A humanização do nascimento

A humanização do nascimento

Em Ribeirão Preto, mulheres se únem para mudar a realidade dos partos. Para elas, cesárea só em último caso

No último dia 29 de setembro de 2013, ocorreu o primeiro parto humanizado dentro de um ambiente hospitalar em Ribeirão Preto. O palco para o show da vida foi o Hospital RDOViver e os protagonistas foram o casal Andréa Santos Almeida Antônio, biomédica, e Alessandro de Almeida Antonio, diretor administrativo. Pais da Maria Fernanda e do pequeno Antônio. “Tenho paúra à cesárea. É uma cirúrgia de grande porte e, em muitos casos, desnecessária. Por isso optei pelo parto humanizado”, explica Andréa.

Durante a gestação da primeira filha, há aproximadamente quatro anos, a biomédica teve um parto normal tradicional hospitalar. Porém, não totalmente humanizado, pois foi colocada na posição horizontal, o que, na opinião dela, intensificou as dores. “Nas gravações do parto dá pra me ouvir gritando e xingando o médico. Embora eu não me lembre disso”, conta com bom humor.

No segundo parto foi bem diferente. Andréa soube que, em Ribeirão Preto, um hospital já se estruturava para receber partos humanizados. Ela mesmo organizou seu roteiro de parto e entregou à equipe do hospital. “Parto Humanizado é isso: entender que o projeto de nascer é único! O que é humanizado para mim, pode não ser para outra mulher. Após dar a luz, Andrea quis comer macarrão de quinoa. Assim foi feito”, conta Raquel Vivanços, enfermeira obstetra responsável pelo projeto de estruturação do hospital RDOViver. “Sempre tive, durante a minha formação, a filosofia do parto humanizado. Ser convidada para estruturar este projeto e, após dez anos de formada, testemunhar um parto verdadeiramente humanizado, é uma realização pessoal e profissional muito grande”, comemora Vivanços.

Mais humano
Neste sábado, dia 19 de outubro, acontecerá a “Marcha pela Humanização do Parto”. O encontro será no Parque Carlos Raya, às 10 horas.

O intuito da marcha, segundo a médica Marina Bagnara Fernandes, uma das organizadoras do evento na cidade, é conscientizar outras mulheres que o parto normal é natural.

A médica Marina Bagnara Fernandes optou pelo parto humanizado em casaA médica possui uma histórico de partos muito parecido com o da Biomédica Andréa Santos Almeida Antônio. Em 2011, quando a médica engravidou pela primeira vez, já tinha a certeza de que não queria passar por um processo cirúrgico para ter a sua filha. “Sou médica, sempre tive plena consciência e informação de que o parto normal é mais seguro para a mãe e para o bebê”, argumenta Marina.

Passados os nove meses, Marina conseguiu evitar a cesárea. No entanto, a experiência não foi plenamente satisfatória. Marina ressalta que, assim como durante toda a gestação, o parto também é um momento onde as mulheres precisam de bastante amparo e acolhimento. “Quando senti necessidade deste amparo, a única alternativa que a equipe médica me ofereceu foi analgesia farmacológica. Isso gerou uma cascata de outras intervenções que tornaram tudo mais difícil”, conta a médica, que precisou de ocitocina sintética [hormônio que potencializa as contrações uterinas para que o nascimento seja mais rápido]. Procedimento que, segundo ela, anulou a sensibilidade das contrações, tirando seu protagonismo de mãe durante o trabalho de parto. “Então, na hora de fazer força, precisei ser comandada pela equipe, me posicionaram na horizontal e me fizeram uma episiotomia (corte na vulva para ajudar na saída do bebê)”, conta.

Após a experiência, buscando entender o que aconteceu durante o parto e se todos os procedimentos aplicados foram realmente necessários, a médica passou dois anos estudando assistência ao parto. Nesse período, Marina descobriu o Parto Humanizado. Para ela, uma possibilidade de um outro tipo de assistência. “Quando engravidei novamente, minha opnião já estava formada. Eu queria um parto humanizado e além disso, queria um parto natural e domiciliar”, enfatizou.

Apoiada pela família e pelo marido, também médico, Marina teve seu segundo filho em casa, assistida por uma equipe multidisciplinar, formada por duas enfermeiras obstétricas, habilitadas e equipadas a fazer reanimação neonatal e o atendimento inicial de emergência, se necessário. As enfermeiras também realizaram o pré-natal em conjunto com o médico. Duas doulas cuidaram do resto. Proporcionaram conforto físico, oferecendo massagens, exercícios na bola de pilates, bolsa de água quente, banheira para imersão. As doulas atuaram acalmando a família, que estiveram presentes durante o processo. Cuidaram também de todo o ambiente. Cozinharam, ofereceram comida e bebida, limparam os vestígios do parto, lavaram lençóis e toalhas.

“O médico que realizou meu pré-natal ficou de sobreaviso e me atenderia no hospital, caso eu precisasse de uma transferência na hora do parto”, salienta Marina.

Parto Humanizado
Eleonora de Moraes, idealizadora da Despertar do PartoEleonora de Moraes, psicóloga, doula e idealizadora da Despertar do Parto, explica que o termo ‘Parto humanizado’ não deve ser entendido como um ‘tipo de parto’. A humanização do parto, na opinião dela, é um processo e não um produto que é entregue pronto.

“Acredito que estamos a caminho de tornar cada vez mais humano este processo. Isto é, tornar cada vez mais pessoas conscientes da importância de um processo que sempre foi instintivo e natural”, salienta Eleonora.

“A ‘humanização do parto’ entende a gestação e o parto como eventos fisiológicos perfeitos, cabendo a obstetrícia apenas acompanhar o processo e não interferir buscando ‘aperfeiçoá-lo’”, completa.

Raquel Vivanços, enfermeita obstetra, é responsável pelo projeto do RDOViverPara Raquel Vivanços, enfermeira obstetra, o Parto Humanizado é quando a gestante escolhe a maneira como quer parir. “Pela primeira vez a mulher está retomando o protagonismo na hora do parto. Parindo da meneira que ela planeja e não como a instituição oferece”, comemora.

Silvana Quintana, Professora Associada do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e Diretora do Centro de Referência em Saúde da Mulher (Mater), afirma que a cesárea não é considerada um parto humanizado, pois é cirúrgica, onde a mulher não tem participação fundamental ou domínio do processo. “Não quer dizer que a cesárea seja errada, ou que não deva nunca ser indicada. O que é importante frisar é que a cesárea apresenta todos os riscos atribuíveis a uma cirurgia deste porte, como complicações anestésicas e infecciosas. Contudo, é um procedimento muito importante e quando bem indicado pode preservar a saúde materna e fetal”, explica Quintana. O problema da cesárea, ainda na opinião de Silvana, são os motivos pelos quais elas são realizadas. “Atualmente se indica cesárea porque o médico não faz parto vaginal, porque a paciente quer programar a data, porque o convênio não aceita internação de urgência. São inúmeras situações sem qualquer base em evidências científicas que mostrem benefícios para a mãe e recém-nascido”, conclui.

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Texto: Bruno Silva
Fotos: Ibraim Leão e Divulgação

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