A formação através do combate

A formação através do combate

Os ensinamentos aplicados no combate das artes marciais refletem diretamente na transmissão de valores e na conduta de seus praticantes no dia a dia

Do lado de fora, a realidade grita por urgência. O tempo é cada vez mais disputado entre tantos afazeres, as rotinas estão atribuladas, a crise econômica atormenta o cenário, as denúncias de corrupção desestruturam a nação, os veículos de comunicação anunciam escândalos envolvendo figurões e as más condutas ficam mais e mais evidentes. Os caminhos estão desconexos. Do lado de dentro, o tempo parece parar para resgatar valores que acabaram atropelados. A técnica, a disciplina, a organização e a concentração transformam a atmosfera e colocam no relógio a calmaria da cultura oriental.

Como bem explica o termo Bu-Dô, usado no Japão para se referir às artes marciais, na tradução ele significa um caminho educacional através das lutas. Esse caminho começa a ser trilhado ali dentro, no espaço ocupado pelo Instituto Cultural Niten para difundir os ensinamentos milenares das artes da espada samurai, a filosofia do Bushidô (o caminho do guerreiro) e a cultura japonesa. Nesse lugar que, de certa forma, aparta-se da realidade ocidental, são transmitidos valores que remontam a 700 anos, porém, a trajetória não se isola ali.

Os praticantes saem do dojo — local do treino das artes marciais — e levam os ensinamentos praticados para o seu dia a dia. Calma, concentração, organização, respeito, disciplina e responsabilidade são alguns dos valores transmitidos durante o treinamento. Aliada à técnica, a orientação filosófica passada pelo mestre possibilita melhoras na qualidade de vida do praticante, que vão desde um comportamento mais adequado até conquistas significativas, como a classificação no vestibular, por exemplo.

De acordo com o Sempai Ricardo Donegá, coordenador do Instituto Cultural Niten de Ribeirão Preto, as artes marciais transformam pela educação. “Os pais dos nossos alunos retratam que veem uma mudança nítida no comportamento de seus filhos”, afirma. Ricardo exemplifica com a adolescência, fase que mistura uma pitada de revolta com a ansiedade pelo vestibular. Nesse período, muitos pais costumam afastar os filhos daquilo que os distrai dos estudos. Com a prática do Kenjutsu, a técnica da espada, os praticantes dão organização ao tempo e conseguem conciliar os estudos com o lazer. A concentração é um dos principais aspectos trabalhados na modalidade.

Os adultos buscam objetivos diferentes, como a paz, a compreensão de si e do ambiente ao redor. O treino traz autorreflexão para que eles sigam seu caminho de uma forma mais equilibrada, já que tudo na cultura japonesa é pensado e nada dispensa tempo, energia e paciência. Esses aspectos foram traduzidos em códigos de conduta transmitidos pelos samurais para que se viva se uma forma justa, decente e honrada. Isso tudo, além de refletir no modo de vida de cada indivíduo, também pode ser explorado do ponto de vista empresarial. Por isso, o Instituto Cultural Niten desenvolveu o KIR Empresarial (sigla da expressão em inglês Ken Intensive Recuperation, ou em português, Recuperação Intensiva Através da Espada), em que o praticante vivencia a cultura e o código de conduta dos samurais, associado ao universo corporativo, através do Bushidô.

No KIR Empresarial, o apoio mútuo, o respeito ao líder e aos colegas, a autoconfiança, a capacidade de improvisar e a coragem frente ao perigo, qualidades exigidas dos samurais e essenciais no mundo empresarial, são conectadas através da prática das modalidades. Criado especificamente para companhias que desejam investir em seus funcionários, o KIR Empresarial oferece treinamentos que despertam a necessidade de encarar os desafios do ambiente profissional com a dedicação e o trabalho em equipe baseado na cultura samurai. Afinal, não existe um profissional bom se não existir uma boa pessoa por trás. 

No Niten, são treinadas as artes antigas, chamadas de Kokudo: o Kenjutsu (técnica da espada), o Iaijutsu (saque da espada) e o Jojutsu (técnica do bastão). Independente da modalidade, a técnica, a coragem e a determinação são os principais elementos treinados. “Dominando esses três elementos, o praticante pode lutar contra inimigos muito maiores e vencer, assim como na vida. É por isso que as artes marciais são consideradas treinos de conduta de vida. O aspecto filosófico é de extrema importância nos nossos combates”, reforça Ricardo. 



Isso pode ser notado a partir do momento em que eles entram no dojo e fazem uma reverência. Os Kohais (alunos mais novos) têm gratidão pelos mais velhos, com os quais compartilham conhecimento. Durante os treinos, o ego é combatido e os praticantes dão importância ao que realmente merece. “Há muitos valores que se perderam com o passar dos anos. O tempo de treino, por exemplo, é algo que deve ser respeitado. Na fila para comer e para se banhar, os mais idosos ou mais “antigos na vida” devem ter preferência. É preciso reforçar que gentileza é também uma questão de coragem”, pontua o Sempai. 

A organização também é um aspecto de extrema importância para eles. Para praticar uma arte marcial, há todo um ritual a ser seguido: os praticantes chegam, limpam o dojo, organizam os equipamentos, treinam — e, mesmo durante o combate, também há uma transmissão filosófica — guardam o material e, após o treino, fazem o buridô, que é aquele momento de relaxamento para tomar uma cerveja com os colegas. Na cultura japonesa, a bebida é bem vista, tanto é que até os monge podem beber, mas sempre com muita responsabilidade e no tempo certo.
Outra característica forte das artes marciais é aproximar o coletivo, mesmo que a evolução seja individual. Cada um trabalha uma questão e isso advém da prática e da supervisão corretas, porém, a soma de conquistas individuais traz benefícios para o grupo. Pequenas melhorias são conquistadas rapidamente, mas o praticante passa a vida toda se transformando e se aprimorando. 
 
Valores transmitidos

Na tradução, samurai é aquele que serve, portanto, sua condição existencial era servir ao mestre, ao feudo e à comunidade. Essa devoção filial, de cuidar dos pais e dos mestres, reflete, no dia a dia, em ser útil em tudo o que for preciso, estar de prontidão, proteger o mestre. Para os samurais modernos, esse valor é refletido em cidadania, que começa a ser praticada dentro de casa, sendo um bom vizinho, estando atento ao redor, ser uma pessoa de boa índole e que demonstre respeito com os outros. “Para quem treina, pratica e luta, seu servir é isso: ser cidadão”, ressalta Ricardo. 

Os samurais serviam com honra e não podiam ser superados. Geralmente, é vencido quem não tem determinação e foco, por isso, quando um samurai era superado, ele cometia o suicídio. Se isso era a realidade do século XV, hoje as pessoas não têm vergonha de suas fragilidades e, muitas vezes, não se dão conta de que grande parte dos problemas é consequência das próprias atitudes. Ricardo alerta que essa atenção às ações é levada para o dojo. “Essa questão de não ser superado é muito forte. Hoje, quem é superado arca com demissões, fracassos, insucessos, escolhas ruins, entre outras ‘reações’ negativas. O treino ajuda a tomar decisões no combate como se toma no dia a dia”, esclarece o Sempai, lembrando que todo adulto tem que tomar suas próprias decisões e estar ciente das consequências.

Além de toda a parte filosófica envolvida e de trabalhar o potencial de cada um, as artes marciais também trazem benefícios físicos, embora não seja esse o objetivo. Um treino moderado de Kenjutsu, por exemplo, queima de 1.000 a 1.600 calorias por hora. Há três motivos para se perder tantas calorias. Primeiro, porque as técnicas trabalham bem as pernas e quadris, algumas incluindo agachamentos e pulos. Em segundo, há muitas técnicas que utilizam as duas mãos, ou seja, é como se o praticante estivesse “nadando” o tempo todo com uma espada em cada mão. Em terceiro, lutar com o bogu (equipamento de proteção) é como lutar carregando uma armadura samurai de 5 a 6 kg, por isso, só de ficar em pé, parado e respirando já se perde calorias. O alongamento também é bastante rigoroso. 

O treino das crianças dura uma hora e dos adultos, duas horas. No Instituto Cultural Niten de Ribeirão Preto, as aulas acontecem às terças e sábados. No total, são 60 unidades no Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e México, e agora o Instituto está indo para a Europa também. Seus fundadores pertencem à primeira família que abriu as artes marciais para os ocidentais treinarem também. Criado em 1993 pelo Sensei Jorge Kishikawa para difundir ensinamentos milenares, o Instituto Cultural Niten é considerado um dos maiores centros de ensino das artes tradicionais dos samurais fora do Japão. 

No Brasil, mais de dez mil pessoas passaram pelo Instituto e, hoje, há mais de dois mil alunos treinando, número maior que no Japão. O Niten recebe alunos dos cinco aos 80 anos e tem uma hierarquia parecida com uma instituição militar, em que o topo é conquistado pelo tempo de dedicação e pelo respeito. Quando mais graduado for o praticante, mais responsável por cuidar dos outros, dos mais novos e do próprio local de combate.

Um ritual à parte

A prática das artes marciais é extremamente rígida com a segurança e a indumentária de luta tem a função de proteger o praticante durante o combate. Composta por kimono, hakama, tabi e outros itens, inclusive os de segurança, há uma sequência e cuidados especiais na hora de vestir. Para finalizar, são empunhadas as espadas, longas ou curtas ou os bastões. Para o Kenjutsu é usada a espada de bambu (shinai). Para o Iaijutsu e o Jojutsu são usados bastão e espada de madeira (jo e bokuto). Para o Iajutsu é usada a espada de metal sem fio. A espada de corte não é usada em combates e seu uso deve ser supervisionado. Todas elas vem do Japão. Conta a história que o hakama é usado por ser uma vestimenta que escondia os pés dos samurais e, assim, não se revelava de imediato a escola ou estilo de combate durante a luta com espadas. Outro motivo é que as pregas dessa calça tradicional japonesa representam as Sete Virtudes do Código do Guerreiro e esses princípios eram mais importantes para o samurai que sua própria vida. Por causa disso, no final dos treinos, o hakama é dobrado sistematicamente para que o guerreiro conserve as virtudes. 



Modalidades

Kenjutsu: criado há mais de 600 anos, o Kenjutsu é a arte da espada samurai. É estudada uma grande quantidade de técnicas e posturas de luta, até mesmo com duas espadas, utilizando equipamento de proteção e espadas de bambu para segurança.

Iaijutsu: arte de desembainhar o Katana, a espada Samurai. O Iaijutsu desenvolve concentração e presença de espírito e ensina a estar preparado em todos os momentos para encarar as situações adversas com serenidade e segurança.

Jojutsu: técnica do ataque com bastão contra a espada. Com o bastão, é possível desarmar e render o inimigo com espada. Essas técnicas estão incorporadas aos treinamentos samurais desde o século XVIII.

Texto: Máisa Valochi
Fotos: Ibraim Leão
Arte: Marcelo Mantovani

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