A filosofia da luta
Trazido por professores japoneses, o karate chegou em Ribeirão Preto por volta de 1972
Praticamente impossível precisar as origens das artes marciais, afinal são estudos milenares que, muitas vezes, se confundem entre si. O que é possível afirmar, com exatidão, é o intuito das artes marciais em promover formação e autoconhecimento.
Segundo o professor de karate Roberto Sant’anna, a luta, a qual todos relacionam quando ouvem falar do esporte, é apenas a superfície dos ensinamentos do karate e das artes marciais em geral. “O karate é uma filosofia de vida e quando as pessoas começam e praticar ficam surpresas. Na maioria das vezes o karate é relacionado aos filmes do Jack Chan ou do Bruce Lee, mas essa parte física é superficial”, explica o sensei Roberto Sant’anna.
Trazido por professores japoneses, o karate chegou em Ribeirão Preto por volta de 1972. Quem introduziu a arte marcial foram os professores Toshio Osawa, que também era formado em judô e abriu o Centro Ribeirãopretano de Karatê e Judô e o professor Pedro Isokichi Okuyama, que abriu uma academia no centro da cidade. “Esses dois japoneses introduziram o esporte em Ribeirão e formaram grandes atletas na cidade. Entre eles, os professores Peterson e Takashi”, aponta o sensei.
Roberto Sant’anna pratica o esporte desde os dez anos, uma experiência que marcou sua vida. Também treinou com Stan Schimidt, um dos melhores caratecas ocidentas da atualidade. “Em 1993 fui lutar o mundial de karate na África do Sul. Lá conheci Stan Schimidt, meu atual mestre, que era uma pessoa que eu idolatrava. Ele não é japonês e atingiu um nível no karatê que poucas pessoas no mundo atingiram. Meu mestre aqui no Brasil era japonês e sempre falava dele. Impressionado com a minha performance ele me convidou para treinar uma temporada e, desde então, volto todos os anos para fazer treinamentos com ele, que hoje tem 73 anos”, conta.
Graduação em karate
Stan Schimidt é sul africano e é o ocidental mais graduado. Ele é oitavo dan de karate, algo mesmo no Japão inédito, e no ocidente não existe nenhum outro nesta categoria.
O sensei Roberto Sant’anna, que é dan seis em karate, explica que dan, ou grau, é uma graduação que vem depois da faixa preta. Até a faixa preta as graduações inferiores são diferenciadas por cores. “Para se ter uma ideia, o nono dan é o maior grau atingido em vida, o décimo dan só se atinge após a morte, que é quando a pessoa recebe o décimo dan honorário. No Japão, existe somente um nono dan em Karate”, ressalta Roberto Sant’anna.
Novas modalidades
Sobre as novas modalidades de lutas, mais especificamente o MMA (artes marciais múltiplas), o sensei se diz contra a violência apresentada pelo esporte. “O MMA está muito em evidência por conta da mídia e, diga-se de passagem, a mídia não tem vendido muitas coisas boas ultimamente. Sou contra você entrar numa luta pra machucar alguém. E eu acho que o dinheiro não é motivo pra você aprender uma arte marcial e chegar no cage e quebrar a cara do adversário podendo ocasionar acidentes sérios, como já aconteceu este ano, em que dois atletas morreram nos Estados Unidos”, alerta Sant’anna.
Roberto Sant’anna diz que respeita cada atleta, mas que não treinaria um aluno para entrar no MMA, pois ele acredita que o MMA não é de carater formativo como as outras artes marciais são. “O judô, o karatê, o aikido estão aí há muitos anos, e por quê? Porque são educativas. Já o MMA é um esporte de combate, assim como o boxe”, aponta.
O lugar do caminho
Na arte marcial existe o dojo, que significa “lugar do caminho”, e durante este caminho solitário que deve ser percorrido pelos caratecas existem muitos ensinamentos, entre eles, regras de etiqueta, respeito aos superiores e, por outro lado, os mais graduados também devem ajudar no crescimento e respeitar seus alunos. “Existem muitos casos de bullying, mas não é isso que o dojo ensina. Existe a hierarquia, mas deve ser respeitada de ambos os lados e é obrigatória essa parte de respeito dentro da academia”, conta.
Roberto Sant’anna é técnico da seleção brasileira de karate e em novembro viajará com sua equipe para a Argentina onde defenderá o Brasil na competição sul americana. “Diria que sou afortunado por ter realizado todos os meus sonhos dentro do karate. Já disputei diversos campeonatos mundiais e concluí que esses campeonatos e ‘nada’ são a mesma coisa. Porque o campeonato, de certa forma, fomenta a vaidade. Você ganha um troféu e começa a se achar. Então o que o ensinamento japonês tenta passar pra gente é que não existe atalho para o sucesso. Sucesso é treinamento, treinamento e treinamento. E isso vale pra tudo na vida e essa é a parte bacana da arte marcial. E eu passei a vislumbrar muito mais o meu treinamento depois que parei de competir. Tenho quase 50 anos de idade e me sinto melhor treinando hoje do que quando eu treinava para competições. Hoje não preciso provar nada. A dúvida é saber até quando o meu corpo vai aguentar. Hoje eu já sinto algumas dores e a maior briga é comigo mesmo.”, finaliza.
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Texto: Bruno Silva
Fotos: Carolina Alves