À Margem do Sistema
O trabalho no capitalismo captura o indivíduo em uma malha de obrigatoriedades. Mas, algumas pessoas optaram por fazer o que gostam
De terno ou botina; chapéu ou gravata; no escritório; de moto por entre os carros e prédios; de sol a sol nos campos de lavoura; no frio da madrugada ou na chuva abençoada que cai despretensiosamente sobre a cidade. De cinco a seis dias por semana, nos mais diferentes ramos, turnos e horários, por oito horas ou mais, cerca de 32 milhões de brasileiros trabalham. E depois do trabalho feito: para casa.No dia seguinte, tudo de novo.
O domingo, nos termos legais, é o descanso remunerado. Talvez seja esse o único dia com a família. O trabalho, nos dias de hoje, toma a maior parte do tempo das pessoas. Para a socióloga Helena Capelini, o trabalho no capitalismo é aprisionador e captura o indivíduo em uma malha de obrigatoriedades. Mas, para fugir dessa “malha aprisionadora”, algumas pessoas optam por fazer o que gostam e buscam alternativas ao trabalho convencional. Para esses cidadãos, o desejo de exercer um trabalho vai além da necessidade do salário.
Em 25 estados brasileiros já estão registrados alguns grupos, cooperativas, organizações não governamentais e, novidade mais recente, coletivos, que reúnem trabalhadores com ideais afins. A Massa Coletiva é um desses grupos. Registrada como Núcleo Cooperativo de Produção Cultural, está localizada em São Carlos (SP) e atua sob os princípios de autogestão. O Núcleo faz parte do Circuito Fora do Eixo, que teve início em 2005, com a iniciativa de alguns produtores culturais de Londrina, Cuiabá, Uberlândia e Acre.
Daniela Teixeira, integrante da Massa Coletiva, explica que a prática do coletivo é feita de forma sustentável e todos trabalham com o sistema de “Caixa Coletivo”. “Trabalhamos com um espaço único para as entradas de caixa, de onde tiramos tudo o que precisamos, sem a necessidade de assalariarmos membro a membro, mas suprindo de maneira eficaz a individualidade de cada um”, diz.
Os oito integrantes e sete colaboradores do Coletivo contam hoje com espaço físico situado em São Carlos, sendo um desses a sede, onde se concentra escritórios e uma cozinha coletiva, além de quartos de alguns integrantes, uma moradia-estúdio, onde foi montada um homestudio e um quarto voltado à hospedagem solidária. Os coletivos também têm a sua própria “economia”. “Nesse ano criamos, a nossa moeda solidária (tecnologia também adotada do Fora do Eixo), chamada de Marcianos, que nos permite trocar serviços com outros agentes de forma organizada e alimentar, portanto, toda uma cadeia produtiva, que se fortalece com o trabalho em conjunto”, explica Daniela.
Seguindo os seus próprios passos e criando os seus caminhos, os “novos profissionais” seguem exercendo os trabalhos que sempre sonharam. Helena Capelini acredita que são poucos os que se aventuram fora da máquina convencional para se afirmar como novas subjetividades. “O que tenho visto fora disso são maioria jovens, muito jovens, e parece-me mais uma atitude movida por um reencantamento do que por uma postura realmente nova”, explica a socióloga.
Esses “novos profissionais” abandonam toda a perspectiva de conforto e saem como novos heróis, aceitando, em princípio, ocupações não convencionais que garantem a sobrevivência. Mas, a socióloga diz que, com o tempo, a maioria acaba sendo cooptada pelo grande mercado, e na vida adulta volta para o velho modelo de trabalho e consumo capitalistas. No entanto, ela também vê um lado positivo. “Sem dúvida, pelo menos para mim, essas pessoas que trabalham e sobrevivem à margem desse triturador de pessoas estão mostrando que há alternativas”, e completa, “mas ainda não é o suficiente para que haja mudanças no contexto geral da opressão pelo trabalho, em termos coletivos, mas já é algo positivo”.
O Grupo Zibaldoni, uma trupe de Ribeirão Preto que leva humor e arte às favelas, hospitais, eventos culturais e centros urbanos é outra mostra dessa possibilidade. O grupo é formado pela produtora artística Anna Casanova (23 anos) e pelos palhaços Lucas Santarosa (24 anos) e Neto Donegá (28 anos). Para Santarosa, se o trabalho não é um problema, então não há problema em trabalhar. Isso, desde que se possa fazer aquilo de que se gosta. “Se você faz aquilo que gosta, como é o nosso caso, o trabalho se confunde com a vida. Não há cansaço ou hora extra, é a nossa vida”, diz.
Outro exemplo é o vocalista da banda curitibana Sabonetes, Artur Roman. Formado em jornalismo chegou a trabalhar em outras atividades. Mas, segundo ele, os trabalhos eram sempre em segundo plano, não importava o que fizesse, a música era o objetivo principal. “Sempre soube que minha carreira seria a música, e hoje estou longe da família e já passei por alguns perrengues. Ninguém da banda é ou está rico, mas nos sustentamos com a nossa arte e estamos aqui para provar que você pode optar por não trabalhar de terno e gravata em um escritório, se você não quiser”. E um futuro incerto é o que talvez assuste muitas pessoas, mas para o cantor e compositor, o próprio futuro é incerto. “Não creio que o futuro seja certo em nenhuma profissão”, diz Roman.
Assim como os outros integrantes, o vocalista largou a família para morar na capital paulista. A banda surgiu em 2004, ainda na faculdade, e desde 2005 os integrantes vivem da própria música. Para Roman, a própria sociedade obriga o indivíduo a ter um “trabalho convencional”. “O normal hoje é você trabalhar de segunda a segunda, levar o cachorro para passear no parque e visitar a sogra nas folgas”, brinca o vocalista. “Para mim não é assim, não trabalho pensando nas minhas férias, vivo a minha profissão, vou ao banco pensando na melodia que está faltando para uma estrofe”, exemplifica.
O ator Léo Santarosa, irmão do palhaço Lucas Santarosa, também largou a carreira na empresa da família e pensa que as pessoas devem mesmo procurar o que lhes dá prazer para ser um bom profissional. “Muitas pessoas hoje trabalham apenas para pagar aluguel e estão infelizes com o que fazem, mas não largam os empregos para tentar aquilo que nasceram para fazer”. O ator ainda acredita que a depressão é uma das doenças que mais afetam a sociedade e que a frustração é o fator que a desencadeia. “Um professor me disse uma vez que ‘há tantas pessoas perdidas do que são e do que querem, que no futuro podem se tornar suicidas’”.
Na opinião do ator é muito arriscado sair e se aventurar em profissões não muito convencionais. “Hoje, vivo com o dinheiro que ganho, mas já cheguei a morar no Espaço Zibaldoni por três anos, sem sobrar dinheiro para nada”, conta o ator. O Espaço, que leva o mesmo nome da trupe, fica em Ribeirão Preto, numa rua sem saída. Uma placa colorida indica o local onde os palhaços ensaiam, criam os espetáculos e realizam os eventos culturais, de onde tiram a maior parte do dinheiro para o sustento.
Todos eles optaram por um caminho diferente, seguindo e vivendo à margem do sistema, e buscando ser o que pensam que nasceram para ser. Capelini diz que vivemos em uma sociedade que se desenvolve economicamente a todo vapor e a dúvida é se, nessa sociedade seria possível redefinir o lugar do trabalho na vida do humano. Em vez do aprisionamento, o trabalho poderia se tornar instrumento de libertação, de realização das dimensões que ficaram, por séculos, suspensas em nome da agilidade da produção e do consumo.
E finaliza, “vivemos em tempos de incertezas, como lembra muito bem Edgar Morin, (pensador da teoria da complexidade), e os rumos do mundo são também incertos. Não temos mais oráculos, como os gregos antigos, que nos afirmem o futuro, portanto temos de criar forças para construí-lo”.
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Texto: Bruno Silva
Fotos: Carolina Alves. Diego Cagnato, Cesinha Ovalle, Leo Otero