A inserção dos migrantes

A inserção dos migrantes

Pesquisa foi realizada em três cidades, duas do interior de São Paulo e uma do interior do Piauí

Segundo pesquisa realizada em tese de doutorado de Sociologia, iniciada em 2006 e defendida pela socióloga Andréa Vettorassi, em 2010, as relações e as redes sociais existentes entre migrantes rurais nordestinos e os moradores das cidades do interior paulista interferem na convivência social que esses migrantes mantêm com as populações dessas cidades. 

Na pesquisa, Andréa realça as diferenças sociologicamente relevantes entre as redes sociais e as identidades dos migrantes de Guariba e Serrana. “É perceptível que as redes sociais ora organizam o entendimento, ora organizam o consenso, ora organizam a revolta”. Isso mostra que os dois municípios acolhem os trabalhadores de modos diferentes sob a questão das redes e espaços sociais. De acordo com o ponto de vista dos nordestinos entrevistados por Andréa, essas redes mais integram do que exploram e interferem no projeto dos trabalhadores que, inicialmente, pretendem retornar às terras de origem, ou seja, os migrantes chegam com a intenção de voltar no fim da temporada da safra, mas acabam ficando.

A pesquisa foi realizada em três cidades, duas do interior de São Paulo e uma do interior do Piauí. As cidades de Serrana e Guariba — pertencentes à região de Ribeirão Preto —, ambas de economia sucroalcooleira, possuem a mesma quantidade de habitantes e recebem anualmente um alto número de migrantes para o trabalho no corte da cana, mas por conta de aspectos históricos as duas cidades se relacionam de forma bem diferente com os migrantes. 

De acordo com a tese apresentada por Andréa, que possui graduação e mestrado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e doutorado em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os municípios de Guariba e Serrana têm diferenças socioeconômicas significativas. O município de Guariba é constituído pela economia cafeeira no início do Século XX e Serrana pela sucroalcooleira, mas as taxas de crescimento possuem tendências opostas. Enquanto a população de Guariba tem decrescido, a população de Serrana tem aumentado. “O saldo migratório intrarregional de Guariba é atualmente negativo, enquanto que o de Serrana é positivo”, relata Andréa em sua tese.

A pesquisadora ainda explica que os desmembramentos foram realizados de formas diferentes. “Todos esses aspectos contribuem com as reflexões sobre a relação diferenciada entre os nativos e as pessoas vindas de fora, mas era fundamental o levantamento dos aspectos subjetivos que explicassem mais e melhor estas diferenças”, argumenta a pesquisadora. O papel dos espaços e das redes sociais foi decisivo para as discussões sobre os contextos históricos, tal como a greve dos cortadores de cana em Guariba, ocorrida em 1984, acirrando ainda mais o conflito entre esses dois grupos.

Devido a isso, a presença dos migrantes no município foi institucionalizada e tem status político, acarretando diferenças na comparação com Serrana. Sob a ótica legal, por exemplo, em Guariba, as instituições atuam em favor do migrante, fiscalizando o trabalho realizado nas usinas e no transporte, tanto dos que trazem essa mão de obra dos estados nordestinos como dos que levam esses trabalhadores às plantações de cana de açúcar.

“Determinar que Guariba e Serrana estranhamente não tenham relações sociais semelhantes porque têm uma mesma economia sucroalcooleira e um mesmo número de habitantes foram constatações do início do trabalho que não resistiram à colheita de dados empíricos mais substanciais. A matriz dessa diversidade está em seus espaços sociais, historicamente construídos de forma diferentes. Essas dessemelhanças se explicitam nas variações demográficas”, avalia Andréa.

Revide On-line (Colaborador Fernando Belezine)
Fotos: Ibraim Leão

* Publicado em 04/02/2011

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