A grandeza de um menino

O tenor Jean Willian surpreende o público em suas apresentações

Quem vê o rapaz franzino subir ao palco, não tem ideia do que ele é capaz. Assistir à apresentação do tenor Jean William é sempre uma surpresa: basta ele soltar as primeiras notas para todos perceberem que, apesar da aparência, Jean está muito longe de ser um menino.

Com 25 anos recém-completados, decidiu se dedicar profissionalmente ao canto lírico há dez anos. Mas, em sua breve carreira, já galgou degraus que ainda fazem parte apenas do imaginário de artistas que estão na estrada há muito mais tempo, como apresentar-se na Sala São Paulo, um dos mais conceituados palcos brasileiros. Segundo o tenor, esse foi um dos momentos mais emocionantes que viveu, já que significa cantar para um público seleto, conhecedor da música erudita. “Também fiquei muito emocionado em pensar que talvez estivesse chegando muito cedo a um lugar que muitos anseiam. Além de ter consciência do quanto consegui conquistar, fiquei feliz por mostrar a minha história, a história de meus avós, o esforço deles, o apoio de minha madrinha, dona Júlia, dos amigos e de tantas outras pessoas”, explica.

Como resultado de sua curta trajetória, o artista que foi conduzido ao meio erudito pelas mãos de Cristina Angelotti, com quem iniciou seus estudos, já serve como referência a muitos jovens de origem humilde que sonham alcançar um lugar de destaque nesse cenário. Mas Jean ressalta que não se trata apenas de querer vencer, de superar obstáculos, mas também de dedicação e entrega, já que as pessoas ajudam apenas aqueles que se dispõem a ser ajudados. “Ser uma referência, de alguma forma, para contribuir com a vida das pessoas me emociona e quero continuar tendo participação positiva na vida delas”, afirma.

O tenor também já teve oportunidade de participar de grandes eventos, como o Festival de Brasília, o Festival Música nas Montanhas e o Festival Internacional de Campos do Jordão, além de frequentar aulas e master-classes com nomes de destaque no cenário lírico mundial, como a soprano Rosana Lamosa, o tenor Fernando Portari, Elena Obrasztova, Celine Imbert, John Snijders e Robert Bishop.

Jean se apresentou, em setembro de 2010, no Metropolitan Museum, em Nova Iorque, em evento da Brazil Foundation, com João Carlos Martins ao piano, a convite do publicitário Nizan Guanaes. A apresentação contou com a presença da top Gisele Bündchen, além de outras celebridades hollywoodianas. O tenor ainda estendeu sua visita à Big Apple com uma temporada de inverno no Castelo de Caras, quando novamente se apresentou ao lado de João Carlos Martins e de Arthur Moreira Lima para plateia VIP. Também dividiu o palco com outros cantores, como Simone, Daniel, Chitãozinho e Xororó e Fafá de Belém. Em 2009, participou de evento promovido em homenagem ao ex-presidente Lula.

Para concretizar sonhos, o artista não pode ser provinciano: tem que querer brilhar, ansiar o centro do palco, o que requer foco e estratégia. Depois de ser iniciado por Cristina Angelotti, ingressou no Departamento de Música da ECA-USP de Ribeirão Preto e graduou-se Bacharel em canto sob orientação de Yuka de Almeida Prado. Atualmente, estuda sob orientação de Francisco Campos Neto (técnica vocal) e de Marcos Aragoni (vocal coach). Para esse artista que nasceu em Sertãozinho, foi criado em Barrinha, vive em São Paulo, mas pretende ganhar o mundo, a jornada está apenas no início. “Na verdade, a minha carreira está começando agora. Até então, vivia um momento de estudo, de dedicação, de muita busca. Hoje tudo está amadurecendo, mas ainda está muito verde”, garante.

O segredo para ter chegado tão longe em tão curto espaço de tempo, segundo ele, é a formação sólida proporcionada no âmbito profissional por grandes professores e incentivadores e, no âmbito pessoal, por familiares que, apesar das dificuldades, nunca se ausentaram e sempre o apoiaram. “São pessoas amorosas, que me dão valor. Tenho uma grande madrinha — a dona Júlia — que sempre me auxiliou, deu conselhos e se doou. Ela abandonou a vida dela para viver a minha, para me ajudar a construir uma carreira. Outra coisa de que me orgulho muito é de ter cursado a USP, que é uma referência em música no nosso país para o exterior”, aponta o tenor.

Essa conquista implica dedicação, estudo e contatos. Nesse sentido, destaca a importância de Mônica Bérgamo, que o colocou em contato com o maestro João Carlos Martins, a quem deve essa projeção maior. “Ele foi o padrinho que me apresentou para o país”, afirma o tenor, que é contratado pela Orquestra Filarmônica Bachiana SESI-SP. Mas essa notoriedade também acarreta renúncias, sobretudo porque, em seu caso, a projeção é bastante atrelada à imagem. “Renunciei à noite e às baladas mas, ao mesmo tempo, estou vivendo aquilo que mais amo, faço aquilo que mais me dá plenitude, então, eu sou muito feliz”, assegura.

Além do mais, os abusos podem tornar concreto o seu maior medo: perder a voz. Jean destaca que na classe artística o cantor é o que sofre mais com o fator saúde porque é, ao mesmo tempo, instrumentista e instrumento, o que o faz, de certa forma, viver dentro de uma bolha.
Outra face do sucesso é uma rotina intensa, que inclui o estudo do canto e de técnicas vocais, leituras de óperas, o trabalho desenvolvido na Fundação Bachiana, com concertos e palestras dadas por João Carlos, além de visitas a grandes periferias da capital e do interior, a centros de educação musical e a participação em entrevistas e programas de televisão.

Além da própria voz, Jean tem bastante afinidade com outros três instrumentos: o piano, o violão e o pandeiro. Afrodescendente, o Brasil que encontrou no início de carreira também se mostrou um país de preconceitos. “Imagine: vindo de uma cidade pequena, sem recursos, cai nas graças de gente que acha que você tem talento. Eles logo pensam ‘pô o cara é negro e vai querer ser cantor de ópera? Nem combina’. Já ouvi alguns comentários bem preconceituosos”, recorda. Para Jean, esse foi apenas mais um dos obstáculos que teve que superar no seu dia a dia. “São pessoas tão insignificantes que não mudam a minha vida, nem tiram a minha perspectiva profissional. Eu tenho uma flecha, um arco e um alvo que não posso desviar. Quando isso acontecia, ficava triste, abatido, mas depois deixava que a vida cumprisse seu curso”, garante.

Apesar de o Brasil ser um país sem muita tradição na música erudita, Jean percebe algumas mudanças positivas: teatros lotados e iniciativas de democratização da música já mostram resultados, como o trabalho desenvolvido junto à Bachiana, em que pessoas começam a ter acesso à música até então inacessível e se apaixonam. “A oportunidade que está se criando, com a inclusão da educação musical nas escolas, com a divulgação que alcança mais classes sociais e dá a oportunidade de pessoas da periferia irem ao teatro, com todos os projetos que levam aos concertos gente da Fundação Casa, do Céu para a Sala São Paulo”, enfatiza.

Mudanças que, entretanto, não tornam o país um lugar de grandes aspirações para o cantor lírico. “Não vejo perspectiva de viver de ópera cantando só no Brasil”, assegura. Mas não se omite frente à sua responsabilidade social e acredita que para se aprimorar terá que se dividir entre Europa, Estados Unidos e Brasil. “É importante pensar também no retorno. Eu fui ajudado por centenas de pessoas,
das mais diferentes classes e culturas. É uma maneira de agradecer ao meu país, às pessoas que acreditaram no meu potencial”, acrescenta.

Como todo artista, Jean busca o reconhecimento, o que implica se destacar em grandes centros, como o Metropolitan, o Teatro Scala, de Milão, o Ópera de Viena, o Teatro Municipal de São Paulo. Mas quando sua carreira estiver no topo, pretende desenvolver um trabalho de conscientização musical, principalmente no interior. Um compromisso de quem sabe que origem humilde e falta de acesso não são suficientes para impedir a realização de um sonho. “Eu vim de onde vim e consegui despertar o gosto pela música erudita e uma visão cultural” comenta.

Para o cantor lírico é importante conduzir as pessoas pelos caminhos da cultura, ajudá-las a desenvolver, através da música, a politização, o altruísmo, a vida social, como aconteceu com ele, para que no futuro o brasileiro possa contar com um lugar mais promissor, construído sobre as bases do senso crítico. Além do mais, não há como negar que foi na origem humilde que tudo começou. “A gente tem que pensar no lugar de onde veio porque é de lá que a gente aprende a ver o céu”, conclui.

Texto: Carla Mimessi
Fotos: Carolina Alves

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