica que o processo de cremação realizado no Crematório Ecológico Metropolitano é seguro, destacando ser uma prática muito antiga e ecologicamente correta. “Seguimos o protocolo estipulado por lei. Após o óbito, recebemos a família e explicamos os detalhes no momento da contratação do serviço, como a documentação necessária, detalhes do velório e oferecemos a possibilidade de uma última homenagem, uma cerimônia ecumênica mais íntima em nosso auditório”, observa.
A gestora de crematórios da Prever ressalta que são diversos os motivos para a escolha do procedimento de cremação, como aqueles que envolvem caráteres religiosos, culturais e até ecológicos. “O que identificamos é que a opção pela cremação é feita pela pessoa e comunicada aos familiares, que geralmente conversam a respeito e discutem o tema com mais profundidade. Essa declaração de vontade em vida, necessária para a realização da cremação, é muito importante”, expõe.

Para Maria Isabel Devicaro, o aumento no número de adeptos da cremação em todo o mundo é uma tendência, visto que as questões ecológicas e o maior acesso à informação para quebrar preconceitos influenciam no interesse por esta alternativa de fim de vida. “A morte é um tema delicado, mas que em determinado momento da vida as pessoas começam a refletir com mais atenção e de forma natural. Com a propagação da informação pelos meios de comunicação a cremação passou a ser veiculada de uma forma mais constante e as pessoas cada vez mais estão tomando ciência sobre o assunto”, conclui Isabel.
Auxiliando vidas
Com o aumento na expectativa de vida ao nascer, a tendência de envelhecimento da população gera preocupações em todo o mundo. Por meio da Medicina e da filosofia de cuidados paliativos, é possível diminuir o sofrimento humano causado por tratamentos longos e pelo envelhecer. Utilizando-se da empatia e do respeito com o doente e com as famílias, as equipes médicas paliativistas mostram um lado diferente da morte aos pacientes, abrandando a chegada do fim da vida.
A médica geriatra e especialista em cuidados paliativos Jaciara Machado Viana explica que esta técnica fundamental abrange uma gama de profissionais especializados, e que não cuidam apenas dos mais velhos, mas também de crianças e jovens. “Envolve uma equipe multiprofissional composta por médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, fisioterapeutas, dentistas, assistentes sociais, fonoaudiólogos e equipes de apoio espiritual (serviço de capelania). Os cuidados paliativos não se aplicam apenas aos pacientes idosos. Pacientes jovens e pediátricos, na presença de uma doença ameaçadora a vida, também necessitam da equipe de cuidados paliativos”, expõe Jaciara.

Através da boa comunicação, vínculo, responsabilidade, respeito e empatia com o doente e com a família, os cuidados se iniciam com a identificação imediata e o tratamento adequado da dor do paciente e de outros sintomas que sejam fonte de angústia e sofrimento. Os trabalhos paliativistas ocorrem de maneira paralela à fase em que ainda se busca a cura ou controle da doença, aumentando até que se torne a única terapia possível durante o processo de ativo de morte.
Jaciara também destaca que é necessário discernimento para escolher o melhor momento de tomar providências e relatar ao doente e à família sobre o esgotamento das possibilidades de cura. “Isso pode ser problemático nas situações em que a família não está preparada para a proximidade da morte, revoltando-se, muitas vezes, contra a equipe de saúde que assiste o doente. É importante que o grupo de cuidados paliativos saiba a maneira e o momento certo de dar as informações ou a hora de apenas saber ouvir e acolher o sofrimento e as dúvidas”, afirma a médica.
A geriatra ainda relaciona a importância da promoção do paliativismo entre os profissionais de saúde ao crescimento da longevidade da população mundial. “Atualmente, estamos diante de um aumento da expectativa de vida. Em 2050, a população acima de 60 anos passará dos atuais 600 milhões para 2 bilhões de pessoas no mundo. Esse aumento será mais rápido nos países em desenvolvimento, onde se tem uma expectativa que a população idosa seja quadruplicada durante os próximos 50 anos. Isso significa que os profissionais de saúde precisam estar preparados para essa realidade, que impõe o domínio de habilidade para cuidar, confortar e aliviar o sofrimento de um grande número de pessoas portadoras de doenças crônicas sem perspectivas de cura”, diz.
Recordação carinhosa
Todos os dias, Rita de Cássia Carvalho Reis dedica alguns momentos para relembrar a mãe, a dona de casa Domingas Mafalda Trés Carvalho. Funcionária pública aposentada, a filha única recorda bons momentos do convívio diário com a mãe por meio de álbuns de fotos guardados com muito carinho. Emocionada, Rita conta as qualidades de Domingas. “Minha mãe era uma pessoa encantadora. Muito alegre, era religiosa, feliz e de bem com a vida. Estava sempre pronta para ajudar todos que a procuravam, e sempre tinha uma palavra de conforto”, diz.
Ela não tinha netos, mas sempre tratava os sobrinhos com apreço. Com nostalgia, a filha relata o carinho de conhecidos no momento em que lembram de Domingas. “Até hoje, há pessoas que me encontram e dizem sentir muitas saudades dela. Aqui em casa, falamos dela como se ainda não tivesse partido, e usamos termos que ela falava com frequência. Para nós, é como se ela estivesse fazendo uma longa viagem”, afirma Rita.

Vaidosa e sempre cuidadosa com a saúde, Domingas chegou a curar-se de um câncer de mama. Diagnosticada com o mal de Alzheimer, e com a descoberta de um melanoma em dezembro de 2014, faleceu tranquilamente após seis meses de tratamento, em maio de 2015. Seguindo os passos de sua irmã e de seu cunhado, a mãe de Rita optou pela cremação. “Foi a melhor opção que eu escolhi [para a minha mãe]. Foi uma cerimônia muito bonita”, relembra a ex-diretora de escola.
A fé também se faz presente nas recordações de Rita. Após a cremação, a urna com as cinzas de Domingas foi guardada em um nicho na Igreja de Santa Teresinha Doutora, na Ribeirânia. “É um lugar de muita paz. É algo muito confortante. Toda vez que bate muita saudade ou estou triste, vou à Igreja, rezo e converso com ela, e saio de lá super leve e bem.” Entre histórias protagonizadas pela mãe, a filha única também elenca outras memórias, como em livros de receitas e porta-retratos espalhados pela casa. “Ela cozinhava muito bem, então sempre a relembro quando faço as receitas que aprendi com ela. Lembro de minha mãe também em atitudes que ela tomava diante de diferentes situações do cotidiano. Também mantenho as plantas de que ela gostava. É como se eu tivesse a presença viva dela”, finaliza Rita de Cássia.
Texto: joão pala || Fotos: Julio Sian e Ibraim Leão