À frente da casa
Eleito presidente da Câmara Municipal de Ribeirão, Alessandro Maraca compartilha expectativas e projetos para o futuro da cidade, além de comentar o processo eleitoral ocorrido durante a pandemia
Texto: Marina Aranha
Em um período eleitoral marcado pela pandemia de Covid-19, em 2020, Alessandro Maraca (MDB) sentiu na pele os efeitos da doença: o então candidato a vereador contraiu o novo coronavírus e, dos 45 dias de campanha, passou pelo menos 20 em isolamento e recuperação. A doença, contudo, não impediu o tête-à-tête com os eleitores: Maraca usou e abusou das redes sociais e das videochamadas para manter contato com os ribeirãopretanos. A estratégia colaborou na conquista dos 2.887 votos que o reelegeram para o segundo mandato na Câmara Municipal. Essa segunda temporada na Casa de Leis, contudo, começa diferente para o parlamentar: na cerimônia de posse, em 1º de janeiro, Maraca foi eleito presidente da Câmara. Na entrevista a seguir, o vereador compartilha as expectativas para Ribeirão Preto e os projetos que estarão no radar do Legislativo municipal a partir de 2021.
Como foi a experiência de ter participado de um processo eleitoral em plena pandemia de Covid-19, no segundo semestre de 2020?
A eleição de 2020 foi diferente de todas que eu participei, principalmente por conta da pandemia, mas tivemos outras mudanças interessantes que impactaram, por exemplo, o número grande de candidatos última eleição — tivemos um número recorde de candidatos, justamente porque a legislação eleitoral proibiu a coligação proporcional, o que trouxe, também, um lado bom, que é o fortalecimento dos partidos. Em contrapartida, tivemos muitas candidaturas que foram postas para preencher o número mínimo legal, o que fez com que muitos votos fossem divididos pela cidade. Com relação à pandemia, foi um grande problema e um grande desafio, até porque eu peguei Covid-19 durante o período eleitoral. Mesmo cumprindo todos os protocolos, o vírus acabou me atingindo — dos 45 dias de campanha, pelo menos 20 desses eu passei acamado. Quando senti os primeiros sintomas me isolei imediatamente e, graças a Deus, não tivemos maiores prejuízos. Sem dúvida, a pandemia afastou um pouco os candidatos dos eleitores. Nós utilizamos aplicativos de videochamadas para reuniões e as redes sociais, que foram cruciais para que pudéssemos levar ao eleitor a nossa mensagem, principalmente a mensagem do que tinha sido feito no nosso primeiro mandato.
Quais as principais lições que absorveu com o primeiro mandato e o que espera aprimorar neste segundo?
O primeiro mandato foi de muito aprendizado, mas também de muito trabalho. Nós levantamos algumas bandeiras e tivemos muito sucesso com elas. Lideramos a luta contra o fechamento do pronto-socorro Central, rechaçamos na Câmara Municipal por quatro vezes o projeto de aumento da Planta Genérica de Valores (PGV), o que culminaria no aumento do IPTU; aprovamos projetos importantes também — alguns desses projetos vetados pelo prefeito ganhamos na Justiça, como o projeto que só permite que sejam extraídas árvores com a compensação antecipada, ou seja, para extrair tem de plantar antes; brigamos pela qualidade do tapa-buracos e tivemos sucesso nisso: hoje, mais de 50% do tapa-buraco feito no município tem utilizado normas técnicas — isso foi um avanço da CPI na qual eu foi presidente. E agora, no segundo mandato, com mais experiência, queremos fazer muito mais pela cidade: mais projetos, continuar na fiscalização, representando as pessoas e buscando mais emendas parlamentares que contemplem o município.
Quais serão suas principais metas enquanto presidente da Câmara?
Não posso adiantar todas por conta do planejamento que estamos realizando, mas entre as propostas já definidas, estão: a redução e substituição do papel pela digitalização e Certificação Digital a implementação de políticas de consumo consciente na Casa, arborização e ocupação do verde onde for possível, abertura do estacionamento do prédio da Câmara aos finais de semana para visitantes do Parque Maurilio Biagi e a implantação da energia fotovoltaica. Em tempo: a energia fotovoltaica, além de ser uma energia limpa, a médio e longo prazo trará economia aos cofres públicos, sinalizando a nossa responsabilidade ambiental e com o erário. Contudo, essa ação também será simbólica, porque ela manda um recado para o Executivo municipal, pois a Câmara será o primeiro prédio público com essa iniciativa. Economia e responsabilidade socioambiental, essa é a linha política do futuro!
Com relação às próximas pautas a serem discutidas pela Casa, o que o ribeirãopretano pode esperar de mais relevante para o município?
A Câmara Municipal tem várias discussões importantes este ano. Talvez a mais importante delas seja a lei de Uso e Ocupação de Solo — essa é uma das Leis Complementares do Plano Diretor que foi aprovado na Casa. Na verdade, existe um atraso por parte de Executivo para que esse projeto chegue à Câmara Municipal. Chegando, abriremos um amplo debate com a população para fazer a melhor Lei de Uso e Ocupação de Solo para a cidade — nós precisamos repensar a forma como Ribeirão Preto quer crescer: alguns bairros estão ficando obsoletos, precisam ter mudanças em sua constituição e bairros novos precisam receber garantias de qualidade de vida para as pessoas. Tudo isso vai poder ser discutido no plano de Uso e Ocupação de Solo, pois é lá que nós vamos dizer como a cidade deseja crescer.
Com relação à pandemia, como o senhor avalia as políticas federal, estadual e municipal contra a Covid-19?
Acho que houve equívoco de todas as partes, primeiro na tentativa de se politizar uma questão de saúde. A Covid-19 tinha de ser tratada como questão de saúde pública e de primeira necessidade para a cidade. Nós vimos, em um primeiro momento, embate entre o presidente da República e o governador do estado, que não trouxe ganho para ninguém. Aliás, hoje nós amargamos um prejuízo com a demora da chegada da vacina e vemos, ainda, uma dificuldade na transição financeira, pois tivemos o fim do auxílio emergencial em dezembro de 2020 e, com isso, podemos ter uma agravamento nos problemas socioeconômicos do Brasil. O brasileiro ainda precisa de ajuda para se manter e os empresários mais ainda para manter os postos de trabalhos abertos e diminuir os prejuízo do impacto na economia.
Quais devem ser as prioridades para Ribeirão Preto, neste momento?
Ribeirão Preto deve priorizar a saúde das pessoas, com uma ampla campanha de vacinação disponibilizada de forma universal para toda a cidade. Precisamos lembrar que a cidade tem obras inacabadas. Algumas dessas obras estão em ritmo lento, precisam ser retomadas e entregues com qualidade e sem problemas. É importante que as obras de mobilidade continuem. Precisamos priorizar, também, ações para as pessoas em situação de rua. Ribeirão Preto tem recebido, todos os dias, pessoas que vêm de fora em situação de rua e não tem dado conta sequer das pessoas que aqui estão: durante a pandemia, a Cava do Bosque atendeu essas pessoas de forma paliativa, mas sem conseguir avançar com projetos sociais.
Qual sua expectativa com relação ao próximo governo municipal de Ribeirão Preto?
Minha expectativa é de que o prefeito, Duarte Nogueira (PSDB), faça uma reflexão dos erros e acertos do seu primeiro mandato, e possa acertar mais no segundo mandato. Eu gosto da frase utilizada por ele de que “essa não é uma continuidade de governo, mas um novo mandato e precisa ser assim”. Nós precisamos que o cidadão seja visto, os números para a cidade são importantes, mas as pessoas devem ser mais importantes que os números.
Qual será o seu papel com relação à administração municipal?
O meu principal papel é manter a independência da Câmara Municipal, proporcionando ao Executivo justiça quando manda bons projetos. Mais uma vez dizendo: a Câmara Municipal precisa analisar todos os projetos — alguns que serão votados este ano, como a Lei de Uso e Ocupação do Solo —, mas, além deles, há as leis dos vereadores, que são tão importantes para o bom andamento da cidade quanto as que o prefeito encaminha para nós.
Qual é seu maior desejo para 2021?
O meu maior desejo para 2021 é o fim da pandemia, mas também que Ribeirão Preto cresça com qualidade e resolva alguns de seus problemas. Nós estamos levando algumas propostas para o prefeito, como a solução para o Parque Permanente de Exposições via Parceria Público Privada (PPP), a ocupação da Cianê Matarazzo, onde já levamos a possibilidade, no passado, de haver uma escola do Sesi no local e nada foi feito; ruas que até hoje não são asfaltadas — são pelo menos dez com trechos sem asfalto há mais de 20 anos; precisamos resolver problemas como o da Comunidade Vida Nova, onde o esgoto retorna para dentro da casa das pessoas; precisamos resolver problemas de Áreas de Preservação Permanente (APPs), como no Adão do Carmo e Orestes Lopes, onde estão invadindo e destruindo essas áreas de preservação permanente com criação de porcos, cavalos e galinhas. Nós precisamos de cuidar de pequenos problemas da cidade que trarão reflexos enormes para todos os moradores.