A missão de informar
Palestra de Heraldo Pereira teve músicas, vídeos e interação

A missão de informar

Na palestra que integra as comemorações dos 30 anos da Revide, realizada no Shopping Iguatemi no dia 17 de março, Heraldo Pereira comentou as principais mudanças na comunicação da atualidade

Ele descobriu o gosto pelo jornalismo ainda adolescente, quando trabalhou em um jornal de uma empresa de telefonia. Passou também pelo rádio e ingressou na televisão por meio da então recém-inaugurada TV Ribeirão Preto, afiliada da Rede Globo. De lá, seguiu para Campinas, onde cursou jornalismo, para São Paulo e para Brasília, onde, ainda hoje, acompanha o dia a dia político nacional. A rotina de Heraldo Pereira pouco permite que ele revisite sua terra natal, por isso, aproveitou o convite da Revide para retornar a Ribeirão Preto no dia 17 de março, quando realizou uma palestra no Shopping Iguatemi. O evento, que integra as comemorações dos 30 anos da Revide, atraiu grande público, especialmente entre profissionais e estudantes de comunicação.

Esbanjando simpatia e alegria por retornar à cidade, Heraldo iniciou a palestra mostrando logo sua face mais informal, ao compartilhar com o público a música “O Rei do Gado”, de Tião Carreiro e Pardinho, que cita Ribeirão Preto. “Toda vez que ouço esta música, eu me lembro da minha cidade”, disse o jornalista. As memórias musicais do jornalista foram resgatadas em outros momentos durante a palestra, em que Heraldo aproveitou para fazer um resgate do jornalismo e dos principais veículos de Ribeirão Preto, assim como para antecipar o que deve vir pela frente no cenário da comunicação. 

PARABÉNS À REVIDE

“Nosso papo aqui, hoje, começa com o motivo de eu estar aqui, o aniversário da Revide. Portanto, meus parabéns aos profissionais e ao público por esses 30 anos. (...) Eu comecei no jornal impresso e sei que não é fácil tocar um desafio como esse. A revista está de parabéns pela continuidade, pelos números expressivos e pelo significado que tem na cidade e na região.”

UM BREVE RESGATE

“O jornalismo impresso em Ribeirão Preto tem alguns marcos que os estudantes não devem perder de vista. ‘O Domingão’, por exemplo, era um semanário alternativo que, nos anos 70, tornou-se um marco na comunicação no interior de São Paulo e em Ribeirão Preto. Para cá vieram alguns jornalistas de São Paulo, como José Hamilton Ribeiro, que é hoje repórter no Globo Rural, e Benito Valença, entre outros. Os jornais em Ribeirão Preto passaram por uma revolução a partir da chegada desses profissionais. Destaco a matéria em que Rosana Zaidan, hoje na CBN e no Jornal A Cidade, vestiu-se de ‘Margarida’ para interpretar um pouco a vida das profissionais da limpeza urbana. Isso é o que se poderia chamar de jornalismo concreto. Essa geração revolucionou a comunicação em Ribeirão Preto, até então, muito pouco calcada no impresso e, mais ainda, no rádio.”

HOMENAGEM 1

“Formamos em Ribeirão Preto uma escola de rádio como não existia em outros lugares do Brasil. Rendo, aqui, minha homenagem a figuras como Marcos Antônio Magrini e José Wilson Toni, dois repórteres que foram o que eu queria ser, naquele momento. Há inúmeros outros, mas com esses dois eu cheguei a trabalhar. Toda vez que vocês, jornalistas e futuros jornalistas, fizerem algum trabalho, não se esqueçam desses nomes. Há outros tantos ainda em atividade, mas não daria para mencionar todos.”

O RÁDIO EM RIBEIRÃO PRETO

“O rádio era comprometido com a prestação de serviço, o que também está relacionado à essência do jornalismo. A profissão não existe se não for para informar ou para prestar serviço, se não tiver utilidade pública. Mas tem uma coisa que eu discordo em relação ao rádio de Ribeirão Preto. Sempre fiquei incomodado com a relação entre os comunicadores e a política. Tivemos muitos radialistas que acabaram enviesando para a política, e acho que são papéis muito distintos.”

HOMENAGEM 2

“Por aqui, passou a precursora TV Tupi, no final dos anos 50, começo dos 60. Mais tarde, em 1981, mais ou menos, chegou por aqui a TV Ribeirão. A turma formada basicamente no rádio seguiu para a televisão. Reunimos alguns comunicadores que ganharam destaque nacional. Dessa geração, para mim, José Luis Datena é o maior profissional de comunicação que a cidade já produziu: é completo, passou por todas as mídias e não entrou na política. É uma satisfação ter um filho da terra, amigo nosso, nessa posição.”

O FUTURO

“Os meios tradicionais de comunicação — o jornal, a revista, o rádio e a TV — estão sendo maximizados e serão completamente transformados, cada vez mais, pela rede mundial de computadores. Não sabemos o que acontecerá ou como será a comunicação daqui para frente, mas nada disso importará se você não tiver um conteúdo para passar. Por isso, Machado de Assis é tão atual: porque tem conteúdo. Isso certamente continuará sendo muito importante. (...) Nos Estados Unidos, estima-se que o jornal impresso irá desaparecer em três anos. No Brasil, isso deve acontecer nos próximos 10 anos. As revistas seguem a mesma tendência. Por isso, ter um portal de comunicação é tão importante.”

ERA DIGITAL

“As redes de contato por meio da internet, ou seja, as redes sociais, permitem experiências fantásticas. Essa ferramenta é ‘o bicho’, mas não podemos esquecer que Machado de Assis também é ‘o bicho’. (...) Antes das redes sociais, havia os comunicadores profissionais. Agora, há cada vez mais pessoas fazendo comunicação. Isso é bacana: as pessoas criticam, tomam posição, o que, de uma forma ou de outra, é importante.”

CURIOSIDADES DO PÚBLICO

Durante a palestra, Heraldo fez questão de responder algumas perguntas surgidas na plateia

Você acha que o jornalismo está desvalorizado no Brasil?

Heraldo: O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, costuma dizer que “de tédio não se morre no STF”. Eu diria a mesma coisa sobre o jornalismo. De tempos em tempos, em todos os grandes centros, aparecem pautas que começam pela manhã de um jeito e vão mudando ao longo do dia, várias vezes, inclusive. Isso quer dizer que o jornalismo está em plena atividade. São muitos os fatos e muitas as mídias e os meios de comunicação. Hoje, todos fazem comunicação de massa, graças às redes de contato. Teve um tempo que apenas os jornalistas profissionais faziam comunicação. Hoje não, qualquer um é um comunicador.

O jornalismo moderno é mais fácil?

Heraldo: Não. O jornalismo atual apenas tem ferramentas que os profissionais de antigamente não tinham. Saibam vocês que um grande jornalista do Brasil, Machado de Assis, não tinha ferramenta de internet. Os jovens não podem se acomodar achando que está tudo à mão, por meio da internet. Continua sendo extremamente importante ler, como a gente lia antigamente. É isso que faz a diferença. Não estou falando de texto da internet, mas dos grandes autores. O jornalismo precisa disso desde sempre. 

Como você avalia o atual cenário da comunicação? Qual o maior desafio de trabalhar na TV?

Heraldo: O maior desafio da TV é encarar um dia longo, cheio de reuniões e outros compromissos e, daqui a pouco, entrar ao vivo no Jornal da Globo. Os meios de comunicação enfrentam um desafio muito grande, que é encarar as plataformas a partir da internet. O mundo está mudando muito rápido. Esses dias, estava com o Helio Costa, ex-ministro e jornalista, que me dizia que não dá para saber o que será dos meios de comunicação em 10 anos. Então, o cenário está mudando muito e acompanhá-lo é um enorme desafio.

Qual é a pior experiência que passou como repórter?

Heraldo: Nós, que somos repórteres, passamos por experiências delicadas no dia a dia. Há um problema agora no país de um enfrentamento político e, com ele, a possibilidade de conflitos entre grupos políticos organizados, e deles em relação aos profissionais de mídia. Por isso, todo dia eu temo pelos meus colegas na labuta. No entanto, o jornalista é só um vetor da informação. Nunca tive partido político, sou apenas um comunicador. E os piores momentos acontecem todos os dias, quando você está envolvido em uma cobertura e não se sabe ao certo de onde pode vir o problema.

Você já sofreu ou sofre preconceito por ser negro?

Heraldo: Evidentemente, vou com a minha cor para todos os lugares, desde que nasci. No Brasil, temos uma questão racial não resolvida, e não seremos uma nação se não enfrentarmos essa questão. Eu tenho um amigo, o Martinho da Villa, que diz sempre: “dá uma olhada no lugar onde você está para ver como é colorido”. Apesar dessa mistura de raças tipicamente brasileira, a subrepresentação de negros no país é uma questão grave. Teremos que resolver se queremos fazer desse país uma nação em que as pessoas não têm como referência primeira a cor da pele. Somos misturados na cor, mas não somos tão misturados na matriz econômica e nas universidades. O Brasil vai ter que se encontrar com essa realidade. Sou discriminado pelo fato de ser negro, como todas as pessoas da minha cor, sendo que as mulheres negras ficam em situação muito pior do que o homem negro, que é uma situação pior do que a das mulheres brancas, segundo os dados oficiais. Diante disso, não se trata de um indivíduo ou de outro que sofre discriminação. A questão é que, no Brasil, o negro é discriminado. Isso acontece porque  o país tem uma matriz na pós-abolição, em que a questão racial não foi solucionada. Posso dizer que as pessoas me tratam muito bem, mas falo em nome de outras pessoas, que enfrentam uma situação muito pior do que a minha no Brasil, que é nosso: somos nós que construímos o país. Não vejo as pessoas pela cor da pele. Não adianta, contudo, nós, negros, ficarmos reclamando. Temos que partir para uma atitude. Acho que o caminho é judicial, policial, de enfrentamento e de ocupação dos espaços. 

Diante de tudo o que está acontecendo no país nos últimos dias, o que todos se perguntam é se haverá ou não novo impeachment no Brasil.

Heraldo: A comissão de impeachment já foi instalada nesta tarde. Sua presidência e sua relatoria estão sendo definidas nesse momento e o trabalho começou. Primeiro, há uma comissão de admissibilidade do impeachment: o presidente da Câmara dos Deputados precisa admitir o processo; depois, é preciso que uma comissão especial analise e, então, o processo segue para o Senado Federal. Esse processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff, por crime de responsabilidade, já foi iniciado. Espero me preparar para acompanhar mais esse capítulo.

Em meio a essa crise política, qual é o papel do jornalismo?

Heraldo: Informar. Antigamente, até se discutia se o jornalista tinha que dar opinião, e há colegas que seguem essa linha. Antes disso, no entanto, o jornalismo precisa informar, responder as principais perguntas e deixar que as pessoas tirem suas próprias conclusões. Claro que cada um de nós, jornalistas, têm sua opinião formada, como qualquer outra pessoa, mas somos treinados e ficamos o dia inteiro lutando para nos despir dos preconceitos, em todos os níveis. A conclusão deve ser do público. 

Hoje, no Brasil, os termos “direita” e “esquerda” estão bem colocados?

Heraldo: Não. Esses termos se referem aos lugares ocupados no parlamento inglês e a nomenclatura acabou adotada pelos países da América Latina. No entanto, esses termos estão completamente errados. O que deve ter significado é que os representantes ocupem o papel entregue a eles pelo eleitor, essa é a questão. Passamos por uma crise de representatividade. Talvez, quem deveria te representar não te represente, em diferentes esferas. Esse é o grande drama que passamos hoje. 

Que nota você daria para a nossa educação?

Heraldo: Em Ribeirão Preto, estudei em escolas públicas basicamente. Na verdade, quando íamos para uma escola particular era porque tínhamos dificuldade para acompanhar o ensino público, que reprovava ainda naquela época. Sou de um tempo em que essas instituições eram excepcionais. Antigamente, o professor era uma autoridade dentro da sala, era uma liderança importante. Acho que tudo isso precisa ser resgatado. Não costumo dar nota, mas posso dizer que não estamos bem na educação no Brasil. 

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