A face dos protestos

A face dos protestos

Os manifestos tomaram conta das ruas e a população, descontente com os serviços públicos, foi à luta pelos seus direitos

Multidões empunhando cartazes, gritando refrões e o hino nacional. Essas cenas se multiplicaram por todo o Brasil nas últimas semanas. Os manifestos tomaram conta das ruas e a população, descontente com os serviços públicos, foi à luta pelos seus direitos. Essa é a vertente que se espalha nas capitais e no interior dos estados por meio dos diversos movimentos. A luta pelo passe livre, pela expulsão de Renan Calheiros da presidência do Senado, pelo impedimento de Propostas de Emendas da Constituição (PECs), entre outras reinvindicações, continua. “Estamos assistindo a uma revolução cultural”, analisa o cientista político, Luiz Rufino, ao comentar as manifestações e os movimentos presentes em cada protesto. “Os vários movimentos culturais, anti-homofóbicos, antirracistas, abortistas, pelo passe livre, entre outros que o governo federal cooptou, funcionam como uma estrutura paralela e extraoficial de governo. Sem que sejam funcionários públicos, difundem a continuidade de dependência do Estado. Em algumas cidades, esses movimentos são mais fortes que o próprio Estado”, afirma. Mesmo que a origem das manifestações esteja na redução das tarifas do transporte coletivo, os desdobramentos estão nas ruas, pedindo desde a realização dos impulsos sexuais contra a ordem vigente até o fim da corrupção, considerada uma pauta conservadora pelos organizadores.

Na visão de Rufino, Ribeirão Preto é uma cidade apática em relação às manifestações populares. “Não há geração espontânea de movimentos populares na história da humanidade, muito menos na cidade. Toda ação revolucionária joga com as contradições da sociedade, incorporando causas antes inexistentes, como o movimento LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), o movimento negro, o movimento passe livre, o movimento da descriminalização das drogas”, completa o analista. Para o sociólogo, o governante fica em uma encruzilhada porque tem que se comprometer com os dois lados — o Estado e os anseios da organização da massa em movimentos sociais que querem a ruptura. “Em política, chamamos isso de língua dupla. Dilma só sobreviverá à ruptura se for muito habilidosa”, afirma o especialista.

No significado concreto da palavra, liderança é a arte de comandar pessoas e atrair seguidores, influenciando os comportamentos individuais de forma positiva. As manifestações têm o objetivo de buscar direitos que estavam esquecidos pela população e as reinvindicações se tornam mais representativas com a união entre os movimentos. “É fundamental pensar em união entre movimentos. Chamamos isso de trabalho em rede. Geralmente, esse apoio parte de uma compreensão mútua entre os movimentos, por isso, é importante fomentar espaços de diálogo. Assim, rompemos com a competição imposta pelo capitalismo”, afirma Vinicius Barros, membro do Movimento Se Vira Ribeirão.

Rufino argumenta que a falta de direções desnorteia quem necessita de ordem clara nos manifestos. Para ele, o movimento possui dois grupos distintos tomando as ruas. “Um organizado e que sabe o que quer e outro, desorganizado que pode ser manipulado pelas técnicas de engenharia social que possui o Governo Federal”, alerta o sociólogo.
O Se Vira Ribeirão foi criado em 2012, quando a Prefeitura de Ribeirão Preto deixou de realizar a Virada Cultural Paulista por falta de espaço na cidade. As reinvindicações do grupo são: a destinação de 2% do orçamento para a cultura, o apoio aos centros culturais, a ampliação do Programa de Incentivo Cultural , entre outras.

De acordo com Vinicius, é preciso estudo para fazer política. Para ele, não dá para usar o termo “liderança” quando o assunto são as manifestações. A falta de uma visão crítica da realidade do município é o que causa a perda do foco das reinvindicações. “As ruas são de todos, onde o debate acontece. Precisamos de fato discutir a representatividade dos partidos — existem legendas dispostas a isso. O que faz as manifestações perderem o foco é a despolitização de muitos cidadãos que saem às ruas sem uma visão realmente crítica. Política requer estudo”, completa.

A principal estratégia dos integrantes do Se Vira Ribeirão é expor as deficiências da cidade por meio de um debate inteligente com o intuito de engajar mais pessoas no processo da democracia em favor da igualdade social e da qualidade nos serviços públicos. “Na área da cultura, é preciso mais fomento e apoio aos grupos. Temos que superar a visão de que a Prefeitura faz cultura. Na verdade, quem faz cultura é o povo e, para isso, ele precisa de apoio no fomento e na formação cultural”, conclui.

Outro assunto que dominou as redes sociais e a imprensa de Ribeirão Preto, logo nos primeiros dias de julho, foi o repúdio a proposta da presidente Dilma Rousseff de “importar” médicos de fora do país sem a revalidação do diploma para suprir a carência da saúde Brasil afora. Uma mobilização da categoria médica convocada pelo Centro Médico de Ribeirão Preto levou cerca de 300 pessoas para a Esplanada do Theatro Pedro II. “Esta chegada em massa de médicos estrangeiros sem o exame de revalidação do diploma (Revalida) expõe a parcela mais vulnerável e carente, pois é ela que de fato estará entregue a profissionais de formação duvidosa”, afirma Dra. Cleusa Cascaes Dias, presidente do Centro Médico.
A Instituição atua como regional da Associação Paulista de Medicina, representando mais de 15 municípios da 6ª região administrativa do Estado. Sendo assim, associa-se sempre às causas defendidas pelos conselhos de medicina, sejam eles estaduais, como o Cremesp (CRM), ou Federais (CFM).  “Organizamos um protesto pacífico, buscando sensibilizar as autoridades municipais  para a gravidade da proposta do governo e esclarecer a população sobre as condições de um sistema que conhecemos melhor do que ninguém. Estamos unidos em defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) e as populações da periferia das grandes cidades e das regiões do interior do Brasil merecem um atendimento digno, por profissionais reconhecidos, com diplomas revalidados e domínio básico do nosso idioma”, completa Cleusa.

Outras reinvindicações foram adicionadas pela categoria. Dentre elas: a qualidade do ensino médico, o plano de carreira médica, a progressão e a mobilidade, o reajuste de honorários pelos planos de saúde e a regulamentação da Medicina. “Não faltam médicos, faltam condições de trabalho, equipamentos, hospitais regionais de referência, medicamentos e um projeto consistente de interiorização da Medicina, contemplando um plano de carreira para os médicos e condições para o exercício da profissão”, destaca a presidente do Centro Médico.

André Correa de Almeida, presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina da USP, concorda com esta afirmação. “Aproveitando o clima dos protestos, as manifestações tendem a seguir com o esclarecimento da própria população de Ribeirão Preto de que só mais médicos não resolve a situação. A compreensão de que muito mais precisa ser feito para que a saúde brasileira deixe de configurar um dos piores itens de avaliação precisa chegar a todas as camadas para, então, atingir as instâncias de poder, que efetivamente podem modificar as políticas públicas de saúde”, afirma o estudante.
Apesar da repulsa à palavra “liderança” dos membros dos movimentos, entre todos, há a concordância de que a luta busca as mesmas causas. “Mais do que pensar na união dos movimentos, já que as demandas são diferentes, quando não contraditórias, é fundamental percebermos que há um grau de descontentamento generalizado, que reflete na democracia brasileira, estruturada no princípio da representatividade por meio dos partidos políticos”, afirma Luciana Rodrigues, coordenadora geral do Pontão de Cultura Sibipiruna.

A manifestante alerta para a necessidade de coerência entre as pautas de cada movimento para que estas sejam ancoradas em demandas concretas, de modo que as reinvindicações tenham procedência e possam ser atendidas. “Entendo que a Prefeitura tem dificuldade em lidar com as formas de organização e participação da sociedade civil, Para uma cidade ser bem governada e atender aos anseios da população, é fundamental a atuação conjunta de poder público e sociedade civil”, argumenta Luciana.

O Pontão de Cultura Sibipiruna é um projeto da Associação Amigos do Memorial da Classe Operária (UGT), entidade privada sem fins lucrativos, que atua na cidade desde 2004. Em 2010, a entidade decidiu participar de um edital público, proposto pela Secretaria Municipal de Cultura, em parceria com o Ministério da Cultura, cujo objeto era a gestão da rede municipal de Pontos de Cultura de Ribeirão Preto. No mesmo período, foi formada uma rede de cultura, composta por artistas, grupos, movimentos e entidades de diversas áreas culturais, que passaram a atuar conjuntamente, pautando políticas públicas para a pasta em Ribeirão Preto.

Para Raphael Inácio, integrante do Movimento Passe Livre, a união entre os manifestantes é importante. “Os movimentos que não se integram perdem força rapidamente. A liberdade de expressão e a associação entre os integrantes são direcionadas também a pessoas não organizadas em instituições ou partidos. As manifestações devem ser fiéis aos seus propósitos, ainda mais quando têm origem em pessoas sem ligações partidárias, caso contrário, qualquer grupo oportunista, seja partido ou não, aproveitará e desviará o foco das manifestações”, explica.

O sistema político, não apenas no Brasil, foi posto em xeque. A representatividade política vigente está em desconstrução. “Em Ribeirão Preto, Prefeitura e Câmara se viram, praticamente, encurraladas pelas manifestações contra a tarifa, que na realidade é contra o modelo de transporte público, e tiveram que ouvir o pedido popular para que agissem”, destaca Raphael Inácio. Ao analisar os protestos até o momento, o manifestante acredita na mudança. “As insatisfações são um começo de mudança de paradigma em que não teremos mais o capital influenciando decisões individuais que refletem no coletivo. O que teremos é uma subjugação do poder econômico à vontade popular”, comenta.

Convergente com as reinvindicações, o movimento Panelaço atua de forma a se concentrar na ocupação dos espaços de democratização de gestão municipal que o poder público oferece, através da participação em audiências públicas, conselhos de educação, cultura e meio ambiente, entre outros. Jonas Paschoalick afirma que os movimentos dispostos de maneira horizontal permitem a construção de pautas e dá força às reinvindicações com maior mobilidade entre si.  “Os movimentos se organizam hoje sob conceitos de autogestão, autogoverno, horizontalidade e reafirmam a bandeira de democracia participativa. Isso possibilita a abertura necessária dos movimentos para que possam se dispor em rede, permitindo uma atuação democrática de toda a população, fortalecendo a rede e as reivindicações”, explica Jonas.

O Panelaço surgiu em 2012 devido a um episódio marcante na política de Ribeirão Preto: o aumento do subsídio dos vereadores. “O Panelaço surge depois da ausência da população do cenário político por um longo período. A juventude atual já nasceu sob o espírito de uma democracia em formação, sem a memória coletiva da repressão política e com forte desejo de transformação e participação”, comenta Paschoalick.

Para Rafael Cardoso de Mello, historiador e autor de livros sobre Ribeirão Preto, a cidade já viveu inúmeros momentos conturbados que resultaram em reações de diversas formas. “A grande diferença das manifestações de hoje e dos movimentos do passado é o caráter de idealização e sua execução. Na medida em que há ausência de elementos constitutivos de um movimento, como uma liderança definida e bandeiras de luta clara e evidente, a insatisfação popular aparece e se ancora em cartazes com os mais diversos dizeres”, afirma.

As manifestações são válidas e a população nas ruas expressa o descontentamento com a condução da política na cidade. “É uma forma de exigir mudanças positivas, que resgatem a credibilidade da participação da população na política”, afirma Cláudia Perencin, membro do Movimento Pró-Arena.
O grupo surgiu há três anos para chamar a atenção do poder público, de artistas, produtores, agentes culturais e da população em geral para o precário estado de conservação do Teatro de Arena Jayme Zeiger. “Não fomos para a rua e, sim, para o teatro, promovendo ações culturais gratuitas naquele espaço, atraindo olhares para um patrimônio abandonado pelo Executivo. O número de pessoas foi crescendo gradativamente, até que a Prefeitura entendeu a necessidade de uma reforma”, explica Perencim.

O PODER DO POVO: O conhecido ditado popular “A voz do povo é a voz de Deus” parece vigorar no país atualmente. As manifestações populares ganham força no Brasil e algumas vitórias já são contabilizadas

- Redução da tarifa do transporte público em mais de 60 cidades;
- Adiamento do reajuste dos pedágios no Estado de São Paulo;
- Derrubada da PEC 37;
- Discussão do projeto que elimina o voto secreto para a cassação de parlamentares;
- Aprovação do projeto de lei que destina recursos do petróleo para a educação e a saúde;
- Previsão de investimento de R$ 3 bilhões até 2014 para atrair médicos para o interior do país e para as periferias;

AS LIDERANÇAS BRASILEIRAS: Em defesa de ideais, alguns nomes entraram para a história do Brasil

Tiradentes (batizado em 1746 – 1792)
A Inconfidência Mineira significou a luta do povo pela liberdade diante do abuso político, na forma de altos impostos cobrados pelo governo português no período colonial.

Bento Gonçalves (1835 – 1845)
O militar e revolucionário Bento Gonçalves da Silva foi um dos líderes da Revolução Farroupilha, que lutou pela independência da província do Rio Grande do Sul do Império do Brasil.

Princesa Isabel (1846 – 1921)
Primeira senadora brasileira e primeira mulher a assumir uma chefia de Estado no continente americano, decretou o fim da escravidão no Brasil.

Marechal Deodoro da Fonseca (1827 – 1892)
A Proclamação da República Brasileira foi um levante político-militar ocorrido em 15 de novembro de 1889, que instaurou a forma republicana federativa presidencialista de governo no Brasil.

Antônio Conselheiro (1896 –1897)
A Guerra de Canudos, luta entre Exército Brasileiro e integrantes de movimento popular de fundo sócio-religioso, está entre os principais conflitos do período entre a queda da monarquia e a República no Brasil.

Texto: Cristiane Araujo | Fotos: Ibraim Leão e  Carolina Alves | Diagramação: Lucas Chaibub

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