A globalização da enfermagem da USP

Para Isabel Amélia Mendes, a qualidade da Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto despertou o interesse da ONU

Criada há mais de 20 anos, a Rede Global de Centros Colaboradores da Organização Mundial de Saúde  escolheu Ribeirão Preto para implantar a primeira sede no hemisfério sul, que trabalha com foco nas áreas de Enfermagem e de Obstetrícia. Um dos fatores decisivos para a escolha do local foi a qualidade acadêmica e de formação profissional da Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto (EERP), o que ampliou a visibilidade da enfermagem brasileira no mundo. 

Com apoio do Ministério da Saúde e da Organização Pan-americana da Saúde (OPAS), a Rede atua no Brasil, desde 2008, sob o comando da secretária geral Isabel Amélia Costa Mendes. Organizações internacionais independentes e sem fins lucrativos, os Centros Colaboradores de Enfermagem e Obstetrícia (CCOMS) contam com o trabalho voluntário de personalidades e de especialistas do mundo inteiro. Instalados em grandes instituições de excelência acadêmica, há cerca de mil centros mundiais em saúde mantidos pela OMS, sendo 45 deles voltados especificamente para a Enfermagem e a Obstetrícia.

Graduada pela EERP-USP, Isabel Amélia, que tem mais de 40 anos de carreira, destaca que sediar este órgão é motivo de orgulho, não só para a cidade ou para o Brasil, mas para a América Latina. Por esse motivo, desde a criação, a sede é apoiada pelo Ministério da Saúde e tem a responsabilidade de representar o país internacionalmente. A presença de uma rede tão importante na Faculdade de Enfermagem da USP em Ribeirão reforça, ainda, a excelência da instituição de Ensino Superior, além de permitir a internacionalização do conhecimento e o aprimoramento profissional.

Inaugurada em agosto de 1953, a Escola possui 103 docentes e 125 funcionários. Referência em pesquisa desde os anos 60, quando poucas faculdades da área tinham a investigação científica como rotina, a EERP possui, atualmente, uma complexa estrutura que abrange laboratórios de ensino, pesquisa e práticas de enfermagem, além de um núcleo de informática e dos espaços acadêmicos, administrativos e de convivência. Em 58 anos, a faculdade graduou 2.730 enfermeiros, 970 mestres e 587 doutores nos cursos de Bacharelado e Licenciatura em Enfermagem, mestrado e doutorado. Todos os anos, 130 novas vagas são oferecidas.

Depois  de oferecer por mais de 50 anos o curso diurno de graduação em Enfermagem (Bacharelado), a EERP viabilizou a criação de turmas noturnas no curso de bacharelado e licenciatura, visando à inclusão social. “Buscamos melhorar a qualificação de quem já atua no mercado de trabalho e que, por algum motivo, não teve condições de se profissionalizar”, explica Isabel. Por causa desta demanda, a estrutura física da faculdade, que já é próxima de 10 mil m², está sendo ampliada em 1 mil m² e também deve incorporar os avanços tecnológicos do setor, ampliar a capacidade de pesquisa e aumentar as ações de serviços à comunidade.

De acordo com Isabel Amélia, que também dirige o CCOMS brasileiro, a EERP foi uma das pioneiras a implantar a internacionalização da enfermagem como meta, incentivando o intercâmbio de alunos e promovendo ações para o desenvolvimento da categoria profissional. A professora afirma que receber a Rede Global no país ampliou a disponibilidade de materiais internacionais atualizados em português para instituições e profissionais brasileiros, facilitou o acesso a instituições no exterior, deu visibilidade a experiências e a produções científicas nacionais, além do país ter conquistado representatividade em importantes reuniões e eventos internacionais de enfermagem e de saúde.

Como ferramenta de difusão do conhecimento, a Faculdade criou, por exemplo, a Revista Latino-americana de Enfermagem, editada também em português, inglês e espanhol. A publicação surgiu como resultado de um trabalho vinculado ao compromisso da Escola em ser um Centro Colaborador da OMS, contribuindo para o desenvolvimento da pesquisa nessa área do conhecimento na América Latina e também nos países africanos de língua portuguesa. “Publicamos também a Revista de Saúde Mental, Álcool e Drogas (SMAD), criada  recentemente”, enumera Isabel.

Sem fronteiras
Segundo a secretária geral da Rede, entre os fatores positivos da integração com a OMS estão a exportação do know-how brasileiro em relação ao ensino, a facilidade de parceria em pesquisas, principalmente com os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOPs) e a maior contribuição brasileira para atender às necessidades de organização e de qualificação de recursos humanos em saúde. 

O Brasil também ampliou a colaboração com a América Latina e o Caribe, oferecendo formação em pesquisa em álcool e em drogas para enfermeiros e profissionais de áreas relacionadas. Desde 2002, a EERP formou 199 profissionais de 19 países, sendo que os três primeiros cursos oferecidos foram presenciais. Em 2005, a Escola de Enfermagem da USP foi pioneira no campus de Ribeirão Preto ao oferecer especialização à distância. Desde então, já foram formadas seis turmas, sendo que a sétima está em andamento, com 35 profissionais de dez países.

Outra iniciativa importante da EERP foi a formação de doutores  mexicanos e chilenos em Enfermagem. Como ação de destaque da Rede Global, Isabel salienta também as reuniões do Comitê Executivo, os workshops juntos aos profissionais africanos (PALOPs) e a Conferência Mundial, realizada no Brasil em julho de 2010. “Tivemos a honra de receber a princesa Muna Al-Hussein, da Jordânia, para a conferência de abertura”, relembra Isabel Amélia, secretária do CCOMS até 2012.

Outro ponto positivo dessa integração à Rede Global foi a mudança na grade curricular da faculdade. “As alterações permitiram que o aluno vivenciasse ainda mais a realidade do Sistema Único de Saúde (SUS),  que recebe a maioria dos profissionais de Enfermagem”, explica Isabel, lembrando que o Hospital das Clínicas é um dos principais campos de experimentação profissional e de desenvolvimento de pesquisas, tanto para a faculdade de Medicina como para a Enfermagem.

Inquieta por natureza e ciente do papel do enfermeiro na sociedade atual, Isabel reforça que a Escola prepara o aluno para desenvolver uma análise global de cada paciente, com base nas premissas do SUS e na política internacional da atenção primária renovada.

O trabalho dos enfermeiros é ainda mais abrangente. Em 2002, a diretora geral da OMS, Gro Harlem Brundtland, afirmou que “os serviços de enfermagem e obstetrícia constituem a coluna vertebral dos sistemas de saúde em todo o mundo.” Pesquisas mostram que profissionais treinados em Enfermagem e Obstetrícia podem atender  aproximadamente 80% das necessidades de assistência de saúde, índice que sobe para 90% no caso das crianças,  com a mesma qualidade da atenção prestada pelos médicos.

Texto: Rose Rubini
Fotos: Júlio Sian

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