A maternidade como propósito
A persistência para realizar o desejo de ser mãe é uma característica comum entre Karen Morejón, Rita de Cássia Aleixo de Souza e Natacha Dal Pino Zanchi
O depoimento de mulheres do mundo inteiro e o senso comum garantem: a maternidade é uma experiência única, somente compreendida por quem a vivencia. Dar à luz uma nova vida, senti-la formar-se no próprio corpo e vê-la crescer, celebrando novas conquistas a cada dia, não pode mesmo ser uma condição qualquer.
No entanto, a vida moderna modificou o papel da mulher na sociedade. Entre outras atividades, hoje ela também se preocupa com a vida profissional, quer construir uma carreira e conquistar independência antes da chegada de um filho. Tal aspecto, muitas vezes, adia a realização do sonho da maternidade.
A idade da futura mamãe é um dos fatores que mais leva os casais às clínicas de fertilidade no Brasil inteiro. Segundo os especialistas, as chances naturalmente são maiores até os 35 anos. Nesta idade, a médica infectologista Karen Mirna Loro Morejón resolveu buscar ajuda para engravidar. Depois de dois anos de tentativas, recebeu a recomendação de sua ginecologista para procurar um especialista no assunto. Os exames pelos quais ela e o marido, Vicente, passaram, mostraram a necessidade de uma cirurgia, já que Karen sofria de endometriose. “Felizmente, todos os procedimentos necessários correram sem nenhuma complicação”, recorda a mamãe das trigêmeas Helena, Luiza e Beatriz, que completaram um ano em março de 2012.
O susto ao descobrir a gravidez tripla, segundo Karen, foi enorme. “Não conseguia imaginar como poderia criar três crianças ao mesmo tempo”, afirma a infectologista, que contou com a ajuda de toda a família nesta tarefa. Para ela, a aproximação familiar está entre as conquistas proporcionadas pela gravidez. “Contei com a ajuda de todos, sempre dispostos a colaborar. Meu marido foi fantástico durante o tratamento, a gestação e, ainda hoje, surpreende positivamente como pai”, revela a mãe, que busca se divertir com a experiência e aproveitar cada descoberta, já que não pretende investir em outra gestação.
Para Karen, ser mãe é uma sucessão de boas surpresas, de novas descobertas e de redescobertas que valem a pena. Para as mulheres que ainda não obtiveram sucesso nos tratamentos de fertilidade, a médica tem uma recomendação: continue tentando. “Obstáculos sempre existirão, mas precisamos seguir em frente”, afirma.
Entre 10% e 15% dos casais enfrentam problemas para engravidar naturalmente. “Esse número também está relacionado ao maior acesso à informação que as pessoas têm sobre o tema atualmente”, acrescenta o ginecologista e obstetra Rui Alberto Ferriani, chefe do setor de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. A idade da mulher é um complicador por causa dos anos de vida de seus óvulos. “Quando nasce, a mulher já tem todos os óvulos disponíveis por toda a vida. Quanto mais velha ela fica, mais antigas ficam também suas células reprodutoras, que podem sofrer algumas mutações ao longo dos anos. Assim, maior será a dificuldade para engravidar”, esclarece o especialista, que é professor titular da Faculdade de Medicina da USP.
O desejo de Natacha Dal Pino Zanchi de ser mãe já era antigo, mas o marido não queria pensar no assunto. Quando o casal decidiu que era hora de ter um filho, a arquiteta e empresária já estava com 38 anos e precisou recorrer a tratamento. “Acompanhava notícias sobre fertilidade em jornais e revistas, além de ter visto de perto a realidade de uma tia e de uma prima que passavam pela mesma situação. Por isso, quando procurei ajuda, sabia o que enfrentaria”, afirma Natacha.
A empresária realizou uma fertilização in vitro, método mais comum aplicado em mulheres nesta faixa etária. Neste procedimento, a fecundação acontece fora do útero e, posteriormente, o embrião é implantado. Estatísticas apontam para uma taxa de sucesso de cerca de 40%, índice que inclui Natacha, bem-sucedida na primeira tentativa.
Todo o processo que antecedeu o procedimento foi realizado com prazer. “Estava em êxtase, já que realizaria um grande sonho de longa data”, recorda a empresária. O resultado positivo foi comemorado por todos os familiares e amigos. “Quase não acreditei! Saí enviando mensagens a todo mundo”, acrescenta. Para ela, escutar o coraçãozinho do bebê batendo pela primeira vez foi uma das emoções mais sensacionais que experimentou na vida, assim como o dia do nascimento do filho.
Há um ano, Natacha deu à luz o pequeno Luigi, que chegou com saúde e no tempo certo. Aos 40 anos, a empresária não descarta a possibilidade de uma nova tentativa, já que possui outros três embriões guardados na clínica de fertilização. Para as mães que ainda não foram bem-sucedidas nesta tentativa, Natacha recomenda dois ingredientes: um bom médico e uma fé inabalável. “Tendo isso, não tem como não dar certo”, garante a mamãe.
A receita já foi adotada por Rita de Cássia Aleixo de Souza, de 38 anos. Ela e o marido, Carlos Alberto, não obtiveram sucesso na primeira tentativa, mas não desistirão de realizar esse sonho. “Após o primeiro casamento, meu marido realizou vasectomia. Por isso, precisamos recorrer ao tratamento”, explica a professora, que encerrou o primeiro ciclo de tentativa em março deste ano. A preparação para a fertilização in vitro durou dois anos, com uma rotina de visitas mais intensas ao especialista no período final. “Durante este tempo, emagreci 20 quilos e me dediquei quase integralmente nas últimas semanas. Não conseguimos desta vez, mas tentaremos novamente”, garante Rita, que retorna ao Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto já em junho de 2012.
Apesar de casada há 12 anos, Rita confessa que já nutria a vontade de engravidar, mas a iniciativa demorou a acontecer. Segundo ela, o processo de preparação para a possível gravidez foi muito importante para o casal. “Ficamos ainda mais unidos e reforçamos a certeza de que tentaremos até o fim”, acrescenta a professora, que confia tanto no sucesso do tratamento que já escolheu os possíveis nomes do bebê que terá. “Se for menina, será Valentina. Se for menino, chamaremos de Victor”, revela.
Segundo o médico Rui Ferriani, hábitos de vida saudável também podem contribuir para o sucesso de uma reprodução assistida. “O fumo e a obesidade diminuem ainda mais as chances de uma gravidez”, aponta o médico. Portadores de Doenças Sexualmente Transmissíveis e pacientes que passaram por quimioterapia podem enfrentar dificuldades ainda maiores para conseguir uma gestação. “O importante é procurar um especilista, já que a medicina evolui rapidamente também nesta área”, recomenda o ginecologista que comanda este trabalho no HC.
Atendimento especializado
Segundo Ferriani, o tratamento da infertilidade deveria receber mais importância por parte dos órgãos de saúde pública, já que o problema também provoca desdobramentos emocionais e sociais. “O casal que enfrenta esse problema sem a ajuda necessária pode ter o relacionamento destruído, além de ter que lidar com outras questões fundamentais para a realização pessoal”, revela o especialista.
Iniciado em 1992, o Setor de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto é referência no tratamento de casais inférteis. O departamento, que recebe pacientes encaminhados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), tem capacidade para realizar 500 ciclos de reprodução assistida todos os anos. “Atendemos a pacientes de toda a Divisão Regional de Saúde e buscamos caminhos para ampliar este trabalho, já que acreditamos que a infertilidade é um problema que traz uma série de consequências sérias e, por isso, precisa ser tratado”, avalia Ferriani, que afirma que o número de ciclos de reprodução assistida no Brasil ainda é irrisório se comparado ao índice de casos de outros países.
Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Julio Sian e Carolina Alves